Soraya Castro

Especial para o Jornal Opção

A escritora venezuelana María Elena Morán, 40 anos, nascida em Maracaibo e radicada no Brasil, construiu sua trajetória literária transitando entre diferentes linguagens e países. Formada em comunicação social e com passagem pelo roteiro cinematográfico, chegou à ficção depois de um percurso que atravessa jornalismo, cinema e escrita criativa.

O primeiro romance de María Elena Morán é “Os Continentes de Dentro” (Zouk, 240 páginas), de 2021.

Autora do romance “Voltar a Quando”, obra que investiga memória, deslocamento e relações familiares, María Elena Morán vem se consolidando como uma das vozes contemporâneas da literatura latino-americana interessadas na tensão entre experiência íntima e contexto histórico.

A escritora é mestre e doutora pela PUC-R.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção, a autora fala sobre seu percurso entre Venezuela e Brasil, o diálogo entre cinema e literatura em seu processo criativo, os riscos formais assumidos em “Voltar a Quando” e o modo como a memória, a ausência e os conflitos íntimos se transformam em matéria literária.

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Maria Elena Morán: escritora, roteirista e intelectual múltipla | Foto: Facebook/Montagem Jornal Opção

Entrevista de María Elena Morán, escritora venezuelana

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Antes de falarmos do livro, gostaria de começar pela sua própria história. Como foi, para você, deixar a Venezuela e construir vida no Brasil? Em que medida essa experiência de deslocamento atravessou não apenas os temas que escreve, mas também sua forma de narrar?

Eu saí da Venezuela para estudar cinema em Cuba e foi lá onde conheci meu companheiro, brasileiro, e foi por essa história de amor que acabei vindo pro Brasil. Ou seja, a minha história não é a daqueles que saíram do país no meio da crise e apenas com uma mochila nas costas, acho importante deixar isso claro.

Por outro lado, sou uma imigrante e tive que construir uma vida do zero num país e numa língua alheias, mas vivo a Venezuela e suas derivas através dos meus e do que consigo fazer, daqui, para ajudar.

Maria Elena Morán capa de Os continentes de dentro 450

Isso tem marcado profundamente meu jeito de escrever de formas que só hoje, depois de um bom tempo, consigo enxergar. Para além do natural hibridismo cultural e idiomático, acredito que a distância tem me dado uma valorização do local venezuelano que talvez estando lá não aconteceria dessa forma. Nunca saberei. Já a minha aproximação com o português, que nunca estudei formalmente, é muito mais selvagem e espontânea do que com o espanhol, o que tem me dado algumas liberdades, às vezes até acidentais, que, na minha língua materna, não são tais, pois tenho suas leis introjetadas e qualquer desvio é fruto de uma escolha firme e estudada.

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Sua formação atravessa diferentes linguagens e países. Como você descreveria o percurso que a levou da estudante de comunicação à romancista publicada internacionalmente?

A literatura era um desejo antigo, que eu demorei muito tempo a assumir. Acho que o meu caminho foi no sentido de ir me permitindo aos poucos entrar em contato com esse desejo. Fui chegando pelas beiradas — do jornalismo ao roteiro de cinema e do cinema à literatura —, até que me deparei com ele na minha frente e já não quis olhar para outro lado.

Maria Elena Morán Los Continentes del Adentro 55577

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Você transita entre o roteiro e o romance. O que leva do audiovisual para a literatura (montagem, corte, ritmo…), e o que a literatura te permite que o audiovisual te nega?

A escrita para cinema marca minha literatura de muitas maneiras, tanto em questões formais quanto de processo criativo. Por um lado, acredito que há heranças do cinema na minha construção de cenas e numa certa ideia de ritmo e sensorialidade. Também faço contrabandos com o método e não abandono jamais a storyline, a sinopse, a escaleta, ainda que usando elas muito livremente e até onde me funcionem, diferente do cinema, onde várias dessas ferramentas se burocratizam, deixam de ser material criativo para se tornar instrumento de venda.

O que o audiovisual me nega? Acho que o primeiro ponto é a total soberania sobre a história. O cinema é coletivo praticamente desde o momento zero, o que implica em estar numa constante negociação com várias instâncias, convencendo aqui, persuadindo lá. Isso gera um processo criativo completamente diferente daquele que se dá quando é só você e a página. Acho que, na literatura, eu me sinto um tanto à intempérie. Tudo o que surgir de bom e de ruim é responsabilidade minha, e eu encontro muito prazer nesse risco.

Maria Elena Morán capa de voltar a quando 450

Depois, tem a palavra como dona e senhora de tudo, e isso faz uma diferença brutal. No cinema, o momento mais prazeroso é aquele de pensar a história, discuti-la, fazer aquela chuva de ideias. Já na literatura, o auge está na luta com a palavra, na busca da frase que consiga montar a paisagem que você sente que pertence à personagem e que conta seu drama. Ainda que a minha sensação de ritmo, num sentido macro, venha de uma herança estrutural do cinema, no micro, ele me leva por uma busca diferente e muito mais profunda, pois começa na musicalidade da palavra e da frase, e vai até a estruturação da narrativa. Esse nível do ritmo que, na literatura, emana da frase, no caso do cinema, se faz nas escolhas de linguagem que lhe são específicas, os planos e sua duração, por exemplo.

