7 poemas de Julio Cortázar em tradução de Roberson Guimarães
22 novembro 2025 às 21h00

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Por acaso nascido na Bélgica, o prosador, poeta, crítico e tradutor argentino Julio Cortázar (1914-1984 — viveu 69 anos) é visto, pelos críticos, sobretudo como um contista notável que escreveu um romance emblemático, “O Jogo da Amarelinha”.
Em “Borges Babilônico — Uma Enciclopédia” (Companhia das Letras, 571 páginas, organizado por Jorge Schwartz), os críticos Gastón Gallo e Marcela Croce assinalam sobre Cortázar: “O melhor de sua produção são os relatos breves”. Estranhamente, não há uma linha sobre o bardo que, entre outros, estudou a obra do poeta romântico inglês Keats.
Cortázar deixou a Argentina, rumo a Paris, em 1951. Pouco antes, anota César Aira, no “Diccionario de Autores Latinoamericanos” (Paidós, 703 páginas), Cortázar “publicou um volume de poesias (“Presencias”, 1938, sonetos mallarmeanos) que assinou com o pseudônimo ‘Julio Denis’, e um poema dramático, ‘Los Reyes’ (1949)”.

A crítica literária Bella Jozef, em “História da Literatura Hispano-Americana”, relata que, “em 1949”, Cortázar “publicou um poema dramático em prosa, ‘Los Reyes’, sobre o mito de Teseu e o Minotauro, tema que retomará mais tarde e que dá a chave de sua obra posterior”.
Bella Jozef conecta, portanto, a poesia de Cortázar à sua obra literária geral — a prosa dos contos e romances. O que César Aira não faz.
César Aira postula que os melhores contos de Cortázar constam do livro “Bestiário”, de 1951. O romance “O Jogo da Amarelinha”, de 1963, consagrou globalmente o escritor.
Os três livros citados, mesmo o de Bella Jozef, pouco mencionam Cortázar poeta, exceto como registro.
Entretanto, Cortázar escreveu poesia em larga escala, como mostra o livro “Poesía Completa” (824 páginas). Não há edição brasileira. A edição da Alfaguara, que circula na Argentina, custa 52.399 pesos — algo como 198,03 reais. Dado o valor elevado, as livrarias informam que parcelam em três vezes (17.466,33 pesos cada parcela). “Sin interés” (sem juros).

Na Librería Eterna Cadencia, em Buenos Aires, perguntei para o livreiro: “Apesar do preço e do volume alentado, o livro de poesia de Cortázar vende bem?” Ele não hesitou: “Muito bem. Cortázar tem um público na Argentina”. Na “Libros del Pasaje”, recolhi da livreira: “O que se vende mais é a prosa. Mas a poesia reunida sai bem. Há procura”. Na Librería Hernández, ouvi praticamente a mesma coisa: “Como Borges, Cortázar é um autor sempre procurado. O poeta nem tanto, mas a poesia reunida chamou a atenção dos leitores”.
O médico e crítico literário Roberson Guimarães, de Anápolis, decidiu incursionar pela tradução de parte da poesia de Cortázar. O Jornal Opção publica a seguir sete de suas versões.
As traduções de Roberson Guimarães capturam, com precisão milimétrica, o ritmo — a musicalidade — da poesia de Cortázar. Percebe-se, de cara, a perícia.
O Cortázar que nos chega por meio de Roberson Guimarães fala bem português sem deixar de hablar algo da estranheza do espanhol. A tradução de “Jazz”, poema meio enviesado, é luminosa.
A Companhia das Letras está repondo a obra de Cortázar em português. Já lançou: “Bestiário” (120 páginas, tradução de Heloisa Jahn), “Todos os Contos” (1144 páginas, tradução de Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista), “O Jogo da Amarelinha” (592 páginas, tradução Eric Nepomuceno) e “Os Prêmios” (384 páginas, tradução de Ernani Ssó). Então, deveria lançar a poesia, que é parte importante da obra, talvez menos lida.

