Dennison de Oliveira

A disciplina História no Brasil perdeu na quinta-feira, 5, um dos seus mais importantes intelectuais: o professor-doutor, pesquisador, autor, consultor, editor e divulgador Cesar Campiani Maximiano, de 54 anos, de quem tive a honra e a alegria de ter sido amigo durante décadas.

Conheci Cesar por meio da leitura do livro “A Nossa Segunda Guerra — Os Brasileiros em Combate 1942-1945”, do jornalista e pesquisador Ricardo Bonalume Neto (1960-2018), publicado em 1995.

Eram tantas e tão importantes as menções no livro aos textos do Cesar que tive de buscar fazer contato com ele.

Cesar Campiani e Francisco Ferraz e Dennison de Oliveira Foto Reprodução
Francisco Ferraz, Dennison de Oliveira e Cesar Campiani: historiadores especializados na história da FEB | Foto: Reprodução

Também desejava adquirir o seu primeiro livro “Onde Estão Nossos Heróis — Uma Breve História dos Brasileiros na Segunda Guerra” (1995). Não demorou muito e logo ficamos amigos. Começamos então a desenvolver diversas atividades no âmbito da História da FEB, um tema de interesse comum e que viria a atingir um grau obsessivo.

A primeira atividade foi a nossa participação na I Jornada de História da Universidade do Contestado em Mafra (SC) em 2001, onde dividimos uma mesa para discorrer sobre nossas pesquisas a respeito da FEB.

No ano seguinte escrevemos juntos o artigo “Raça e Forças Armadas” — que foi publicado na Revista Estudos de História (2002).

Cesar Campiani capa de Barbudos Sujos e Fatigados 450

Desde então, embora geograficamente distantes, jamais perdemos contato, os quais vieram a se tornar costumeiros sob as novas mídias digitais, em especial no nosso grupo de WhatsApp dedicado aos Estudos da FEB, no qual ele se pronunciava diariamente, inclusive até a data de quinta-feira.

Particularmente extensas, produtivas e prazerosas foram as conversas mantidas durante o I Seminário de Estudos sobre a FEB realizado no Rio de Janeiro, em 2009; no II Sesfeb, realizado em Curitiba, na Casa do Expedicionário, em 2011, e nas disciplinas de pós-graduação e bancas para as quais ele me convidou a tomar parte na Eceme, entre 2012 e 2013.

Livros são referências obrigatórias

Suas pesquisas sobre a FEB foram publicadas sob diversas formas e mídias. Seus livros acabaram por serem justamente reconhecidos como referências obrigatórias para todos os pesquisadores da FEB e da história da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Em 2006 publicou, em coautoria com M. Spivey, o livro “M1 Helmets of WWII”.

Em 2010 veio à luz uma versão de sua tese de doutorado na USP — o indispensável e insubstituível “Barbudos, Sujos e Fatigados” (2010), sem dúvida o mais importante e influente livro jamais escrito sobre a atuação em combate dos brasileiros no front italiano durante a guerra.

Cesar Campiani capa de Brazilian 500

No ano seguinte publicou, em coautoria com Ricardo Bonalume Neto, o antológico “The Brazilian Expeditionary Force in World War II”, uma obra de referência incomparável sobre os uniformes, armas e equipamentos da FEB.

A ação em combate em nível de pelotão é o tema do maravilhoso e revelador livro “Irmãos de Armas”, publicado em 2013.

Cesar Campiani capa de 120 objetos 500

Seguiram-se os livros “Estratégia Militar e História” (2014), abordando temáticas mais amplas afetas à história militar, e “120 Objetos que Contam a História do Brasil na Segunda Guerra Mundial” (2019) — dedicado à arqueologia industrial relacionada à história militar.

Sua carreira acadêmica foi breve, mas legou profundo impacto sobre estudantes e orientandos. Cesar foi professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2005-2009), na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2010-2011) e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme, 2011-2014). É realmente espantoso que esta escola não tenha sido capaz de retê-lo permanentemente em seus quadros. Mas isso é tema para ser tratado em uma outra oportunidade.

Centro Histórico Overlord

A partir de 2014 Cesar fundou e organizou o Centro Histórico Overlord (CHO).

