A porta-do-meio
21 fevereiro 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Quem conhece as cidades antigas, aquelas dos tempos do Brasil colonial, certamente já reparou o feitio das edificações. As casas têm paredes-de-meia, isto é, paredes de divisa com os vizinhos da direita e da esquerda que servem às duas moradas.
Muitas são as hipóteses aventadas para explicar essa técnica. Uma delas repousa sobre as questões econômicas. À época, com a escassez de meios, construir as casas com esse feitio era muito conveniente.
A outra explicação, talvez mais romanesca, é que se tratava de uma tática militar, pois, em caso de ataque, bastava abrir um buraco nas paredes-de-meia, possibilitando assim o trânsito por dentro de todas as casas, de modo a favorecer a defesa da cidade.
Todavia, não é sobre as paredes-de-meia que quero tratar. Nem, tampouco, dos elevados pés-direitos dessas casas coloniais, que asseguram frescor e boa ventilação, sobretudo nas épocas mais quentes do ano.
Quero falar da função social das portas. Sim, portas, assim mesmo no plural, pois que há a porta-da-rua e a porta-do-meio.

A primeira, que se abre pela manhã bem cedo e se fecha à hora de a família recolher-se, é uma espécie de cartão de visitas que se oferece aos amigos, vizinhos e transeuntes. Sinaliza a hospitalidade sempre generosa, aberta e solidária, capaz de acolher a todos.
Já a porta-do-meio é como a cortina do antigo templo de Jerusalém, que veda o acesso indiscriminado ao sagrado recinto do lar. Receber o convite para transpô-la, com o habitual vamo entrá, no nosso “goianês” mais genuíno; é ser premiado com a confiança, a afeição e a amizade do anfitrião.
Uma porta-do-meio que, para além de tudo isso, exercia uma importante função social de solidariedade nos meus tempos de menino, era a da casa de Dona Cora. Afinal, eu morava na casa exatamente defronte à sua.
Nos dias em que faltava água em nossas torneiras, ela, ao tomar conhecimento do fato, mandava logo abrir a porta-do-meio da Casa Velha da Ponte. Pelo corredor, então, desfilava um interminável cortejo de homens, mulheres, velhos e crianças com suas latas e baldes que tinham vindo buscar o precioso líquido da biquinha que, ainda hoje, teima em correr no porão de seu quarto de dormir.
As portas-do-meio continuam a existir na velha cidade, mas parece que, a exemplo dos corações, já não se abrem tão generosamente como antes…
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

