Clube da abdução
24 março 2026 às 09h03

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Samuel Peregrino
Episódio 1
Reptilianos Também Pagam Aluguel
A primeira regra sobre ser um lagarto gigante preso num corpo de primata é: você não fala sobre a coceira. A segunda regra é: quando a pele do seu avatar começa a descascar e revelar escamas verdes bioluminescentes no meio de um food park em Goiânia, você corre.
Eu sou o arrependimento gélido de uma civilização estelar.
Eu sou a casta inferior presa num subúrbio tropical.
Eu sou o 1%. Não o 1% que tem iates em Mônaco. Eu sou o 1% que caiu do caminhão de mudança cósmico.
Meu nome real é impronunciável para a sua laringe de mamífero, algo como o som de uma pedra sendo triturada por um compactador de lixo, então vamos ficar com Beto.
A primeira coisa que você nota não é o cheiro. O cheiro você disfarça com desodorante barato e fumaça de escapamento de ônibus. Uma coceira subdérmica, quântica, onde a cola biológica que une a minha consciência Reptiliana a este avatar humano de vinte e poucos anos começa a falhar.
Sou um skatista de joelhos estourados, um universitário que largou o curso de Filosofia porque a ironia de estudar “A Alegoria da Caverna” sendo um alienígena que literalmente vive em cavernas na Antártida era demais para minha cabeça. Moro numa kitnet que vibra toda vez que o caminhão de lixo passa. Eu sou o 1% da humanidade que, na verdade, não é humano. Mas, diferente dos meus primos que dirigem o FMI ou que decidem quem ganha o Oscar, eu fui deserdado.
Motivo? Me apaixonei por uma primata local. Uma humana. A Alta Casta não perdoa. Cortaram meu suprimento de Créditos de Carbono e minha manutenção genética.
Agora, meu braço esquerdo está descascando. Não como uma queimadura de sol, mas como reboco barato de parede úmida. Por baixo, brilha o verde-esmeralda das minhas escamas reais. Eu passo base líquida tom “Bege Médio” por cima e rezo para ninguém notar na fila do pão.
— A entropia é uma vadia — eu digo para o espelho. O espelho não ri.
A Verdade Está Lá Fora, e Ela Coça
A humanidade acha que somos deuses, demônios ou políticos. A verdade é mais decepcionante: somos refugiados de luxo. Estamos aqui há milênios, desde que nossos tataravôs afundaram Atlântida porque alguém tentou fazer um overclock no núcleo de energia de ponto zero e fritou o continente. Grande momento na história da engenharia Draconiana. O resultado? Cinco Arcas gigantescas, nossas passagens de volta para casa (ou para qualquer lugar que não tenha mosquitos e música sertaneja), estão quebradas e enterradas. Uma está sob o gelo da Antártida, outra no Triângulo das Bermudas, e a que me interessa está enterrada sob as águas termais de Caldas Novas. Sim, os turistas mijam em cima do reator de fusão da minha nave-mãe.
A ironia é palpável, sólida como um tijolo na cara.
O problema atual: meu “traje de carne” está vencendo. A garantia expirou.
Acordei hoje e meu braço esquerdo parecia uma lasanha malfeita. A epiderme humana sintética estava se soltando, revelando a derme quitinosa por baixo — Isso é o que acontece quando você tenta viver o sonho americano num país subdesenvolvido usando tecnologia alienígena sucateada — pensei, enquanto passava base líquida da Avon sobre uma escama que teimava em brilhar.
Eu precisava de um emprego. Não de entregar X-Tudo gourmetizado de 60 reais, mas de um emprego real. Precisava falar com a Gerência.
O telefone toca. Não o celular, mas o implante coclear que vibra direto no meu crânio reptiliano. É a Gerência.
Encontro minha supervisora num ferro-velho automotivo na “robauto”, longe dos olhos curiosos da ABIN. O nome dela é Zylth, mas no Tinder ela usa “Cláudia”. Hoje, ela estava no modo hardcore. Sem avatar, flutuando a meio metro do chão, envolta num traje de pressão atmosférica. Um corpo escamoso de dois metros e meio, elegante como uma velociraptor de salto alto. A cabeça dela, um triângulo de escamas e inteligência predatória, está protegida por um capacete de vidro fumê. Ela tem quatro mil ciclos solares galácticos, o que a torna uma “milf” interplanetária. Ela é da velha guarda, reptiliana pura e tem aquele olhar de quem já viu civilizações queimarem e achou a iluminação “brega”.
— Você parece um saco de lixo vazando chorume, Beto — a voz dela sai sintetizada, metálica.
