Cida Almeida

Especial para o Jornal Opção

Adélia Prado floresce e frutifica no meu jardim, fazendo uma bela composição com Mário de Andrade e J. Pinto Fernandes (aquele do poema “Quadrilha”, do Carlos Drummond de Andrade, o que não tinha entrado na história). É a minha Santa Trindade em forma de jabuticabeiras — batizadas com muito carinho —, espraiando-se na ampla visão do jardim nas horas em que me entrego às delícias da rede na varanda de Riobaldo, em uma casa amarela, ensolarada na cor, também uma homenagem a Adélia. Queria ter uma casa “constantemente amanhecendo”, sem paredes úteis para se encostar, só janelas e horizonte.

Assim, no range-range da rede, descalça, percorri avidamente “O Jardim das Oliveiras” (Record, 144 páginas), de Adélia Prado, o acontecimento literário do final de 2025 celebrando os 90 anos da poeta, completados em 13 de dezembro, dia consagrado a Santa Luzia, que ela traz no nome (Adélia Luzia Prado de Freitas).

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Cida Almeida e Adélia Prado: duas poetas | Foto: Acervo de Cida Almeida

E que luz no jardim de Adélia! Melhor e mais gratificante leitura para fechar de um jeito sublime o ano e iniciar novos ciclos de leitura. A escritora chegou aos 90 celebrada e cultuada como uma das maiores poetas brasileiras de todos os tempos. “O Jardim das Oliveiras” é um sumo, muito espesso, da refinada e transcendente poesia de Adélia, que esbanja vitalidade, presença, agilidade e sintonia com o tempo e os homens presentes. Por sinal, o nome Adélia significa “nobre”.

O seu cativeiro de palavras (do verbo cativar) é feito de asas, nuvem de borboletas convidando ao espetacular jardim da poesia. Ela mesma a borboleta pousada, a formiguinha lava-pés, certeira em sua picada que nos acorda para os abismos e as delícias do existir.

Adélia é uma esgrimista de primeira grandeza, afiada nos argumentos, surpreendente na visão de mundo. O seu cativeiro de palavras (do verbo cativar) é feito de asas, nuvem de borboletas convidando ao espetacular jardim da poesia. Ela mesma a borboleta pousada, a formiguinha lava-pés, certeira em sua picada que nos acorda para os abismos e as delícias do existir.

“O Jardim das Oliveiras” passa a ser o meu livro dela mais rabiscado até agora (espero outros) e olha que eu já passei praticamente por todos.

Ele vai perfilar os meus livros de cabeceira, junto com “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e a “Antologia Poética” de Carlos Drummond de Andrade. Livros que leio como quem lê a Bíblia, buscando respostas para os momentos críticos da vida.

Não consegui ler, um poema sequer, sem ser tomada pelo impulso do lápis sublinhando, destacando e anotando as impressões provocadas. Entrou, definitivamente, para o topo da lista dos meus preferidos da autora, ombreado com “Oráculos de Maio”, “Terra de Santa Cruz”, “Cacos Para um Vitral”, “Bagagem”, “O Coração Disparado”, “A Faca no Peito” e “Quando Eu Era Pequena”, o primeiro infantil dela — só que não.

É de uma beleza e profundidade esse livro, que nos atravessa com imagens que cintilam como diamantes, assim, restos de sol batendo na flor de abóbora, a mãe cantando… É de deixar adulto embevecido. Que saudade da minha mãe, que nunca cantou mas achava que saber cantar era a coisa mais linda do mundo.

Ah, só para constar, com muito orgulho: o meu exemplar de “Quando Eu Era Pequena” tem o autógrafo de Adélia. Um tesouro fabuloso, como “achar ninhos de ovos de galinha no mato”.

Esse encontro com as memórias afetivas de Carmela, a personagem-narradora, atravessou lembranças de minha infância de menina solta nos cafundós do quintal e dos pastos e dos seres reais e imaginários que povoaram aquele mundaréu do sem-fim.

Ali, no alto da página, com uma letra bonita, Adélia tascou: “Tomara você fique amiga de Carmela”. Fiquei. Trouxe aquele dia (23 de maio de 2006) do meu encontro com Adélia e aquela menina para o corpo, para a voz, para o palco da minha vida. Mas essa é outra história, que fica para depois.

Voz desentoca desejo de mergulho no Rio

Na esteira do aclamado lançamento de “O Jardim das Oliveiras”, após uma fase de recolhimento da poeta em razão de uma depressão, provocada pelo luto com a perda de uma irmã — história contada por ela em um especial do “Conversa com Bial”, na TV Globo, que vale a pena assistir —, e das comemorações dos 90 anos da escritora, vieram um boom de reportagens. E tome entrevistas para os mais diversos veículos, recortes de depoimentos publicados na internet e a própria Adélia em seu perfil no Instagram (@euadeliaprado) – recomendo ainda seguir o @adeliadivinopolis — lendo poemas do novo livro e fazendo comentários. Ela adora ler poesia.

