Agenda de leituras para 2026 de escritores, intelectuais e jornalistas (Parte 5)
07 fevereiro 2026 às 21h00
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1
Roberson Guimarães
Médico e crítico literário
Uma lista de leituras para 2026

1 — O Litoral das Sirtes, de Julien Gracq. Um dos melhores autores franceses do século XX negligenciado por aqui.
2 — Heptalogia, de Jon Fosse. A opus magnum do Nobel de 2024.
3 — O Advento, de Karleno Bocarro.
Karleno é filósofo e historiador pela Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha. É tradutor e escritor — romancista autor de As Almas que se Quebram no Chão. O livro me foi indicado por um conhecido com muitas e boas recomendações.

4 — O Retorno do Barão de Wenckheim, de László Krasznahorkai, vencedor do Nobel de literatura 2025.
5 — Poesia Completa de Júlio Cortázar. Continuação do projeto iniciado em 2025. Cortázar foi um poeta superlativo.
6 — À Sombra da Modernidade, de Fabrício Tavares de Moraes. Livro de ensaios sobre pensadores que compartilham uma desconfiança em relação à modernidade.

7 — Purgatório e Paraíso da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Terminei recentemente a leitura do Inferno. Dante pede vagar e parcimônia. Leio um canto aqui outro acolá e espero chegar ao fim durante o primeiro semestre.
8 — Abundance, de Ezra Klein e Derek Thompson. Os autores dedicaram décadas a analisar as forças políticas, econômicas e culturais que nos trouxeram até aqui. Nesta obra, eles tentam desvendar as barreiras ao progresso e mostram como podemos, e devemos, mudar a agenda política para uma que não apenas proteja e preserve, mas também construa um futuro de abundância.
2
Marcio Fernandes
Jornalista e escritor
Leitura goiana da Paulistânia — A minha lista de leitura obrigatória de 2026 começou a ser executada no final do ano passado por conta do estudo que faço dos 300 anos de Goiás.

O foco da atividade intelectual é gerar conhecimento sobre a cultura caipira goiana no universo da Paulistânia, esse espaço geográfico imenso do Brasil-Central onde ocorreu uma história muito peculiar do país. O estudo começa na leitura da obra de Joaquim Ribeiro (“Folklore dos Bandeirantes”) e Alfredo Ellis Junior (“O Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano” e “O Café e a Paulistânia), os dois autores que criaram este conceito no século passado.
Ao mesmo tempo, estou lendo “Os Parceiros do Rio Bonito”, de Antonio Candido e na fila se encontram Sérgio Buarque de Holanda (“Caminhos e Fronteiras”) e Darcy Ribeiro (“O Povo Brasileiro” e “O Mulo”), aqui mais uma releitura de pontos específicos.

A ideia é estudar a cultura caipira, construção extraordinária da civilização brasileira, que naturalmente começa em São Paulo e se expande para Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e especialmente Goiás. É quase a metade do Brasil que não dá problema ao país se olhado de se cima para baixo no mapa.
O objetivo é situar a geografia da cultura caipira dentro da história dos 300 anos do Estado como uma manifestação legítima da parte brasileira que não tem contato com o mar. Começa com os bandeirantes e vai até a configuração urbana desse modelo de ocupação do território que o Brasil inventou a partir da portugalidade envolvida pelos elementos africano e ameríndio em miscigenação especular, vocacionada ideologicamente para ser caipira.

Eu tenho uma relação muito antiga de antagonismo e admiração pelo comportamento super roceiro de Goiás. Minha família está por aqui há pelo menos 150 anos como resultado do encontro de paulistas e mineiros.
O escritor da cultura caipira goiana, Adolfo Mariano (“O Poeta Nato”), é irmão do meu bisavô e era um orgulho do meu pai ter a obra do tio na biblioteca de casa.
Esaú Marques Guimarães, patrono da cadeira número 1 da Academia de Letras de Brasília, é meu tio, um poeta caipira, parnasiano, formado na Faculdade de Farmácia do Rio de Janeiro, que cometeu suicídio. O samba da minha terra dos tempos de criança era a catira vinda da parentada de Goiandira. O pessoal virava um molambo de música caipira da meia noite para o dia em 72 horas de festa na casa do meu avô.

