Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

Dona América era uma mulher na casa dos 50 e poucos anos. De pele muito clara, tinha o rosto sempre corado, era corpulenta, de busto volumoso e de estatura de mediana para baixa. Falava alto, gesticulando muito, talvez uma herança dos avós italianos que haviam imigrado para o Brasil na virada do século XIX para o século seguinte.

Casada há mais de 30 anos com Siô Dito Apolinário, vivia o que ela mesma chamava de “um casamento feliz”, muito embora o marido, na boca do povo, detivesse o título nada enobrecedor de secretário-geral da Liga dos Maridos Oprimidos, com mandato vitalício…

Possuíam um restaurante modesto, numa cidadezinha perdida nos confins do sertão goiano, encravado numa zona de muita criação de gado e lavoura de milho e feijão. Ela, cozinheira de mão cheia, tomava conta da cozinha, desde a escolha dos alimentos até a sua preparação, o que fazia com esmero e gosto, tendo apenas uma ajudante, a Filó. Os filhos, um rapazote de 14 anos e uma mocinha de 12, ajudavam no ofício de servir à clientela, composta em grande parte por negociantes e fazendeiros que por ali passavam. Afinal, como a cidade era a ponta da linha da estrada de ferro, o movimento não era pequeno, especialmente nos dias da semana em que chegava e partia o trem.

— Ô Dito, saia dessa pasmaceira e veja se faz alguma coisa, homem! Já encomendou a lenha pro fogão? Só tenho mais umas cinco ou seis achas e isso não dá pra nada! Falei disso faz dias e até agora nada!

— Benzinho, eu já encomendei lá no compadre Olívio. Ficou de entregar ontem, mas deve ter atrapalhado alguma coisa…

— Dona América, o carroceiro tá descarregando a lenha lá nos fundos do quintal — chegou anunciando Filó, com sua voz esganiçada.

— Lá, não! Eita, que esses homens são todos uns inúteis e preguiçosos! Tem que ser debaixo do telheiro porque a chuva não demora. E quem acorda de madrugada pra acender o fogo sou eu. Com lenha verde e molhada, ai meu Deus! Nem quero imaginar!

Siô Dito, que até então mantivera-se prudentemente em silêncio, querendo evitar qualquer tempestade para seu lado, atreveu-se a perguntar:

— Filó, e Dona Ondina, já trouxe a quarta de farinha que eu encomendei a semana passada?

— Não, sinhô. Ela mandô dizê que só depois que a irmã dela for embora. Aquela que ficô viúva ano passado. Veio de visita com um namorado novo…

Mulher briga com marido foto feita por IA 450

— Hum… não é à toa que dizem que viúva é como lenha verde: chora, mas pega fogo — disse Siô Dito.

— Deixe de preconceito, homem de Deus! A moça ainda é nova e tem mais é que ser feliz — tonitruou Dona América.

— O melhor que você faz é de ir logo comprar umas seis dúzias de ovos, porque os daqui já estão no fim. Amanhã o coronel Ernesto deve passar por cá e ele gosta de ovo frito com torresmo e farinha.

Siô Dito, apesar de ser sempre obediente, era dessas pessoas cansadas de nascença. Então, antes de enfrentar aquele sol a pino e um calor dos diabos que fazia lá fora, sentou-se na cadeira preguiçosa no alpendre, disposto a tirar um cochilo enquanto esperava “o sol esfriar”. Já ia lá ferrado no sono quando ouviu:

— Siô Dito, ô Siô Dito!

Espichou os olhos mortos de preguiça lá para fora e viu um moleque conhecido.

— O que foi, Zezinho? Por que desse berreiro todo?

— É que mãe mandô sabê se o sinhô num qué comprá uns ovos. Tem dez dúzias aqui.

— Até que por esses dias num tamo precisano de ovo não, Zezinho…

Filó, que estava por ali por perto ocupada em varrer o alpendre, ameaçou dizer qualquer coisa:

— Mas, Siô Dito, Dona América num disse…

— Disse foi nada, Filó! Casca fora daqui e deixa de dar palpite na conversa dos outros.

— Mas, Zezinho, a como você está vendendo os ovos? Só mesmo pra sabê…

— Uai, mãe disse que é seis mil réis a dúzia.

— Subiu tanto assim???

— É que na coresma galinha quase num bota…

— Ah, lá isso é…, mas veja bem: pra ajudá, posso até comprá esses ovos se ocê fizer a cinco mil réis a dúzia.

E ao dizer isso, sem mesmo esperar pela resposta, meteu logo a mão no bolso em busca da carteira e retirou dali o dinheiro, sob o olhar cobiçoso de Zezinho.

— Num posso não. Mãe vai ficá brava comigo. Siô Dito, já mais que traquejado em negociar com os turcos, sabia do imenso valor de persuasão exercido pelas cédulas e moedas. Mas, a fim de garantir êxito no negócio, agregou mais alguns elementos:

— Mas, Zezinho, em lugar de ficá aí vagando de porta em porta debaixo desse sol quente, você já pega o cobre todo reunido aqui comigo e pode voltá mais cedo pra casa. Ainda dá tempo de apartar as vacas antes do fim do dia. Mas ocê é quem sabe…eu só quero é ajudá.

O moleque, já cansado de oferecer os ovos sem conseguir vender sequer uma dúzia deles, ficou mesmo tentado. Além do mais, que apartar vacas que nada! Ele ia era jogar uma pelada no campinho lá detrás do cemitério, antes de voltar pra casa!

Negócio concluído, Siô Dito fez logo um balanço das vantagens obtidas: comprara os ovos por um preço menor; não precisara sair de casa com aquele calor tremendo; tudo tinha sido resolvido a contento, sem que tivesse que abandonar sua cadeira predileta e, ainda por cima, iria fazer boa figura diante da mulher, que nunca via nele nenhuma capacidade ou serventia.

— Ô América, cá estão os ovos que você pediu — gritou enquanto caminhava em direção à cozinha.

— Mas quantas dúzias tem aí? Eu não lhe disse pra comprar seis dúzias?

— Ah, são dez dúzias, mas estão fresquinhos e eu fiz um ótimo negócio! De seis mil réis, acabei comprando por cinco… e nem precisei sair de casa!

— Mas é mesmo um atrapalhado e preguiçoso! Eu não lhe disse que eram somente seis dúzias? Agora vou ter que fazer um doce de ovos com queijo, que é para aproveitar todos eles. Você não consegue fazer nada direito! Valha-me Deus!!!

— Mas…

— Que mas que nada! Homem é tudo assim mesmo. Bicho imprestável, que não faz nunca o que a gente manda e fica arrotando grandeza por conta de uma mirrada pechincha dessas!

Ó meu Deus, só mesmo com muita paciência!!!

E continuando com a litania de imprecações, foi-se lá para a cozinha, enquanto Siô Dito, já calejado por esses rompantes da mulher, nada disse. Deu de ombros, acomodou-se na cadeira preguiçosa, puxou o chapéu sobre o rosto e dedicou-se com afinco ao merecido repouso, após tanto trabalho.

Vocabulário

“Coresma”: quaresma.

** “Turcos”: designação genérica dadas aos imigrantes sírios e libaneses. Por sinal, a designação não agrada sírios, libaneses e turcos.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.