Por acaso nascido na Bélgica, o prosador, poeta, crítico e tradutor argentino Julio Cortázar (1914-1984 — viveu 69 anos) é visto, pelos críticos, sobretudo como um contista notável que escreveu um romance emblemático, “O Jogo da Amarelinha”.

Em “Borges Babilônico — Uma Enciclopédia” (Companhia das Letras, 571 páginas, organizado por Jorge Schwartz), os críticos Gastón Gallo e Marcela Croce assinalam sobre Cortázar: “O melhor de sua produção são os relatos breves”. Estranhamente, não há uma linha sobre o bardo que, entre outros, estudou a obra do poeta romântico inglês Keats.

Cortázar deixou a Argentina, rumo a Paris, em 1951. Pouco antes, anota César Aira, no “Diccionario de Autores Latinoamericanos” (Paidós, 703 páginas), Cortázar “publicou um volume de poesias (“Presencias”, 1938, sonetos mallarmeanos) que assinou com o pseudônimo ‘Julio Denis’, e um poema dramático, ‘Los Reyes’ (1949)”.

Julio Cortázar capa de Poesia Completa

A crítica literária Bella Jozef, em “História da Literatura Hispano-Americana”, relata que, “em 1949”, Cortázar “publicou um poema dramático em prosa, ‘Los Reyes’, sobre o mito de Teseu e o Minotauro, tema que retomará mais tarde e que dá a chave de sua obra posterior”.

Bella Jozef conecta, portanto, a poesia de Cortázar à sua obra literária geral — a prosa dos contos e romances. O que César Aira não faz.

César Aira postula que os melhores contos de Cortázar constam do livro “Bestiário”, de 1951. O romance “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, consagrou globalmente o escritor.

Os três livros citados, mesmo o de Bella Jozef, pouco mencionam Cortázar poeta, exceto como registro.

Entretanto, Cortázar escreveu poesia em larga escala, como mostra o livro “Poesía Completa” (824 páginas). Não há edição brasileira. A edição da Alfaguara, que circula na Argentina, custa 52.399 pesos — algo como 198,03 reais. Dado o valor elevado, as livrarias informam que parcelam em três vezes (17.466,33 pesos cada parcela). “Sin interés” (sem juros).

Roberson Guimarães Foto Facebook 1
Roberson Guimarães: médico, crítico literário e tradutor | Foto: Facebook

Na Librería Eterna Cadencia, em Buenos Aires, perguntei para o livreiro: “Apesar do preço e do volume alentado, o livro de poesia de Cortázar vende bem?” Ele não hesitou: “Muito bem. Cortázar tem um público na Argentina”. Na “Libros del Pasaje”, recolhi da livreira: “O que se vende mais é a prosa. Mas a poesia reunida sai bem. Há procura”. Na Librería Hernández, ouvi praticamente a mesma coisa: “Como Borges, Cortázar é um autor sempre procurado. O poeta nem tanto, mas a poesia reunida chamou a atenção dos leitores”.

O médico e crítico literário Roberson Guimarães, de Anápolis, decidiu incursionar pela tradução de parte da poesia de Cortázar. O Jornal Opção publica a seguir sete de suas versões.

As traduções de Roberson Guimarães capturam, com precisão milimétrica, o ritmo — a musicalidade — da poesia de Cortázar. Percebe-se, de cara, a perícia.

O Cortázar que nos chega por meio de Roberson Guimarães fala bem português sem deixar de hablar algo da estranheza do espanhol. A tradução de “Jazz”, poema meio enviesado, é luminosa.

A Companhia das Letras está repondo a obra de Cortázar em português. Já lançou: “Bestiário” (120 páginas, tradução de Heloisa Jahn), “Todos os Contos” (1144 páginas, tradução de Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista), “O Jogo da Amarelinha” (592 páginas, tradução Eric Nepomuceno) e “Os Prêmios” (384 páginas, tradução de Ernani Ssó). Então, deveria lançar a poesia, que é parte importante da obra, talvez menos lida.