Confira as 7 traduções feitas por Roberson Guimarães
1
Fantasma
I have been here before. But when or how I cannot tell — Rossetti
Treva mansa com óleo vivo,
mas não quero névoa nem sudário
frio do tempo, espera no santuário
mata e desata! enigma do cativo.
Sombra sem códigos, definitivo
balanço em nada, em seu ser vário,
transmigro sem acasos, funerário
avatar, não sonhar, perigo esquivo.
Fantasma de madeiras — em ruídos
sem aviso luminoso, no que recordo
de uma leitura, de espiar e ver-me —
passo com minha alvura, em alaridos
de cão louco, e toco, quando mordo
a sombra, meu castigo de saber-me.
2
Linha perdida
As esferas, sem rumo decidido
traçam, música sombria, longitudes
tingidas pelo sempre percorrido
panorama do nada, infinitudes
de espaço e de atenção. Ah!, foi perdida
a linha original das imperiais latitudes,
brotada pelo dedo estendido
empenhado em ordenar atitudes.
Perdeu-se, dor, e o redemoinho
se espalha na desarticulação contemporânea!
Olha e se afunda, solícito, o Destino,
mas há um descarte, na instantânea
rebelião das estrelas. Harmonias
rotas num grito de autonomias.
3
Versos para a lua
De tanto suportar nossas canções,
sacrificas rugas ao deus Cronos,
e usas gama pálida de tons
que coroa o luto nas inumações.
Lua, lua adormecida em teus telões,
como te entediam estes alvos bugios
com seus versos de semitons vazios
e com suas falsas improvisações!
Ribalta senil do paraíso,
urge encontrar o canto liso
que te diga sem ruído nossa pena
e que, após alcançar-te com seu acento,
eleve a carícia do lamento
ao espelho de tua face plena.
4
Oração
Para os dias baudelairianos
Desvenda-me o contorno que, velado,
espera por trás das luzes do diamante,
no sorriso ambíguo da minha amante
e no colapso do amor embriagado.
Dá-me, Viver, a febre do machucado,
que desata seus soluços em barbante,
para extrair um ritmo agonizante
e fazê-lo seminário do pulsado.
Quebra meus ossos e afunda-me nas fezes
onde diz o verme seu mistério
e a semeadura esboça seu nascer;
quero saber, Enigma, por que cresces,
quero ser, em mim mesmo, o cemitério
onde Deus apodreça, quando eu morrer.
5
Música
Asa de luminosa esteira, na alvura
livre das auroras iridescentes,
salina, dilatada pelas costas ingentes
das ondas que exaltaram a planura
letárgica da água. Luz, criatura
latente de aleluias; isso somos,
livres sob a carne, em assomos
de lirismo, de infinito, de altura.
Lampejo na lua, o refletir da asa
que levanta consigo epifanias
em cânticos sem línguas e sem versos;
límpida como cristal, a voz que exala
louvores de seu hálito em melodias,
sem soluços, sem perdas, sem laços.
6
Música II
Asa de luminosa esteira, na alvura
livre das auroras iridescentes,
salina, dilatada pelas costas ingentes
que prolongam em jogo a planura.
Sem lirismo, em assomos de lisura
que abrem canção de domos e dólmens
e que em aromas os dias partem
onde sonha a grávida criatura.
Música!, e a medida vislumbrada
por trás dos dias e do espanto,
acima de Deus e do destino;
Canção livre e cantada, ó, aclamada
divindade de áureo manto! Puro canto!
de amaranto e marfim e luz e linho!
7
Jazz
É, incerta e sutil, por trás da tela
onde um fio de voz tece o motivo,
e não é, se no ouvido sensitivo
encontra sombra ímpar, e a luz não revela.
Pois está fora da escola e do molde
em um regozijar-se de nativo
— libertar de grilhões, som cativo —
que uma selva roubada o som pretende.
Bebe-me, ó noite negra dos cantos,
com tua boca de cobre e de alumínio,
e estilhaça-me em todos teus refrões;
Eu quero ser, contigo, um dos tantos,
entregue a uma música de mínio,
e à liturgia rouca das tuas assombrações.