As leituras de Adélia são um deleite para quem ama, como eu, ouvir a poeta. Ela se rendeu à internet há pouco tempo, cerca de dois anos (importante sublinhar que escreve a mão, com lápis bem apontadinho, fluxo de escrita orgânico sem comungar com os recursos e o tempo dessa máquina chamada computador). É cativante vê-la, cheia de presença e alma, com uma voz que desentoca na gente desejos de mergulho no rio profundo da vida que se revela nas pequenas coisas que nos cercam, nos gestos e miudezas outras, como a satisfação de virar a página de um livro, passar lentamente os dedos sobre o papel, firmar o tom da voz para destacar uma palavra lida ou um sentimento.

Adélia Prado Foto Divulgação da Biblioteca Nacional
Adélia Prado, uma das mais importantes poetas globais | Foto: Divulgação da Biblioteca Nacional

Lá se vão quase 50 anos da publicação de seu livro de estreia, “Bagagem” — 1976 (recomendado por Carlos Drummond de Andrade, com prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna).

No lançamento desse livro, ocorrido no Rio de Janeiro, figuras consagradas de nossa literatura estavam presentes: Carlos Drummond, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Antônio Houaiss e Affonso Romano, entre outros. Que estreia.

A obra de Adélia abarca romances, contos e infantis, mas com o veio da poesia robusto, formando um rio caudaloso puxando o barco de sua criação e materializado em vários livros. Ela conquistou renomados prêmios nacionais e internacionais, como Jabuti, Machado de Assis e Camões.

Nascida e morando em Divinópolis (Minas Gerais), Adélia ganhou o mundo (com diversas traduções para o inglês e espanhol) e os palcos. Na década de 80, numa parceria com a atriz Fernanda Montenegro, brindou seus leitores com o espetáculo Dona Doida, referência a um célebre poema dela. Esse poema me agarrou pelos tornozelos e me fez raspar a história das mulheres da minha família até encontrar Zulmira, a tia-avó, a que perdeu o juízo e vivia apartada da casa, do convívio da família, trancada em um paiol, em conversas intermináveis com gente que só ela via e entendia. A poesia tem essa força, a de ressuscitar nossos mortos e fazê-los falar, por mais débeis que sejam as nossas memórias.

Adélia Prado Foto de Cida Almeida 1
Adélia Prado: maior poeta de Língua Portuguesa viva | Foto: Cida Almeida

Por isso, Zulmira ainda me interroga, pede escuta nesse poema-espelho de Adélia que tanto mexe comigo:

“Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

As poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta riu de dona tão velha,

com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove”. 

Adélia Prado três fotos 111

A escritora, que também se dedicou ao magistério, é formada em Filosofia. Tão bom quanto ler Adélia é assistir suas palestras, entrevistas, vê-la discorrer com mestria sobre os temas existenciais, o diálogo profundo entre filosofia e poesia, a religiosidade, o sagrado, o ofício de escrever, o cotidiano com o que tem de mágico e de mistério, o fluir da vida, as pequenas epifanias.

O que Adélia faz, com sua imensa e universal poesia, é levantar a pedra no meio do caminho, sem temê-la e nem tremê-la, expondo suas fissuras e imperfeições, incrustando o seu nome nessa pedra com a fina flor da linguagem, flor-adélia, a poesia de uma vida inteira.

E no começo da minha caminhada com Adélia me perturbava ao ponto da indignação a forma como a descreviam: uma dona de casa, interiorana, extremamente católica e que escrevia sobre o cotidiano. Sim, Adélia comporta essas definições, mas não no sentido reducionista que tanto incomodava os meus ouvidos naquela época, ainda mais se ditas por vetustos homens de letras. Eu lia Adélia e o mundo se abria em espiral, via ali intrigantes e saborosos diálogos com filósofos (das mais variadas correntes), psicanalistas, cineastas, pintores e meus escritores favoritos, e uma originalidade de escrita amando a vida, iluminando o itinerário de Pasárgada e me acordando. Adélia virou e continua virando o jogo, a cada livro, uma surpresa, novos encantos.

O que Adélia faz, com sua imensa e universal poesia, é levantar a pedra no meio do caminho, sem temê-la e nem tremê-la, expondo suas fissuras e imperfeições, incrustando o seu nome nessa pedra com a fina flor da linguagem, flor-adélia, a poesia de uma vida inteira.