Julio Cortázar e seu gato | Foto: Reprodução

Confira as 7 traduções feitas por Roberson Guimarães

1

Fantasma

I have been here before. But when or how I cannot tell — Rossetti

Treva mansa com óleo vivo,

mas não quero névoa nem sudário

frio do tempo, espera no santuário

mata e desata! enigma do cativo.

Sombra sem códigos, definitivo

balanço em nada, em seu ser vário,

transmigro sem acasos, funerário

avatar, não sonhar, perigo esquivo.

Fantasma de madeiras — em ruídos

sem aviso luminoso, no que recordo

de uma leitura, de espiar e ver-me —

passo com minha alvura, em alaridos

de cão louco, e toco, quando mordo

a sombra, meu castigo de saber-me.

2

Linha perdida

As esferas, sem rumo decidido

traçam, música sombria, longitudes

tingidas pelo sempre percorrido

panorama do nada, infinitudes

de espaço e de atenção. Ah!, foi perdida

a linha original das imperiais latitudes,

brotada pelo dedo estendido

empenhado em ordenar atitudes.

Perdeu-se, dor, e o redemoinho

se espalha na desarticulação contemporânea!

Olha e se afunda, solícito, o Destino,

mas há um descarte, na instantânea

rebelião das estrelas. Harmonias

rotas num grito de autonomias.

3

Versos para a lua

De tanto suportar nossas canções,

sacrificas rugas ao deus Cronos,

e usas gama pálida de tons

que coroa o luto nas inumações.

Lua, lua adormecida em teus telões,

como te entediam estes alvos bugios

com seus versos de semitons vazios

e com suas falsas improvisações!

Ribalta senil do paraíso,

urge encontrar o canto liso

que te diga sem ruído nossa pena

e que, após alcançar-te com seu acento,

eleve a carícia do lamento

ao espelho de tua face plena.

4

Oração          

Para os dias baudelairianos

Desvenda-me o contorno que, velado,

espera por trás das luzes do diamante,

no sorriso ambíguo da minha amante

e no colapso do amor embriagado.

Dá-me, Viver, a febre do machucado,

que desata seus soluços em barbante,

para extrair um ritmo agonizante

e fazê-lo seminário do pulsado.

Quebra meus ossos e afunda-me nas fezes

onde diz o verme seu mistério

e a semeadura esboça seu nascer;

quero saber, Enigma, por que cresces,

quero ser, em mim mesmo, o cemitério

onde Deus apodreça, quando eu morrer.

5

Música

Asa de luminosa esteira, na alvura  

livre das auroras iridescentes,  

salina, dilatada pelas costas ingentes  

das ondas que exaltaram a planura  

letárgica da água. Luz, criatura  

latente de aleluias; isso somos,  

livres sob a carne, em assomos  

de lirismo, de infinito, de altura.  

Lampejo na lua, o refletir da asa  

que levanta consigo epifanias  

em cânticos sem línguas e sem versos;  

límpida como cristal, a voz que exala  

louvores de seu hálito em melodias,  

sem soluços, sem perdas, sem laços.

6

Música II

Asa de luminosa esteira, na alvura  

livre das auroras iridescentes,  

salina, dilatada pelas costas ingentes  

que prolongam em jogo a planura.

Sem lirismo, em assomos de lisura

que abrem canção de domos e dólmens

e que em aromas os dias partem

onde sonha a grávida criatura.

Música!, e a medida vislumbrada

por trás dos dias e do espanto,

acima de Deus e do destino;

Canção livre e cantada, ó, aclamada

divindade de áureo manto! Puro canto!

de amaranto e marfim e luz e linho!

7

Jazz

É, incerta e sutil, por trás da tela

onde um fio de voz tece o motivo,

e não é, se no ouvido sensitivo

encontra sombra ímpar, e a luz não revela.

Pois está fora da escola e do molde

em um regozijar-se de nativo

— libertar de grilhões, som cativo —

que uma selva roubada o som pretende.

Bebe-me, ó noite negra dos cantos,

com tua boca de cobre e de alumínio,

e estilhaça-me em todos teus refrões;

Eu quero ser, contigo, um dos tantos,

entregue a uma música de mínio,

e à liturgia rouca das tuas assombrações.