Helder D’Araújo

Especial para o Jornal Opção

Sabemos, ao visitar o jovem clássico de Orwell, como um ideal de revolução é transviado. Mas podemos inferir que o ato de ler, saber ler, pode ser um poderoso ato revolucionário.

Quando revisitamos um clássico, constatamos o que disse o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985): “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

A rigor, “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras, 152 páginas, tradução de Heitor Aquino Ferreira), do escritor britânico George Orwell (1903-1950 — viveu apenas 46 anos), seria um jovem clássico. É um livro da primeira metade do século XX. Trata-se de uma crítica a uma certa revolução que virou totalitária.

A ideia inicial do porco Major (Lênin) é incendiária. Mas Major logo morre. Seus sucessores, outros porcos, seguem com a doutrina do animalismo. A doutrina é sintetizada em sete mandamentos.

Quando os bichos da fazenda do alcoólatra Jones tomam o poder, vê-se a oportunidade de viver a Utopia. As ovelhas, como disco riscado, repetirão o primeiro mandamento até quase o final da novela. “Quatro pernas bom, duas pernas ruim.” Mas uma coisa é a Utopia, outra a Distopia. O que segue é esta última.

A liderança é compartilhada com os porcos Napoleão, Bola de Neve e Garganta. Bola de Neve tem ideias de mecanizar a fazenda. Apresenta uma proposta para a bicharada, a construção de um moinho. Napoleão e Garganta conspiram contra o cérebro da fazenda.

Nesse ínterim, os humanos tentam resgatar a posse da propriedade. Os bichos levam a melhor. Bola de Neve não realiza seu projeto. Napoleão apresenta sua força letal, dez caninos que lembram, cada qual, o cão dos Baskervilles de Conan Doyle. O poder é tomado com ameaça de violência.

Nada é realizado na fazenda sem uma laboriosa manipulação de informações. Fenômeno que é levado às últimas consequências. Os mandamentos vão sendo alterados aos poucos. Enquanto isso, a bicharada vê-se até a exaustão na esperança de dias melhores. “Todos são iguais, mas uns bichos são mais iguais que os outros” (uma deturpação do sétimo mandamento). Que vem a ser isso? Uma outra versão do 2 + 2 = 5. Ou os animais são iguais ou não, ora essa!

Ióssif Stálin: o ditador que implantou o sistema totalitário na URSS | Foto: Reprodução

A ração para a trindade (Napoleão, Garganta e Mínimo) é diferente. O espaço que eles assumem, a casa de Jones (o ex-dono da fazenda), difere do espaço dos animais. E assim adultera-se o quarto mandamento.

Coisas piores acontecem. A execução dos animais tidos como subversivos, isto é, inimigos da Revolução, é algo hediondo. Mas quem tem um comunicador como Garganta tem todas as respostas possíveis. Até mesmo para a violência.

A disparidade dos animais dá-se uma vez que uns sabem ler, outros sabem algumas letras do alfabeto e a maioria nada lê. Os porcos aprenderam a ler e a colocar em ação o que descobrem nos livros.

Napoleão, da água para o vinho, retoma o projeto de seu adversário, Bola de Neve. Um período doloroso de anos, entre terror na fazenda e batalhas com humanos, dá-se de forma fatalista. É tocante como um dos servos fiéis da Revolução chega ao seu fim. O cinismo e manipulação dos porcos chega a um nível diabólico.

Quatro pernas bom, duas pernas ruim. Até quando? O animalismo sofre uma metamorfose estranha.

George Orwell capa de A Revolução dos Bichos

Após execuções, uma propaganda que confunde a todo tempo, destrói reputação (a propaganda sempre inventa factoides de Bola de Neve), trabalho forçado, manipulação, as ovelhas enfim mudam o disco.

Ouvem todos o novo balido: “Quatro pernas bom! ‘Duas pernas’ melhor!”.

Os sete mandamentos enfim estão mutilados. A canção que o velho Major entoou, e que era o hino da bicharada, havia sido proibido. Só podia cantar aquilo que Mínimo (porco poeta) escrevia e que a propaganda (Garganta) espalhava.

Uma coisa é lutar contra um inimigo. Outra totalmente diferente é parecer-se com o inimigo. A égua Quitéria relinchou com horror quando viu um porco andando sobre duas patas traseiras. A novela termina assim: “Já era impossível distinguir quem era homem e quem era porco”.

George Orwell denuncia de forma alegórica, com sua novela de antropomorfismo animal, características de todo sistema totalitário: abuso de poder, violência política, coerção, manipulação de fatos, perseguição de inimigos políticos, execuções, distorção dos ideais alvissareiros de um sonho, isto é, a igualdade, a liberdade, o bem comum a todos. Animais falam e agem como gente somente em fábulas. Mas os comportamentos humanos emprestados aos animais existem na crônica do dia.

A Revolução dos Bichos

O comportamento dos porcos da ficção não difere do comportamento de autocratas. E os dos demais animais, dos de civis sob o manto de ferro das ditaduras. Não constatam isso somente os bichos da Fazenda Solar: o leitor, perplexo, constata também isso nos símios de sua espécie.

Os animais sentem que o que os porcos fazem não condiz com a primeira versão da tábua da lei. O explorado Sansão sonha em aposentar-se e dedicar-se à melhoria de seus conhecimentos, como aprender a ler. Percebe-se que a desapropriação desse elemento básico, assim como o analfabetismo funcional de qualquer cidadão médio, causa enorme embaraço na compreensão dos fatos.

Se todos os animais soubessem ler, a trindade maligna não teria durado muito. Em um episódio de ataque dos cães, Sansão sobrepuja um cérbero de Napoleão facinho, facinho. Eles já haviam enfrentado os homens que possuíam armas de fogo. Não seria difícil vencer esses inimigos internos. Mas os porcos foram mais velozes quanto a isso. Quando surgiu uma nova manada de porcos, logo foi providenciada a educação como instrumento da manutenção do status quo suíno.

Sabemos, ao visitar o jovem clássico de Orwell, como um ideal de revolução é transviado. Mas podemos inferir que o ato de ler, saber ler, pode ser um poderoso ato revolucionário. Nos agonia Quitéria depender sempre da má vontade do burro Benjamim, quando solicitado a ler para ela. É dolorido ver Napoleão desperdiçar sua força e quebrar pedra até a exaustão com o sonho de um dia melhorar seus conhecimentos e decifrar os vinte e seis signos (letras) do alfabeto.

É oportuno tratar essa nuance na novela de Orwell. Vivemos recentemente uma onda de cancelamento de livros. É famosa a frase de Heine: “Onde queima-se livros, queima-se também homens”. Estão censurando livros, daqui a pouco a liberdade como um todo também será cerceada. Livros ora ou outra tornam-se suspeitos. Assim como quem lê. Faz-se necessário o ato. É imperativo o latinismo de Santo Agostinho, “tolle et lege!” (Toma e lê!), para não suceder conosco o que aconteceu aos coitados da Fazenda dos animais.

Helder D’Araújo é livreiro, crítico literário e escritor.