O professor Joveny Cândido de Oliveira, caipira exemplar, me deu de presente “Coração da Onça”, de Ofélia e Narbal Fontes, em contribuição ao estudo. Vou ler, é claro.
Eu espero em 2026 ler “Ao Farol” (To the Lighthouse), da Virginia Woolf, em edição bilingue. Certamente, a Nélia Costa vai doar alguma coisa para eu ler e o Marcelo Franco me deu um positivo de presente adquirido no Chile. Ainda não rolou nenhum livro via Correios, como fazia antigamente o Luiz Gravatá. Uai, eu vou ler mais alguma coisa que aparecer especialmente relacionada aos caminhos goianos na Paulistânia no acontecimento dos 300 anos de Goiás.
3
Italo Wolff
Jornalista e tradutor
Em 2025, bati minha cota. Li James Joyce, Lydia Davis, T. S. Eliot, Anton Tchékhov. Cumprida a obrigação com os escritores sérios e importantes, decidi dedicar 2026 ao descrédito: experimentação metaficcional, artefatos históricos e literatura de gênero. Nem um dos integrantes desta lista frequentou coquetéis ou recebeu prêmios ao lado dos figurões da literatura, mas, curiosamente, sinto que seus trabalhos são os mais inovadores, relevantes e influentes dos últimos anos.
Casa de Folhas, de Mark Z. Danielewski
Este livro experimental de terror é uma exploração da linguagem que confunde os limites da ficção para causar medo. Usando a forma do pseudo-ensaio desenvolvida por Jorge Luiz Borges em “A Aproximação a Almotásim”, a narrativa se desenrola em vários planos: primeiro, há a discussão de um filme de terror que existe apenas no universo da história, supostamente um “documentário” de filmagem encontrada, como A Bruxa de Blair. O filme Navidson Record trata de um fotógrafo que encontra um cômodo secreto em sua casa que leva a um labirinto impossível.
Em segundo plano, há os comentários em notas de rodapé feitos pelo personagem que organiza os escritos. Esse editor assume papel cada vez mais central enquanto é levado à loucura pela leitura do maldito Navidson Record. Por último, há o papel da diagramação. O filme de terror se passa em um labirinto, e a mancha gráfica também. Progressivamente, o texto forma caminhos na página, com parágrafos de ponta-cabeça, ilhas destacadas em janelas tipografia mutante, vazios sugestivos. A loucura do meta-editor coordena a forma e o conteúdo de um livro muito excêntrico.
Metallic Realms, de Lincoln Michel
Outro romance metaficcional, Metallic Realms apresenta ao leitor as nove histórias que formam o cânone de uma série de ficção científica chamada “Star Rot” (Podridão Estelar), que existe apenas no universo do livro. Segundo o crítico literário e escritor Mattia Ravasi, que resenha o livro, “São histórias divertidas por si só, mas também representam uma longa e variada homenagem às possibilidades do gênero da ficção científica. […] O que complica este quadro, transformando-o em um intrincado quebra-cabeça metaficcional, é a mão pesada de seu inesquecível curador.”
O protagonista Michael Lincoln (uma inversão do nome do autor) é o curador da coletânea que o leitor tem em mãos, e seus comentários deixam clara sua convicção de que ele está criando e apresentando uma das maiores obras de todos os tempos. Porém, logo fica evidente que Michael também pode ter outros motivos para querer lançar sua própria versão da história; e ele aproveita o espaço como comentarista do Star Rot para se antecipar às “distorções, invenções e calúnias descaradas” que foram espalhadas sobre ele, por razões que o leitor deve descobrir.
Manuscrito Encontrado em Saragoça, de Jan Potocki
É sempre saudável ler um livro de mais de 200 anos, para nos lembrarmos de nossa desimportância no eterno fluxo das coisas. Nossos medos e prazeres não são originais, a sensação de viver o momento crucial da história é uma constante desde o início da civilização, a subjetividade privada causa a todos a impressão de possuir uma alma (ou subconsciente, para modernos) genial e caprichosa.
Neste ano, o escritor Alex Castro me convenceu a ler um romance picaresco de 1805, que trata do espírito de seu tempo, “resumindo o iluminismo, introduzindo o Romantismo e antecipando o pós-modernismo”. O New York Times o resenhou assim:
“Em O Manuscrito Encontrado em Saragoça, a curiosidade iluminista de Potocki tornou-se o princípio orientador de uma obra-prima literária. Como obra de um autor polonês, escrita em francês, ambientada na Espanha, contrastando e reconciliando as perspectivas religiosas do catolicismo, do islamismo e do judaísmo, ela testemunha uma visão europeia cuja amplitude cultural e apaixonada investigação intelectual têm tudo a oferecer aos leitores da Europa e da América de hoje. Ler o romance hoje é redescobrir as ricas preocupações filosóficas e a irreprimível curiosidade cultural do Iluminismo, na homenagem de Potocki a uma época na Europa que já estava desaparecendo enquanto ele escrevia.”
Algo Sinistro Vem Aí, de Ray Bradbury
Uma de minhas leituras mais divertidas de 2025 foi “O País de Outubro”, coletânea de contos de terror de Ray Bradbury. Antes de Stephen King e Anne Rice e Clive Barker colocarem o terror de volta na moda e nas prateleiras dos best sellers, nos anos 1970, Ray Bradbury já praticava esse gênero com qualidade de escritor de ficção literária.
O terror, que chegou a ser uma forma nobre durante o período gótico, tinha caído no descrédito das revistas pulp, e escritores sérios como Lovecraft e seu círculo foram esquecidos. Ray Bradbury afastou o gênero do romantismo e o vestiu de um realismo moderno, tornando-se assim um dos mais populares inventores da nova cultura americana. Influenciou séries de televisão, como Além da Imaginação (Twilight Zone), e incontáveis filmes B, como O Horror Vem do Espaço, A Ameaça Vem do Polo, e outros.
Hoje, ler “Algo Sinistro Vem Aí” tem duplo interesse. O interesse narrativo, sobre o destino dos dois garotos de 13 anos que enfrentam o sinistro circo itinerante liderado pelo Sr. Dark; e o interesse antropológico, sobre a otimista época de boom econômico em que os Estados Unidos exportaram seu imaginário para o mundo ocidental.
4
Rodriana Costa
Escritora
Quando perguntada sobre quais livros eu pretendia ler em 2026, um embaraço se apropriou da minha mente, em um reboliço desconexo. Como não havia pensado de maneira sistemática sobre minhas leituras para o próximo ano?
Logo eu, que sou tão metódica… de súbito me lembrei da lista de leituras vagando no plano das ideias. Essa pertencendo a um assíduo das Letras, sempre será longa e infinitamente transbordante. Obras mais palatáveis, saborosas, outras ainda pouco intragáveis e indigestas, todas à disposição a serem consumidas como antídoto à nossa insuportável realidade. Pensando em um cenário diverso e caótico, tentei organizar meus pretendidos por categorias, que aleatoriamente estavam lá à espera para ser consumidos, ora voraz, ora lentamente.
Ofereço-lhes uma pequena porção do que desejo saborear em 2026. Nesse requintado caldeirão separei um bocado do que tenho ao alcance: 1) os perdidos na galeria do celular; 2) os sugeridos por amigos e que ainda não li; 3) os que inspiram o momento de escrita; 4) os comprados em lançamento de amigos escritores; 5) outros recebidos de presentes; 6) clássicos que não me canso de reler; 7) lista dos mais vendidos; 8) julgados pela capa, 9) edições antigas.
Essa porção literária que lhes preparo, a faço com muito empenho! Ouso utilizar deste meio como um ensejo eficaz para organizar minha lista de obras para 2026.
Vamos à porção.
É preciso de um caldeirão bem forte, rústico com uma alça que suportará todo o peso de universos distintos. Começo com O Amante, de Marguerite Duras extraído dos perdidos nos prints da galeria do meu celular. Esse, entre todos, possui destaque por ter sido encontrado em uma postagem recente de uma leitora a qual admiro bastante, então valerá o tempo. Não pode escapar O túnel, de Ernesto Sabato, sugerido por um amigo de relevante conhecimento literário, mas que não consegui lê-lo neste ano.
Visto que todos escritores e escritoras são, antes de tudo, assíduos leitores e leitoras, lanço Os segredos de uma família imperial, Mary del Priore, como um livro que me inspira no meu processo de laboratório para escrita de um novo trabalho.
Para harmonizar, sugiro acrescentar A União das Coreias, de Luiz Gustavo Medeiros, adquirido em lançamento de um escritor amigo.
Uma dose de A vida invisível de Adduie Larye, de V.E Schwab, um presente de aniversário. Adicione a pequenina e potente, no Conto da ilha desconhecida, de José Saramago, pela milésima vez, como o clássico que não canso de reler. Para conservar as tendências não pode faltar um bocadinho de Uma oração para desaparecer, de Socorro Acioli, resgatado da lista dos mais vendidos neste ano, depois de ler A cabeça do santo, quase me sinto obrigada a lê-lo.
