Giacomo Leopardi: o italiano que transformou a dor em poesia de alta qualidade
21 março 2026 às 21h00

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“A obra de Leopardi é a mais perfeita de uma literatura tão grande como a italiana”. — Otto Maria Carpeaux
Considerado o maior poeta italiano, ao lado de Dante e Petrarca, e até hoje um dos maiores de todas as épocas e países, Giacomo Leopardi (1798-1837) passou por duas experiências extremas e conflitantes e, porque não dizer, complementares, durante toda sua vida: ser um gênio da literatura e sofrer as dores de uma saúde precária e em constante degeneração. Enquanto sua mente, erudita e privilegiada, o alçava aos píncaros de um paraíso dantesco, seu corpo, ao contrário, carregava-o às profundezas do Hades, fazendo-o sentir-se um eterno condenado, tal como descrito na Comédia de seu aclamado compatriota.
Em sua infância e juventude sofreu também com um péssimo relacionamento familiar. Seu pai, o conde Monaldo Leopardi, imaginava para o filho um futuro de grandeza. Com este firme propósito, sufocava-o com regras e exigências que lhe tiravam a autonomia, de forma opressiva.
Giacomo foi criado dentro da riquíssima biblioteca de seu pai, Monaldo, e, aos treze, quatorze anos, já dominava o latim, o italiano, o grego, o hebraico, o inglês e o francês e espanhol.
Porém, desconhecia seu próprio mundo, apenas sobrevivia na pequena Recanati, vila onde nascera e de onde nunca saíra. Só sairia do pequeno burgo, onde se sentia aprisionado, em 1822, aos 24 anos, contra a vontade do pai, por influência de grandes amigos intelectuais com os quais se correspondia e que lhe ofereciam cátedras em diversas universidades, as quais nunca aceitou.
Como resultado dos estudos ininterruptos na grandiosa biblioteca paterna, adquiriu uma escoliose deformadora, sérios problemas visuais e outros males, com os quais conviveu e dos quais foi vítima, tendo morrido com apenas 38 anos. Hoje, os especialistas acreditam que o grande poeta sofresse de spondilite anquilosante juvenil, doença crônica e que leva a deformidades físicas.

Mas sua desdita foi mais além. Nunca teve experiências amorosas, que é o desejo de todo jovem. Seu corpo deformado tirava-lhe a chance de ser amado por alguma mulher. No entanto, apaixonou-se perdidamente algumas vezes, sempre por mulheres casadas, sem nunca ser correspondido. Seus amores foram transformados e sublimados em poemas, o que lhe valeu a produção de belíssimas canzoni de amor, que compõem os “Canti”.
“Leopardi elide, alude, contorce e oculta”
Sua imensa erudição deu-lhe as bases para formar conceitos a respeito do fazer poético. Assim, coube a ele produzir poemas considerados irretocáveis.
Para Leopardi, a poesia deve conter elementos fundamentais, sem os quais se empobreceria, como a nobreza, a elegância e a grandeza. Também não deve ser descritiva, como a escrita prosaica, porém deve ser elíptica, usar de mais insinuações do que de afirmações, apenas sugerir, e não recomendar ou afirmar.
Ao ser descritiva a poesia assemelha-se mais a um tratado científico, seja das ciências naturais ou humanas, ou mesmo a um rol de intenções, perde lirismo e demais características próprias da composição poética. “Leopardi elide, alude, contorce e oculta”, palavras do tradutor e comentarista Álvaro A. Antunes (“Cantos”, Giacomo Leopardi, tradução de Álvaro A. Antunes, Editora 34, 381 páginas, edição bilingue) para descrever seu modus operandi poético. Assim se faz poesia de alta qualidade.
Sua convicção sobre a superioridade das literaturas grega e romana levou-o à sua escrita fantástica e a afirmar que “sem o antigo não pode existir linguagem poética”. Sua poesia, porém, ao contrário do que se possa imaginar, difere muito da greco-romana na forma, mas tem com ela valores estéticos e filosóficos em comum.
Utiliza-se do metro e da rima, embora de maneira bem própria e diferente da clássica antiga. Um excelente professor de Língua Portuguesa, o brasileiro Jorge Miguel, compara a poesia contemporânea, sem métrica, a um jogo de tênis sem o uso da rede, uma facilitação que deteriora o resultado estético e originalmente aceito.
Seus “Cantos” são em número de quarenta e um. Dois são canzoni patrióticas e a maioria são canti de amor não correspondido.
Em seu aclamado poema “A Sílvia”, os versos são de dez e seis sílabas, dispostos livremente e sem separação em estrofes. As rimas toantes (aquelas que se fazem apenas pelos sons vocálicos) são muito utilizadas por Leopardi e também não obedecem à sequência tradicional. “A Sílvia” nos inebria e emociona pela perfeição formal e pelo alto teor emocional que lhe foi imprimido. O poeta italiano é, antes de tudo, um perfeccionista da linguagem e um perfeito expositor dos sentimentos mais profundos.
Transcrevo duas estrofes do poema “O Renascimento”, em que o autor comemora sua volta à poesia depois de cinco anos sem escrever versos. O poema tem vinte estrofes de oito versos de seis sílabas. Nele, o autor descreve seu sofrimento pelo amor não correspondido e o alívio, verdadeiro renascer, quando o sentimento amoroso chega ao fim.
O Renascimento
Pensei que nada houvesse-me,
Na plena flor dos anos,
Dos doces meus enganos
Restado ainda: oh sim,
Doces enganos, tímidos
Tremidos do meu peito,
Tudo que tem o efeito
De nos mover enfim.
*
Quanto lamento e lágrimas
Verti no novo estado,
Quando no imo gelado
Primeiro a dor faltou!
Não mais vivia trêmulo,
Secou do amor o veio,
E frígido o meu seio
De suspirar cessou!
Ele foi, além de poeta, filólogo e ensaísta. Aprofundou-se no estudo de escritores gregos antigos e traduziu a obra de inúmeros deles.
O teor sombrio e melancólico de sua obra tem correlação direta, certamente, com o sofrimento físico e emocional e com a falta de perspectivas de cura para seus males.
O sofrimento humano, por contraste, sempre dá ao homem a verdadeira dimensão da felicidade. Ao purgar suas dores ele se vê frente a frente consigo mesmo, em um embate em que a inevitabilidade se sobrepõe ao indivíduo. Talvez, por esse motivo, Leopardi, o enorme poeta, tenha produzido poemas de grande intensidade dramática, nos quais arquitetou reflexões de intensa beleza e pureza de propósitos.
Giacomo Leopardi, decerto, assemelha-se à flor de lótus, que do lodo tira sua subsistência, transformando-o em beleza, pureza e harmonia.
Marina T. S. Canedo, poeta e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