Cesar Campiani capa de Irmãos de Armas 500

Inicialmente, o CHO funcionou como uma livraria, mas logo se tornou altamente relevante pelo trabalho de reprodução absolutamente fidedigna de equipamentos e fardamentos da FEB, atividade na qual Cesar veio a se converter em inquestionável árbitro da precisão histórica e da exatidão material.

Eventualmente o CHO viria a se tornar numa das mais importantes organizações destinadas a preservar a memória da Força Expedicionária Brasileira, inclusive promovendo eventos diversos e encontros de reencenadores.

Sua partida inesperada e precoce provocou e continua provocando um choque sem precedentes na comunidade de interessados na História da FEB, amigos, estudantes e pesquisadores.

Cesar Campiani sentando a Pua
Cesar Campiani: um erudito sobre o Brasil e a Segunda Guerra Mundial | Foto: Facebook

Por um lado, nem se imagina quem poderia vir a substituí-lo nas vitais funções historiográficas e memorialistas que veio a desempenhar, sempre com extrema competência e insuperável erudição.

Por outro lado, todos lamentam a perda da pessoa humana, amiga, gentil, acessível, prestativa e colaboradora, sempre disposto a orientar os que lhe pediam ajuda, corrigir os que se preocupavam em eliminar erros, incentivar os que hesitavam em abraçar a causa pouco compreendida e frequentemente vilipendiada da História da FEB.

A dor da perda, nesse caso, é multiplicada: perdemos o historiador. Mas, mais que tudo, perdemos o ser humano, meu muito querido e eterno amigo Cesar Campiani Maximiano.

São numerosas e abundantes as passagens valiosas, comoventes e inigualáveis que ele escreveu sobre a FEB.

Cesar Campiani capa de onde estão nosso heróis 500

De tudo que ele publicou gostaria de citar aqui o trecho final de seu livro de estreia “Onde Estão Nossos Heróis”, de 1995, que, acredito, possa servir como epitáfio à sua altura.

O texto se refere à sua viagem à Itália em 1995 onde percorreu os locais de ação da FEB, conheceu os monumentos de guerra e conversou com a população local que testemunhou a participação dos brasileiros na guerra.

Trecho de “Onde Estão Nossos Heróis”
“Atrás da igreja de Bombiana encontro uma quase octogenária habitante do vilarejo. Ela se lembra dos brasileiros; sua casa foi igualmente ocupada. Espontaneamente, aquela senhora prestou um emocionado depoimento, sobre o que viu e viveu naquele mesmo local. ‘Sou muito grata aos brasileiros, eles nos ajudaram muito. Eram bons rapazes, aqueles brasileiros. Me lembro quando atacaram Monte Castello e aquele campo ficou juncado de mortos, poverinni…! Eles eram tão jovens! Buoni i bravi ragazzi!  Eu sou muito grata a eles, pois combateram por nós, e perderam a vida por nós.’ A velha senhora pausa, evidentemente muito emocionada por ter recordado subitamente um triste e sofrido passado. Seu pai e um dos seus filhos morreram quando a casa que habitavam foi atingida por uma bomba, mas a primeira lágrima veio os seus olhos quando se lembrou dos mortos brasileiros. Mais de uma vez ouvi espontaneamente italianos dizerem dos rapazes que conheceram: ‘buoni i bravi ragazzi’, ou ‘i brasiliani sono buoni i bravi’. Ao olhar o memorial no Monte Gorgolesco, com o retrato de uma garotinha sorridente que foi fuzilada pelos nazistas aos quatro anos de idade, ou ao escutar, gratuitamente, palavras de agradecimento dirigidas a compatriotas por ações que 50 anos não conseguiram apagar, é que se percebe o quanto a FEB valeu a pena. A gratidão daquele povo e o mal que o Brasil ajudou a erradicar estão acima de tudo o que se pode dizer sobre a FEB.” — (Maximiano, 1995: 108).

Quando li esta conclusão do livro não pude segurar as lágrimas e chorei.

Também chorei quando soube que o Cesar morreu — e continuo chorando sem parar até agora.

Siga em paz, Cesar.

E que sejamos capazes de superar a dor da sua perda; de honrar a e enormidade da sua contribuição; de aproveitar seus achados; de promover a busca de respostas para as questões que você colocou.

Dennison de Oliveria é historiador.