Empatia para além da palavra: Clarice Lispector e o conto ‘Mineirinho’
20 dezembro 2025 às 21h00

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Saymonn Caetano, especial para o Jornal Opção
Falar sobre empatia tornou-se usual. O tema ganhou visibilidade e está presente nos discursos institucionais, nas campanhas publicitárias, nas diferentes redes sociais e até nos manuais corporativos de gestão. Falar de empatia, hoje, parece abarcar quase tudo: gentileza, cordialidade, tolerância, sensibilidade. Ainda assim, quanto mais o termo circula, menos ele parece exigir de nós alguma reflexão.
O tema da empatia ganha atenção na filosofia nos estudos de Edmund Husserl (1859-1938) a partir da corrente fenomenológica. Contudo, é no trabalho “Sobre a Empatia” de sua aluna e discípula, Edith Stein (1891-1942) que a essência do termo empatia recebe uma análise e dimensões mais aprofundadas. Empatia*, portanto, diz respeito a possibilidade de acessar o Outro como Outro, reconhecer sua dor, sua alegria e sua humanidade sem reduzi-lo a um reflexo de nós mesmos. Trata-se, nesse sentido, de um complexo processo de apreender a vivência alheia, sua interioridade através da experiência vivenciada.
Pois bem, esta pequena introdução é suficiente para sinalizar que a empatia corresponde de forma mais complexa e exigente do que um simples deslocar-se (colocar-se no lugar do outro), haja vista não haver possibilidade de assumir o lugar do outro, seu corpo, suas vivências e experiências são únicos e intransferíveis. A empatia acima de tudo exige de nós reconhecer no outro sua humanidade, sua individualidade e estrutura corpórea, psíquica e espiritual.
Publicado originalmente em 1962, o conto de Clarice Lispector (1920 – 1977) intitulado “Mineirinho**” é parte de um fato real experienciado pela autora. Clarice, que fez aniversário no último dia 10 de dezembro, é responsável por uma escrita que dispensa apresentações, afinal é impossível descrevê-la, narrá-la, e essa capacidade de descrever os fenômenos da experiência humana é uma característica única que apenas a ela foi dada.
O conto em questão narra sua experiência diante de uma notícia de jornal que trata da execução de um criminoso conhecido como Mineirinho*** executado com treze tiros pela polícia do Rio de Janeiro. Os relatos de Clarice não se detêm numa análise moral ou em defesa dos crimes cometidos pelo personagem, mas seu incômodo diante da experiência empática que lhe é apresentada, expondo ao leitor toda a violência e crueldade que a cena lhe atinge.

Cabe destacar que Clarice jamais conheceu “Mineirinho”, tampouco teve qualquer contato ou experiência próxima. Ou seja, seu desconforto se dá numa dimensão que escapa de qualquer noção de proximidade, mas concentra-se na percepção de uma unidade maior que conecta a todos nós: nossa humanidade.
“É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes”. […] Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos.
Durante sua narrativa, Clarice expõe a forma como aquela noticia lhe atinge, fere, machuca, mata:
“[…], Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro (grifo nosso).
Cada um dos trezes tiros narrados por Clarice é um lembrete da humanidade que se manifesta em cada um de nós e que, independentemente de quaisquer contextos ou situações, ainda nos iguala. A complexidade na narrativa está justamente na forma como a autora é capaz de aproximar essa humanidade, experienciando numa dimensão não apenas corpórea, mas psíquica e espiritual.
A chave de leitura de “Mineirinho” ilustra de forma oportuna a noção de empatia defendida por Edith Stein, ou seja, a empatia não apaga a diferença entre Eu e o Outro, mas justamente a preserva. Assim, eu não me torno Mineirinho, afinal há um corpo que nos difere e afasta, mas reconheço nele uma vida que não poderia ser reduzida a um rótulo: “bandido”, “monstro” “bárbaro”.
O exercício proposto por Clarice Lispector é de uma escrita contra a anestesia, os distanciamentos e ambiguidades que essencialmente fazem parte e são características de nossa humanidade, mas que por isso mesmo nos aproxima de forma tão semelhante. E isso assusta.
Para além das inúmeras interpretações que o conto é capaz de produzir, a intenção deste pequeno ensaio é evidenciar o complexo caráter dos atos e vivências da empatia, inclusive, por vezes como uma experiência desconfortável e perturbadora. Afinal, empatizar não é colocar-se acima do outro, mas se deixar afetar por sua existência.
É preciso conhecer e assumir os riscos do processo de empatia, afinal ela é, antes, uma experiência intersubjetiva, ou seja, um contínuo encontro com o outro onde a própria ideia de humanidade se constitui. Só posso reconhecer plenamente quem sou porque sou atravessado pela existência de outros, por suas experiências, suas fragilidades e seus limites. A empatia, nesse sentido, não é um adorno moral, mas o próprio fundamento da vida em comum.
É justamente isso que a leitura de “Mineirinho” nos obriga a encarar. Quando a morte de um homem deixa de nos afetar, quando sua história é reduzida a um prontuário ou a uma manchete policial, algo se rompe não apenas nele, mas em todos nós. A escrita de Clarice expõe exatamente o perigo de uma sociedade que abdica da empatia como experiência efetivamente compartilhada e, com isso, aceita uma humanidade fragmentada, hierarquizada, onde alguns são reconhecidos como vidas passiveis de luto e outros como descartáveis.
Empatizar é aceitar que a experiência do outro nos transforma, nos compromete e nos responsabiliza. E talvez seja apenas nesse movimento – incômodo, exigente e profundamente humano – que ainda possamos falar em uma sociedade que não desiste de si mesma.
Saymonn Caetano é graduado em Direito e Filosofia pela UFG, especialista e mestre em Direitos Humanos pela mesma universidade
*“A palavra alemã utilizada por Husserl (Einfuhlung) é composta por três partes, o núcleo fuhl significa ‘sentir’. Há na língua grega uma palavra que poderia corresponder a fuhl (e a feeling, derivada da língua latina): pathos, que significa ‘sofrer’ e ‘estar perto’. A palavra empatia é uma tentativa de tradução desse sentir em termos linguísticos espontâneos do ser humano, para sentir o outro. Uma outra tradução poderia ser entropatia. […] Usamos entropatia para dizer que, imediatamente, captamos que estamos diante de seres viventes como nós”. BELLO, Angela Ales. Introdução à fenomenologia, p.64-65.
**LISPECTOR, Clarice. Mineirinho. In: LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964, p152.
***“José Rosa de Miranda, o “Mineirinho”, foi encontrado morto, ontem na Estrada Grajaú-Jacarepaguá, no Rio, com 13 tiros de metralhadora em várias partes do corpo – três deles nas costas e quatro no pescoço – uma medalha de ouro de S. Jorge no peito e Cr$ 3.112 nos bolsos, e sem os seus sapatos marca Sete Vidas, atirados a um canto.” Correio da Manhã, em 1º de maio de 1962.
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