Aniversários, casamentos e batizados… as razões de Tobias para beber cachaça
10 janeiro 2026 às 21h01

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Fernando Cupertino
O sargento Tobias tocava baixo-tuba, também conhecido por sousafone, na banda de música do batalhão da Polícia Militar. Fez isso por longos anos até reformar-se, mas, ainda assim, não passou de 3° sargento, pois, apesar de bom músico, faltavam-lhe os conteúdos de outras áreas exigidos nos concursos para as promoções. Sempre apreciou bastante uma cachacinha de engenho e, com a idade e seus acompanhamentos, tais como uma hipertensão arterial rebelde e o diabetes, com certa frequência era forçado a procurar o hospital. Um médico amigo, conhecendo bem seus hábitos, fizera a advertência devida:
— Tobias, se você quiser viver uma vida mais tranquila, tem que deixar de lado a cachaça. Com a pressão alta e rebelde, como é a sua, e ainda mais com o diabetes difícil de se controlar, se não fizer isso a coisa vai ficar feia para o seu lado…
— É sério isso, doutor?
— Sim, muito sério.
— Mas, doutor, não dá só para diminuir a quantidade da cangibrina? Esse negócio de largar é muito bruto!
— Veja bem, Tobias: o melhor seria mesmo você deixar de vez, mas, se passar a tomar com menos frequência, a coisa já melhora muito. Pode tomar um golinho num dia de festa: um casamento; um aniversário; um batizado, mas, todo dia, nem pensar!
Ele assentiu grunhindo qualquer coisa à guisa de concordância e foi-se embora, não sem antes se comprometer em voltar no mês seguinte para uma revisão.
Menos de duas semanas depois, lá estava Tobias de regresso ao hospital, passando mal. Chamaram o amigo médico que veio sem demora.
— O que houve, meu amigo?
— Uai, doutor. Estava até bem em casa e, de repente, “garrei” a passar mal…
Um genro, que o acompanhava, fez às escondidas para o médico o clássico sinal com a mão direita a imitar o gesto de entornar o copo.
Exames feitos, depois da consulta, veio a constatação de que a taxa de açúcar estava mesmo elevada, além da pressão descontrolada.
— Vai ter que ficar hospitalizado uns dias até essas coisas voltarem ao normal, Tobias. Mas me diga uma coisa: andou bebendo de novo, não foi? Nós não combinamos que isso teria que mudar?
— Uai, doutor, eu segui direitinho a combinação. O senhor disse que era só num dia de festa que podia. E foi isso mesmo que eu fiz. Fui ao casamento do filho do compadre Anastácio e, o senhor sabe, num fica bem a gente fazê desfeita. Vinha um e oferecia um golinho e eu, pra num sê sem-educação, aceitava; vinha outro e oferecia, e eu fui aceitando., fui aceitando… Aí a coisa parece que desandou mesmo e eu tive que acabá vindo aqui amolá o meu amigo…
— Está bem. Tudo vai se arranjar, mas veja se cria juízo, criatura, senão desse jeito você nem chega ao fim do ano…
Tratamento feito, com sucesso, exames normalizados e pressão controlada, ganhou alta do hospital. Entretanto, pouco tempo depois, lá vem Tobias de novo, dessa vez, sem sentidos.
— Doutor, ele se levantou hoje cedo, foi ao banheiro e lá caiu já desacordado, informou o filho que o trouxera, com ar desesperado.
O médico terminou por constatar que a coisa, agora, fora mais séria. Ele havia sofrido uma isquemia cerebral, além de estar com todos os exames muito fora do normal. Foi preciso ficar quase 10 dias no hospital. No dia da alta, o médico explicou a receita e deu as orientações necessárias. E acrescentou:
— Tobias, você está brincando com a sorte. Veja se cria juízo, homem de Deus! A continuar assim, vai bater as botas logo, logo…
E ele, com a cara mais inocente do mundo:
— Eu, doutor? Mas na minha vida eu sempre cumpri as ordens à risca. O senhor sabe: eu fui militar e a vida toda só fiz cumprir o que me era ordenado.
— Mas então por que você não cumpre o que combinamos?
— Uai, doutor, eu cumpro direitinho. O senhor num falô que eu podia tomá uns golinhos só em dias de festas de casamento, aniversário ou batizado?
— Sim, eu disse isso mesmo. Mas você não para de me aparecer aqui nesse estado! Como é que pode?
— É que eu sou um homem bem relacionado, doutor. Quase todo dia aparece um convite. E a gente num pode recusá, não é mesmo? Num fica bem… eu num quero acabá mal falado.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