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Ao revisitar seu primeiro romance, que tipo de autora você reconhece ali? E o que o tempo, a experiência e a vida entre países acrescentaram à escritora que assina “Voltar a Quando”?

Acho tão difícil responder essa pergunta… mas ao mesmo tempo é um exercício sumamente interessante. Por um lado, me reconheço por inteiro. Acredito que certas obsessões — relações entre mulheres, família, fantasmas literais e metafóricos — estão colocadas sob roupagens diferentes, mas permanecem e tenho certeza de que continuarão a aparecer em próximos livros. Também há inquietações de estilo que já aparecem em “Continentes” e que amadureceram e se radicalizaram; sinto que em “Voltar a Quando” eu assumi riscos formais maiores.

Maria Elena Morán capa de Tornare a quando 450ok7

Talvez a maior mudança esteja relacionada com a minha relação pessoal com os temas de cada livro. Em “Continentes”, por mais íntimas que sejam as questões, eu estava mais protegida pelo véu da ficção, por um distanciamento maior das dores retratadas, por tanto, poderíamos dizer que tive uma relação mais “segura” com aquilo, e acredito que isso tenha sido um caminho, por ser meu primeiro livro.

Já “Voltar a Quando” foi muito mais visceral e catártico. Eu fiz o que quis, como quis, porque era o que eu precisava e porque me parecia, também, que existia um “nós” que eu queria recuperar, redimir, repensar. Era um grito preso na garganta durante anos e nesses anos eu ganhei a coragem para botar ele no mundo com a fúria necessária, em termos de trama e de estilo.

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O título “Voltar a Quando” é uma pergunta camuflada. Não é “voltar para onde”, nem “voltar a quê’. Em que momento você encontrou esse título e o que ele te obrigou a fazer (ou não fazer) dentro do romance?

“Voltar a Quando” é a primeira anotação que eu fiz sobre o romance. Eu vinha pensando muito sobre essa escrita, precisando dela e ao mesmo tempo fugindo dela. Minhas primeiras anotações quase sempre são perguntas, e são elas que me orientam. Neste caso, é uma pergunta que condensa meu sentimento sobre a migração, sobre Venezuela e sobre o conflito profundo que sustenta o livro e que está relacionado com assumir o fracasso da revolução, do sonho no qual apostamos, algo que eu empresto à personagem de Nina.

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María Elena Morán: mestre e doutora pela PUC do Rio Grande do Sul | Foto: Facebook

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Nas cenas envolvendo Raúl, a narrativa constrói uma presença incorporada à memória, e não um elemento sobrenatural. Como você trabalhou essa escolha para que ela permanecesse orgânica ao romance?

Eu fiz com que cada uma das três mulheres relacionadas com ele o tivesse como uma companhia de outro plano, que servisse de guia ética e sensível, e, principalmente, de amparo, ainda que já não mais acompanhando fisicamente suas trajetórias. Quando ele aparece, já está estabelecida a imensidão da sua falta e o desejo de encontro. A presença do mundo dos mortos está dada através dessa memória vivida que marca os dias. O além, sua fisicalidade, chega para se encaixar nesse universo, sem um dogma explicando nada, pois também fica claro que os credos dessas personagens não se baseiam em religiões.

A minha tentativa foi trabalhar essa personagem como uma alegoria da memória, essa presença arrebatadora que, estejamos conscientes dela ou não, nos conduz, nos alerta, nos derruba e nos abraça. Como digo mais pro final do livro, Nina não acreditava em Deus, mas acreditava na memória.

“Acho necessário o grito, a fúria”

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“Voltar a Quando” tem sido lido com muita intensidade emocional. Depois que o livro deixa de ser apenas seu e passa a circular entre leitores e críticos, o que muda na sua relação com ele? A recepção altera sua percepção da obra?

Na verdade, eu sinto que se completa, mas não muda. Eu amo perceber os detalhes dos que os leitores se agarram, o que os comove, o que os impacta, o que os indigna. Amo constatar que detalhes mínimos que eu planto, achando que ninguém vai reparar, são percebidos e geram emoções.

E amo, sobretudo, a constatação de que aquilo que me comove durante a escrita, às vezes nem sendo grandes momentos em termos de trama, gera as mesmas emoções nos leitores. Constatar essa ponte possível me emociona sempre. E tem se tornado também uma bússola na hora da escrita: se aquilo me toca, vai tocar alguém. Como um presságio ou um feitiço. Me sinto como uma bruxa frente a um caldeirão.

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Você escreve um romance de alta densidade emocional sem “gritar” na página. Como você vê o espaço, hoje, para uma literatura de sutileza, especialmente quando tantas leituras parecem pedir urgência, mensagem e posicionamento imediato?

Às vezes eu sinto que grito e isso não me incomoda. Acho necessário o grito, a fúria. Só que talvez seja um grito não só contra os outros e sim contra mim mesma. Acho que há poder em reconhecer isso, porque os monstros não estão só fora, e por isso é tão difícil fugir deles. Acho que há mais literatura nos nossos demônios internos — pelo menos é essa a literatura que mais me interessa.

Soraya Castro, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.