Você ainda se lembra do seu primeiro beijo? Do primeiro carinha/menina que gostou lá na transição da infância pra adolescência? Do frio na barriga, o medo da aceitação, a insegurança. Como é que beija de língua? Será que alguém vai gostar de mim? Eu nunca fui uma menina cheia de confiança. Não me achava bonita nem de longe e sofri muito bullying nessa fase. Dentes tortos, cabelo cacheado, nerd. Há mais de 25 anos isso era luta. Mas outro dia, conversando com uma amiga sobre as nossas filhas eu me peguei pensando: como é que eu era quando tinha a idade da Cecília? Como é que funcionava minha cabeça e como eu posso ajudar ela a passar pelas mudanças que estão por vir?

Eu fiz anos de psicanálise e vez ou outra lembrava de algum dos meninos que eu gostei quando ainda era uma menina, na época em que eu brincava de boneca e sentia a mão suando quando encontrava um garoto na escola. Os nomes surgiam em ocasiões esporádicas, mas geralmente eu lembrava dos meninos que não foram tão legais ou dos que tiveram ações imbecis. O carinha que eu ficava e que beijou minha melhor amiga na minha festa de 15 anos. O moleque que passou a mão na minha bunda e no meu peito sem minha permissão.

Mas sabe o que eu percebi nessa semana? Eu não lembrava muito dos meninos que foram gentis. Os que respeitaram meu corpo. Os que seguravam minha mão em público e que eram legais, divertidos. E aí que eu lembrei de um menino, que chamaremos de V. pq não vamos expor ninguém por aí, né? A galera tá quase toda casada e com filhos, mas eu lembrei desse garoto que eu beijei algumas vezes e que era muito gentil. Eu tinha uns 12, eu acho. Lembro que mudei de escola aos 14 e vez ou outra ele atravessava a cidade de ônibus pra almoçar comigo. Eu perdi muitas amigas nessa época. Não tinha whatsapp, não tinha grupo de mães. Eu saí da escola e da vida de todas essas amigas, mas esse garoto ia me ver. Era inteligente, educado, estudava alemão e acho que deve ter se transformado em um homem legal.

E eu fiquei pensando: tomara que a Cecília conheça meninos gentis. E que ela saiba identificar esses garotos. Eu sei que em alguns anos eu vou acabar conhecendo o primeiro namorado. Pode ser que seja o único, pode ser que não. Cecília tem algumas primas mais velhas. Uma delas está namorando, outras estarão em breve. E olhando para essas meninas nos últimos dias, eu só pensava uma coisa: tomara que o caminho seja cheio de gentilezas. Que sejam respeitadas, amadas (ainda que de uma forma ainda infantil). E que saibam da própria grandeza.

Eu me casei com o primeiro namorado. Antes disso, uns beijinhos por aí e muito frio na barriga. Comecei a namorar aos 16 e tive a sorte de conhecer um cara gentil, engraçado, respeitoso e que ao longo dos anos melhorou como os vinhos. Era muito jovem. Noiva aos 19, casada aos 21. Mãe da Cecília aos 25 e do Matheus aos 34. Agora mais um desafio: criar um cara gentil. Eu quero tanto, tanto, que Matheus seja um cara legal. Tô dando meu máximo e entregando pra Jesus. Criar um homem era um dos maiores medos da minha vida.

Cecília fez 10 anos em 2025. Ainda pediu uma boneca no último Dia das Crianças. Ainda sem sinais de interesse pelos garotos (ela disse que tem certeza que não vai namorar meninas, que ela deve namorar mesmo um menino). E a gente quer que essa infância se prolongue ao máximo. Que os namoros demorem, mas quando acontecer, que seja bonito. Não sei se ela vai, assim como eu, se casar com o primeiro namorado, mas espero que pelo caminho ela só tenha meninos gentis.

Ass, uma mãe que já foi só uma menina.