Roberson Guimarães

Um breve comentário sobre o romance “Gelo” (Fósforo, 208 páginas, tradução de Camila von Holdefer), da romancista, contista e pintora britânica Anna Kavan (1901-1968). O livro foi publicado na Inglaterra em 1967.

A história nos leva a um ambiente distópico e acompanha três personagens em sua luta uns contra os outros e contra a aniquilação quase certa.

Uma plataforma de gelo, resultante de algum tipo de conflito nuclear, está engolindo o mundo. A paisagem está descolorida; a neve uniformiza e sufoca as cidades e edifícios. Paredes de gelo se levantam e irrompem por todos os lados.

Anna Kavan foto Reprodução
Anna Kavan: escritora britânica | Foto: Reprodução

Medo, delírio, domínio e desejo: inseparáveis

As estradas estão bloqueadas dificultando a busca do Narrador por uma Garota sem nome, tão frágil quanto vidro veneziano, de longos cabelos brancosprateados. Ela está sendo mantida em cativeiro por outro homem, o Guardião, uma espécie de militar que parece controlar o país.

O gelo não funciona apenas como cenário apocalíptico; ele vira forma de percepção, de modo que a linguagem se resfria, endurece, estilhaça e repete, enquanto a consciência do narrador faz o mesmo.

Mais que uma narrativa de aventura ou sobrevivência, o livro encena a impossibilidade de separar desejo, medo, domínio e delírio.

O romance se manifesta em três núcleos

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Primeiro, o narrador que fala como quem registra fatos, mas seu discurso sabota essa aparência de objetividade. A história nunca chega a nós em estado puro; ela já vem filtrada por uma consciência que deseja e distorce ao mesmo tempo.

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O segundo núcleo é a garota como centro de desejo, projeção e violência. A história se organiza em torno dela, mas ela raramente recebe densidade interior equivalente; ela aparece sobretudo vista, tocada, arrastada, protegida, trancada, observada, isto é, transformada em objeto do olhar e da ação alheia.

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O terceiro núcleo é o colapso do mundo. O gelo, a guerra, a fome, os saques, a dificuldade de comunicação entre países e os rumores termonucleares formam um cenário de decomposição global. O desastre exterior reproduz a lógica interior do narrador: avanço implacável, redução de horizontes, congelamento afetivo, destruição de formas estáveis de convivência e conhecimento.

Os três núcleos convergem porque Kavan faz do enredo uma máquina de equivalências. A perseguição da garota, a fragmentação do eu e o avanço do gelo são versões diferentes da mesma força: uma energia de dominação e aniquilamento.

Imersão contaminada

O ponto ético de “Gelo” está no fato de que o romance não separa com conforto a crítica da violência de sua encenação estética.

Anna Kavan quer nos colocar dentro de uma imaginação masculina predatória sem nos oferecer uma distância moral estável, e é isso que torna o livro tão incômodo. O romance é saturado por violência sexual, misoginia e abuso, mas essa violência não aparece como mero choque: ela é constitutiva da forma onírica e da atmosfera de fim do mundo. O efeito, então, não é o de uma denúncia limpa, e sim o de uma imersão contaminada, em que o leitor sente ao mesmo tempo repulsa e fascínio.

Gelo é um romance curto e brutal, perturbador e alucinógeno; dá a impressão de que Kafka, Baudelaire e H. G. Wells tomaram uma quantidade absurda de ácido e escreveram um livro juntos.

Roberson Guimarães, médico e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.