— O mercado de corpos está em baixa, Zylth. O governo humano subiu o preço das abduções. E meu aluguel venceu.
— Você quer voltar para a Casta? Quer um corpo novo? Um daqueles modelos de influenciador digital com dentes brancos e sem alma?
— Eu só quero não ter que explicar para o porteiro por que meus olhos piscam na vertical.
Ela jogou um dispositivo holográfico para mim. Pairou no ar, projetando um diagrama complexo.
— Temos uma oportunidade. Mecânico de campo. Arca 4. A unidade de processamento temporal pifou. Precisamos de peças.
As Arcas. Cinco colossos interestelares enterrados no planeta. Uma está sob o gelo da Antártida. Outra no Triângulo das Bermudas… Ah… acho que eu já falei isso.
— Onde?
— A tecnologia que precisamos para o motor de dobra dessa Arca não existe neste tempo.
— Viagem no tempo? — perguntei, sentindo meu estômago (o humano e o reptiliano) embrulhar. — Eu odeio viagem no tempo. A defasagem cronológica me dá gases.
— Deixe de ser fresco. As Arcas não vão se consertar sozinhas e a gente não pode simplesmente comprar peças no Mercado Livre. Você vai pilotar um drone de reconhecimento classe 042/ TARDIS.
— Quando e o que eu tenho que fazer? — pergunto, coçando uma escama que rasgou minha camiseta da Thrasher.
— Você vai voltar algumas décadas, nesta mesma cidade nojenta e recuperar um isótopo específico para resfriar os supercondutores do motor de dobra.
— Pagamento?
— Um avatar novo. Modelo atleta, vinte e dois anos, metabolismo rápido. E reintegração à casta do subterrâneo.
Eu aceito. Eu venderia minha mãe por um corpo que não cheirasse a formol.
Odeio viagens no tempo.
O Salto
O tempo não é uma linha, é uma espuma quântica. Para viajar, não usamos um DeLorean. Usamos OVNIs pequenos, drones esféricos ou cilíndricos que geram um campo de distorção gravitacional localizado, dobrando o espaço-tempo ao redor da nave através da amplificação de ondas de gravidade via o elemento 115 (sim, o Lazar estava certo, aquele idiota). A questão é: quando você dobra a gravidade, você dobra o tempo. Simples. O problema é que a turbulência joga seus órgãos internos para fora se você não estiver estabilizado.
O OVNI não é um disco voador cromado. É um cilíndrico, alongado e branco, do tamanho de uma Kombi, sem janelas, sem… tipo uma balinha TicTac. É um drone científico adaptado. Entro nele. O compartimento era apertado como um caixão. O cheiro lá dentro é de ozônio e eletricidade estática.
Aperto o botão.
O universo se dissolve. É como ser sugado pelo ralo de uma banheira cósmica enquanto um Deus-Lagarto grita poesia beat no seu ouvido. Cores que não existem na Terra explodem na minha retina. O tempo não é uma linha, é um prato de espaguete. E eu sou a almôndega.
A física é brutal. Para viajar no tempo, não precisamos de 1.21 gigawatts. Precisamos dobrar o espaço-tempo localmente. O motor de dobra Alcubierre modificado cria uma onda. A frente da nave contrai o espaço, a traseira expande. É chato até de explicar.
A equação que rege minha náusea iminente é:
$$ds^2 = -c^2dt^2 + [dx – v_s(t)f(r_s)dt]^2 + dy^2 + dz^2$$
Chegando à velocidade da bolha de dobra, violo a causalidade. Faço uma curva fechada do tipo tempo e viajo para o passado.
Solto um pum mortífero.
Continua…
CLUBE DA ABDUÇÃO
Episódio 2
Brilho Azul e Escapamentos Quentes
Eu sou o subproduto tóxico de uma negligência cósmica.
Eu sou a curiosidade que matou o gato e irradiou o bairro inteiro.
Eu sou um alienígena de ressaca no meio do Cerrado, ouvindo motores de 500 cilindradas.
Setembro de 1987. Goiânia. O calor é uma entidade física que se senta no seu peito e se recusa a sair. O ar tem gosto de poeira vermelha e escapamento de dois tempos.
O avatar temporário abduzido que uso nessa época é o “Ricardo”. Um jornalista esportivo credenciado para o Grande Prêmio de Motovelocidade. Tenho um bigode vasto, óculos aviador falsos e uma jaqueta de couro que está cozinhando meus órgãos internos reptilianos.
A cidade está vibrando.
