A maior dor do autor não é escrever — é o que vem depois
28 fevereiro 2026 às 21h00

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Leandro Almeida
Especial para o Jornal Opção
Todo mundo imagina que a parte mais difícil de se tornar autor é escrever um livro. Eu também imaginava, até decidir ouvir quem vive essa jornada na pele.
No fim do ano passado, enquanto organizava metas para 2026, fiz uma pesquisa simples com escritores e aspirantes a escritores de diferentes regiões do Brasil. Responderam 81 pessoas. Não é uma amostra estatística do país, mas é um retrato bem nítido de uma dor recorrente.
O resultado foi direto: a dificuldade mais citada não foi “falta de tempo”, “falta de ideias” ou “bloqueio criativo”. O que mais apareceu foi outra coisa: não saber vender e divulgar o próprio livro. Quase metade dos respondentes apontou essa como a principal barreira. Em seguida veio a questão financeira: quatro em cada dez dizem precisar de condições mais acessíveis para investir na publicação.
Confesso: isso me surpreendeu. A gente cresce ouvindo que o difícil é escrever, que colocar palavras no papel é o grande desafio. Mas os dados sugerem outra história, e ela continua.
Quem respondeu à pesquisa também desmonta um estereótipo comum. Não são, em sua maioria, jovens idealistas. Noventa por cento têm mais de 40 anos; quase um terço já passou dos 60. São professores, profissionais liberais, aposentados, empreendedores: gente que já construiu carreira, família, repertório. E que agora quer transformar vivência em algo que fique.
Quando perguntei o que os motivava, a resposta foi mais emocional do que financeira. Mais da metade falou em realização pessoal. Mais de um terço citou legado, algo para filhos, netos, para quem vier depois. Apenas uma minoria colocou dinheiro como motivação principal. Publicar, para muita gente, é um jeito de existir além do tempo: transformar vivência em palavra, e palavra em memória.

Outro dado chama atenção: quase metade dos respondentes já publicou ao menos um livro. Alguns têm cinco, seis obras no currículo. Não são apenas “sonhadores distantes”. E, mesmo assim, dois em cada três autores publicados afirmam que não sabem vender nem divulgar o que escrevem.
Pense no que isso significa. A pessoa vence a batalha da escrita, encontra um caminho para publicar, finaliza o manuscrito, vê o próprio nome na capa, faz lançamento, posta nas redes… e depois se vê sozinha. A celebração passa. E a pergunta aparece, inevitável: e agora?
Nas respostas abertas, esse “depois” apareceu com força: gente que não sabia o próximo passo, que trava ao falar do próprio livro, que fica insegura ao investir novamente por falta de retorno na obra anterior.
O livro e o começo de uma nova fase
Por que isso acontece?
Parte da resposta está numa crença ainda muito presente: a ideia de que basta escrever bem e entregar a uma editora, e o resto “se resolve”. Na prática, o mercado mudou. Publicar é só uma etapa. Depois dela, o autor precisa construir presença, criar conexão com leitores, entender onde esse público está, aprender a comunicar a obra sem constrangimento. O lançamento não é o fim da jornada, é o começo de uma fase nova, tão exigente quanto a escrita.
E existe também um descompasso cultural: escrever é visto como nobre, artístico, inspirado; divulgar parece comercial, quase “menor”. Muitos autores sentem vergonha de vender o próprio trabalho. O resultado é conhecido: livros bons que não chegam aos leitores, mensagens importantes paradas em caixas, sonhos realizados pela metade.
Ao mesmo tempo, há uma boa notícia: a vontade existe. Mais de dois terços dos respondentes disseram estar prontos para agir nos próximos 30 dias, se encontrarem um caminho claro e acessível. Ou seja: não falta sonho. Falta mapa. Falta método. Falta alguém que conecte as etapas.
Se você carrega um livro dentro de si, romance, memória, guia, mensagem, saiba que essa travessia é mais comum do que parece. A maior dor do autor, muitas vezes, não é escrever. É não saber o que fazer depois que o livro fica pronto.
Leandro Almeida é mentor de autores e diretor da Editora Kelps, com mais de 40 anos de atuação no mercado editorial, criador do método “A Jornada do Autor” e “Publique-se!”.