Adelia Prado e Guimarães Rosa
Guimarães Rosa e Adélia Prado: nomes centrais da literatura brasileira e global | Fotos: Reproduções

A primeira vez com Adélia Prado

Na minha primeira vez no jardim de Adélia encontrei, de cara, o nipônico poema: “A borboleta pousada/ou é Deus/ou é nada”. Que verso, que poesia, que enigma, que voo!

A beleza e o poder dessa imagem ficaram ressoando em mim como um mantra, o refinamento etéreo da poesia que pousa e faz a gente estremecer. Era o começo dos anos 80.

Depois, grudou em mim aquela imagem da casa pintada de alaranjado brilhante constantemente amanhecendo (vi ali Van Gogh).

Aí, não teve mais remédio. Vieram os livros, todos os de poesia, depois os romances e a própria Adélia, a mulher cheia de atitude e fala sensual.

Como Adélia é sensual, ainda mais agora com a exuberância dos 90, transcendente, cativante e erótica, assim de fazer a carne da poesia arrepiar e tremer. Sexo, Deus e morte são as três coisas sobre as quais a poeta mais pensa, todos os dias. Ela confessou isso com uma beleza e graça de naturalidade na conversa com Pedro Bial.

Adélia é um rio, abraça transbordando e alargando margens, insinuando nascentes riachinhos, poças profundas onde miro, vejo e reencontro as mulheres da minha vida, as que também vieram de Minas (minha mãe, minha avó, minhas tias).

Com sua poesia, sou transportada para os quintais varridos da minha infância, aqui e ali vejo as roseiras na porta de casa, as pedrinhas do caminho, a casa de alpendre coberta de heras e gravura de Natal na parede, meu pai fazendo a barba, as rezas de minha avó espantando chuva brava, o tempo passando, a fineza do sentimento de minha mãe esperando meu pai voltar da roça com água esquentando no fogão a lenha, a cozinha arrumada após o almoço, o lápis deslizando no papel pautado do caderno, uma mulher escrevendo. Quanto poder e mistério numa mulher escrevendo, levantando a pedra do patriarcado, libertando e esculpindo a própria voz, dando luz a outras dimensões e mundos.

Adélia Prado autógrafo para Cida Almeida Foto Cida Almeida
Autógrafo de Adélia Prado para Cida Almeida: de poeta para poeta | Foto: Cida Almeida

E que voz, a de Adélia! Uma voz capaz de acordar homens e mulheres, confrontá-los, confortá-los e partilhar com o pão da palavra a poesia e a alegria da vida. Tantos gritos transformados em canto, como ouvir um jazz, uma sinfonia, uma rajada de vento numa janela escancarada para o horizonte numa manhã sem pressa, uma criança brincando na rua sem medo.

Ela já disse, lê Drummond como quem lê a Bíblia. Mas atravessou essa pedra no meio do caminho de todo poeta já em seu livro inaugural, com o poema “Com licença poética”, um contraponto ao “Poema de Sete Faces”, um dos mais famosos do anjo torto, o Carlos, o que era gauche na vida. Adélia nesse poema subverte, se afirma, muda a perspectiva, traz esperança ao mundo. Ao invés de desencanto um encanto, palavra de mulher levantando a “quase” inarredável pedra da cosmovisão do poderio dos homens, fundando linhagens, proclamando vontade de alegria, uma escrita e um teto todo seu (bom trazer uma imagem de Virginia Woolf pra essa conversa):

“Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

Vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou”

[Bagagem — 1976]

Adelia Prado vários livros Foto Cida Almeida
A vasta obra de Adélia Prado | Foto: Cida Almeida

A mulher que balança como flor no cosmo

Adélia é um diamante, com as mil faces da palavra e quantas mais houver. Sua poesia é uma faca afiada da comunhão com Deus, com o mistério de existir, a fé renovada em pequenas e mundanas alegrias, o sexo natural, sem bravatas, a alteridade mais verdadeira, que se irmana com o mendigo, o vizinho, as pessoas no frenesi do mercado, a beleza magnífica do cotidiano, a vida se desfiando como um novelo precioso nas águas do tempo e da eternidade, as perguntas que percorrem o homem sem encontrar respostas, um rosário das miúdas contas de uma mulher se interrogando no espelho e só para nos redimir com Drummond, “que balança como flor no cosmo”.