Julgados pela capa: A Ampulheta, Goreth Rubin, estilo tête-bêche capa dura; e das edições antigas, Ivanhoé, de Walter Scott, primeira edição, garimpadas em meu sebo preferido. Pronta a porção! Os títulos, princípios ativos dessa porção não possui uma posologia limitada. Use quando quiser, onde se sentir à vontade, de modo que possa acessar seus diversos universos.
Espero, estando na condição de alquimista, com sinceridade, que essa porção contribua com a viagem de cada leitor e leitora pelos diversos enredos, a fim de interagir com seus personagens e suas peculiaridades em um tempo e espaço que perpassam o contemporâneo e o histórico.
Um feliz 2026 de muita magia literária.
5
Adalberto de Queiroz
Poeta, cronista, crítico literário e jornalista
Escritores brasileiros
1 — Esperei com certa ansiedade por este novo (segundo) romance de Rodrigo Duarte Garcia. Sua estreia na ficção em 2016, com “Os Invernos da ilha” provou ao público seu talento em criar um mundo e saber contar uma boa história. Se à época, ele teve a sabedoria de esperar para lançar seu primeiro livro, agora amadureceu este “Os flamingos” por quase dez anos. Nascido em 1980, Duarte Garcia é advogado e foi articulista da revista Dicta & Contradicta (2008-2013), mas sobretudo é um narrador de primeira. Este segundo romance saiu em 2025 pela Livraria Danúbio Editora e tem 606 páginas.
2 — “O Advento”, de Karleno Bocarro é outro livro de um narrador que me fez esperar outra obra, desde seu “As almas que se quebram no chão”, narrativas baseadas em sua experiência na Alemanha, onde estudou História, Ciência da Cultura e Filosofia na Universidade Humboldt de Berlim. Professor e tradutor de escritores como Viktor Frankl e Franz Kafka, atualmente, Karleno traduz os quatro tomos da “História da Cultura Grega”, de Jacob Burckhardt.
3 — De Fabrício Tavares de Moraes desejo ler sua primeira obra de ficção — “E Bem Quisera que já Estivesse em Chamas”. O autor de “À Sombra da Modernidade”, seu notável livro de ensaios já nos provou sua erudição, sua ambição estética e sua profundidade no tratamento de temas humanísticos, com uma abordagem única e merecedora de aplauso e da minha admiração.
4 — De Solemar de Oliveira, um de nossos melhores narradores goianos, pretendo reler “Vela Apagada Por um Sopro”, com vistas a uma resenha, na sequência de duas outras que fiz sobre a obra dele.
5 — De Anderson Lucarezi pretendo aprofundar a leitura de “Hart Crane: Transmembramento da Canção: Poemas e Ensaios Escolhidos”. O que de certa forma coloca essa escolha em duas categorias.
6 — Pretendo ler espaçadamente crônicas de Clarice Lispector e de Lêdo Ivo, em seus respectivos livros de crônicas reunidas – dela, o volume lançado pela Rocco (Todas as crônicas) que ganhei de presente de minha amiga a escritora Tainá Corrêa; dele, o livro sempre revisitado da Coleção Melhores Crônicas (Lêdo Ivo), com prefácio e notas do goiano Gilberto Mendonça Teles.
Escritores estrangeiros
1 — Hart Crane: poemas e ensaios escolhidos (ver nota 5 da categoria anterior).
2 — De Romano Guardini, pretendo concluir a leitura/estudo de “Liberdade, Graça e Destino: três capítulos da existência” e ler/estudar “O mundo e a pessoa: ensaios de uma teoria cristã do homem”. Guardini (1885-1968), escritor e teólogo, nasceu na Itália, mas cedo se mudou para a Alemanha, onde foi professor nas Universidades de Berlim, Tubinga e Munique. Seus livros saíram no Brasil pela Academia Monergista (Brasília).
3 — Do escritor detentor do Prêmio Nobel de Literatura de 2025, László Krasznahorkai, pretendo ler “Sátántangó” e “O Retorno do Barão de Wenckheim”, antes ou durante minha viagem à terra natal do autor (Hungria) em março próximo.
4 — De Roger Scruton, pretendo concluir a leitura/estudo de “A alma do mundo”, na tradução de Martim Vasques.
5 — Do japonês Natsume Soseki li nessas primeiras semanas de 2026 o surpreendente “Kokoro”, livro tido como a obra-prima dele e publicado originalmente em 1914.
6 — Dois outros livros ficarão na lista de espera — um para ser concluído porque é um longo estudo: “O Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell; e o outro, um quase livro de consulta: “Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil”, de Gilles Lapouge, também presente de fim de ano, que ganhei de um amigo muito estimado.