Por um lado, Wayne Gardner e Randy Mamola estão rasgando o asfalto do Autódromo Internacional Ayrton Senna, fazendo barulho suficiente para acordar os mortos.
Por outro, no Setor Aeroporto, alguém abriu uma cápsula de chumbo e encontrou o “brilho da morte”.
O paddock da Honda está um caos de cheiro de gasolina de alta octanagem e macacões de couro suados. É uma batida bebop, frenética, vroom-vroom, mecânicos japoneses gritando, garotas da Marlboro sorrindo com dentes perfeitos demais.
Zylth está lá. Claro que está.
Ela não é uma garota da Marlboro. Ela está disfarçada de fiscal da FIM (Federação Internacional de Motociclismo). O avatar dela é uma austera mulher de cabelos grisalhos curtos.
Ela me puxa para trás de uma pilha de pneus Michelin.
— Você pegou a leitura, Ricardo? — a voz dela não mexe os lábios do avatar. Telepatia de curto alcance.
— O contador Geiger do meu relógio Casio está gritando, Zylth. A cidade inteira está acesa. Eles abriram a Unidade 7.
— Idiotas. Primatas curiosos. — Ela ajusta a prancheta. — Aquele cilindro não era uma máquina de radioterapia comum. Era um Estabilizador de Isótopo de Césio-137 Enriquecido, deixado para trás na nossa evacuação de 1950. Era a bateria reserva de um drone médico.
O que encanta os humanos — o brilho azul — é o Efeito Cherenkov.
É o que acontece quando partículas carregadas passeiam pelo ar úmido ou a umidade do olho humano a uma velocidade superior à velocidade de fase da luz nesse meio.
Para nós, não serve para tratar câncer. Ele serve para calibrar a entropia. A Arca 4, enterrada em Caldas Novas, precisa desse isótopo específico para resfriar os supercondutores do motor de dobra. Sem ele, a Arca superaquece e transforma Goiás numa cratera de vidro.
— A missão é simples — diz Zylth. — Enquanto todos olham para as motos correndo em círculos, você vai ao ferro-velho do Devair. Recupere o núcleo principal antes que eles o espalhem pelo chão ou batam junto com uma vitamina de banana. Precisamos de 10 gramas. O resto… bem, o resto é problema da Vigilância Sanitária.
Pego minha moto, uma Yamaha RD 350 (a famosa “Viúva Negra”), e corto o trânsito de Goiânia. É uma viagem alucinada, o vento quente batendo no meu capacete, a realidade distorcendo nas bordas. Já havia me esquecido como é ótima a sensação de não ter sua pele arrancada da cara por conta do calor. A adorada RD 350 é uma máquina de suicídio poético.
Chego à Rua 57. O lugar já está isolado, mas não do jeito certo. Policiais sem luvas. Bombeiros curiosos.
E o povo.
Ah, o povo. Eles estão fascinados. “A pedra que brilha”, eles dizem. Passam no corpo. Passam na mão. Acham que é carnaval.
Eu vejo a radiação. Meus olhos reptilianos, sob as lentes escuras, captam o espectro ionizante. O ar está crepitando com a morte invisível. Cada partícula beta é uma bala microscópica rasgando o DNA.
Minha pele humana começa a coçar. O campo de contenção do meu avatar reage mal à radiação gama. Sinto uma bolha se formar na minha bochecha.
— Droga. Vou ter que descontar isso do cachê.
Entro nos fundos do terreno enquanto a área toda é isolada, aguardando alguém que saiba o que fazer chegar. O núcleo está lá, no meio da sucata, pulsando num azul que fere a alma.
É lindo. É a cor da nossa casa original, em Zeta Reticuli.
Saco um recipiente de chumbo revestido com tecnologia de contenção de campo nulo (parece uma garrafa térmica de café). Uso uma pinça telescópica. Minhas mãos tremem. Não de medo, mas de interferência estática nos meus nervos sintéticos. Pego o fragmento maior. 10 gramas de cloreto de césio puro. O brilho azul inunda a garrafa térmica. Fecho a tampa. O clique é o som mais satisfatório do mundo.
Volto para o Autódromo. A corrida principal está começando.
O rugido das motos mascara o zumbido nos meus ouvidos.
Zylth me espera perto dos boxes.
Entrego a garrafa térmica para ela. Ela a coloca dentro de uma caixa de ferramentas da equipe Rothmans Honda.
— O transporte sai hoje à noite. Vai ser despachado como “peças de motor” para o Japão, mas será interceptado pela nossa nave de carga na estratosfera.