E as flores do jardim de Adélia? Esse jardim das oliveiras? Sabe lá, os desertos que ela atravessou (com a música do Djavan — “Esquinas” — na cabeça)? As pedras moídas no áspero, a seco (‘quem mói no asp’ro não fantasêia’, ah, jagunço Riobaldo, com esse fogo do narrador universal), os nevoeiros, as águas frias de Minas, as barcas de passagem, como nas Brumas de Avalon, a dor de escrever e de não escrever (que testemuno ‘O homem da mão seca’), a alegria que é quando dor vira poesia e possibilidade de comunicação com o outro, com os homens famintos de pão e de sacralidade. E a morte? Essa indesejada dama sempre à espreita com seu olho enganoso de cão manso boiando no nada, o enigma de Deus e suas voláteis criaturas, a poesia que se inscreve para além do poema e ressoa no aqui e agora enamorada do que virá. Há que se ter coragem para se dar ao que existe em nós de errância no jardim da vida. Adélia está inteira e mais que nunca verdadeira nesse jardim, afiadíssima. Atenção à tabuleta no pórtico de entrada: “Esta memória forjada em pó de carvão e lágrimas”.

Comprimidos à mão

“Já começa a rondar a compaixão sem esperança,

o bicho faminto,

sinal de que a matilha me espreita,

ao menor vacilo me derrubará.

O corpo aciona seus alarmes,

sonolências, mordidas fortes na língua,

respiração de máquina cansada.

Morrer é muito difícil.

Até nos salmos se pede:

Deus, concede-me a vida.

Pode um cadáver louvar-vos?

Não sei o que fazer.

Toma o remédio, disse minha filha,

como se fora minha mãe.

Obedeci sem murmurar.

E meu sono foi bom.

Nem três guilhotinas conseguiram

arrancar do corpo minha cabeça.

Tenho feito progressos.

Freud precisa analisar-se.

[“O Jardim das Oliveiras”]

Adélia Prado: múltipla — trezentos e cincoenta | Foto: Reprodução

E tome imagens delicadas (‘Sentir medo era bom,/a mãe abraçava a gente,/oh, vida maravilhosa!’), diminutivos que acariciam com ternura os ouvidos e os sentidos (‘Ideias me beliscando, como piabinhas no córrego’), prosa robusta esculpindo o poema (‘Já nasce com mil anos a memória da alma’), humor de nos levar às gargalhadas (cuidado, amigas, com os salões de beleza). Na amplidão do jardim, com o seu tanto de solidão, mãos boas para plantar e muita inspiração, os oráculos trazem maio para a poesia de Adélia, tanta palavra nascendo e renascendo (amei ouvir ‘latomia” e mais gargalhas).

Até medo de avião cabe nesse jardim, versos de vidro, sempre-vivas, rosas metálicas, a sempre seca viva flor, as neblinas de Diadorim, o amor impressionista, sem contornos, uma lata vazia, uma inclinação para dançar com palavras velhas e palavras novas, um código, um retrós, um albatroz, e muitas borboletas e pássaros, a paciência do jardineiro (“A vontade de Deus é o mundo/Água é Deus ou Deus está na água? Sei que o mundo é sua imagem/e isso é não saber nada’/Estou cansada de ver Deus em tudo. /Quero muito fazer minha vontade.”).

As lições de Adélia: ‘A poesia é feita da perfeição do que não pensa’/‘não se faz poesia apenas com palavras/poemas, sim, mas quem precisa deles?’

As lições de Adélia: “A poesia é feita da perfeição do que não pensa’/‘não se faz poesia apenas com palavras/poemas, sim, mas quem precisa deles?”.  É dona Adélia, quem escreve duvida, como na definição do pica-pau rosiano, o único pássaro que voa duvidando do ar. Assim é o poeta em seus voos cegos, um ser de incertezas, sabedor de que “a poesia é um voo fora da asa” — Manoel de Barros.

Em Adélia a poesia é tudo o que precisa ser: mantra, reza, pão, abrigo, casa amanhecendo. É a fé na vida consolando pobres mortais, o impulso iluminado do primeiro homem ou mulher que rabiscou nas paredes da caverna,  água jorrando das torneiras, pingos de chuva escrevendo alegria nas poças recém-nascidas pisadas por crianças, uma virgem amamentando Deus menino, uma mulher acendendo o fogo da cama e do fogão, seguindo a procissão, uma imensidão de quintal, um ovo com duas gemas para a felicidade da fome. É também um tanto de Minas – a mesma dos meus avós – e uma porção do mundo, o jardim de todos os dias, mãos cavucando a terra, deitando sementes, regando brotos, acariciando flores, um raio de sol no parapeito da janela depois de profundas tempestades.

A poesia em Adélia é uma mulher se conjugando em todos os tempos e recomeçando o mundo com a leveza da borboleta pousada na densidade turbulenta da matéria-vida, sem jamais perder a graça e a delícia do voo.

Cida Almeida, poeta, prosadora, dramaturga, atriz, crítica literária e jornalista, é colaboradora do Jornal Opção.