— E as pessoas? — pergunto, olhando para a direção da cidade, onde a nuvem invisível de contaminação se espalha.
Zylth ajeita os óculos escuros. O rosto dela é uma máscara de indiferença geológica.
— Se não fosse o Césio, seria o cigarro, ou o açúcar, ou algum vírus.
Ela se vira e volta para a pista.
Wayne Gardner cruza a linha de chegada. A multidão vai à loucura.
Fogos de artifício estouram no céu.
E no Setor Aeroporto, o pó azul continua a radiar, silencioso, paciente.
Eu acendo um cigarro Hollywood. De repente, vejo meu reflexo no metal polido da nave. Minha mão está descascando, revelando uma escama verde queimada por radiação.
Tenho que sair desse tempo antes que meu avatar derreta completamente e eu vire uma atração no zoológico local.
Acelero. O motor grita. A vida é rápida, suja e, às vezes, brilha no escuro.
Pousei de volta em Goiânia. O ano é 2026.
A aterrissagem é dura. Vomito bile verde no chão do ferro-velho. A força G esmagou meus órgãos contra a coluna vertebral. A viagem temporal acelera a necrose celular. A pele do meu rosto humano está escorrendo como cera quente, revelando o focinho, os dentes serrilhados, o olho amarelo com pupila em fenda. Eu sou um monstro. Eu sou a verdade que eles escondem nos filmes de Hollywood para que, se um dia virem um de nós, achem que é CGI ou IA.
Zylth está lá, polindo o capacete. Entrego a garrafa térmica. — Bom trabalho, escravo — ela diz, sem carinho. — E meu corpo? — pergunto, segurando minha bochecha humana que está descolando do osso. Ela riu. Um som seco. — Ah, sobre isso… O orçamento foi cortado. E você não precisa mais se esconder, Beto. A Arca está quase pronta. Quando partirmos, a Terra será… reformatada. Não precisamos mais de disfarces. Precisamos de pilotos. Aguente mais uns seis meses com esse chassi. Use fita crepe.
Eu olho para ela. Olho para a garrafa térmica que viajou quase 40 anos no tempo. Olho para minhas mãos. A radiação temporal acelerou a degradação do meu avatar. Eu não parecia mais humano. Eu parecia um monstro de filme B dos anos 50. Metade rosto de boy de condomínio, metade focinho de Dragão-de-komodo.
Ela subiu na nave dela e desapareceu numa dobra de luz.
Saio do ferro-velho. A luz do sol de Goiânia bate no meu rosto deformado. A fome aperta. Preciso de sódio, mas estou exposto. Um lagarto de 1,80m de skate, vestindo bermuda cargo e tênis Vans. Um garoto passa de bicicleta, me vê, grita “ET de Varginha!”
Eu sorrio, mostrando meus dentes serrilhados. É engraçado. Passamos milênios criando o Homo Sapiens através de engenharia genética, transformando símios em escravos operários para minerar ouro monoatômico para nossas naves, e no final, eu sou tão escravo quanto eles. A única diferença é que minha gaiola viaja no tempo.
Eu começo a rir de raiva. Uma risada gutural, sibilante.
Acendo um cigarro. A fumaça sai pelas minhas narinas humanas e pelas brânquias no pescoço. Boto meu fone e taco o play em Pumped Up Kicks do Foster The People (depois do comercial) no streaming que venceu a assinatura na semana passada.
— Vamos consertar essa banheira velha e dar o fora daqui — murmurei para um vira-latas que me encara sem latir, mostrando os dentes — Antes que eu tenha que pagar o IPVA do drone. — Quer um cigarro, amigo? — pergunto para o cão que me persegue sem latir.
Deslizo pela calçada imunda da Vila Canaã.
Eu sou o viajante do tempo sem futuro.
Eu sou a obsolescência programada.
Eu sou a única coisa que se fode nessa maldita galáxia.
Eu sou a trágica comédia da vida inteligente no universo.
Penso na distante Arca em Caldas Novas, zumbindo sob a terra, esperando para nos levar para casa. Ou para o inferno. Tanto faz, desde que tenha ar condicionado.
E, droga, eu realmente preciso de outro corpo.
Sobre o autor
Samuel Peregrino é escritor e criador de narrativas que transitam entre a literatura contemporânea e a ficção especulativa. Formado em cinema, já dirigiu curtas-metragens e escreveu roteiros para TV, rádio e games. Teve passagem pela música, experiência que marca o ritmo e a cadência de sua escrita. Fã de Phillip K. Dick, J. J. Veiga, Borges e teorias da conspiração.

