3 poemas de Vladimir Nabokov traduzidos por Astier Basílio
11 abril 2026 às 21h00

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Vladimir Nabokov começou sua carreira como poeta
Astier Basílio
De Moscou

Apesar de ser mais conhecido como prosador (e autor de vários ensaios sobre Púchkin, Gógol, Tolstói, Turguêniev), sobretudo por seu romance “Lolita”, Vladimir Nabokov (1899-1977) começou sua carreira como poeta. Lançou dois livros na Rússia: um em 1916 e outro em 1918.
Em 1922, Nabokov emigrou para Berlim. Lá adotou o pseudônimo Vladimir Sirin e é com este nome que publica sua segunda coletânea de poemas, em 1923. Ao todo, lançou em vida nove livros de poemas. E traduziu Púchkin.
Além das nossas, a revista “Poesia Sempre”, de 1999, publicou uma tradução feita por Zoia Prestes.
1
Fuzilamento
Há noites que: mal durmo e a cama
Navega à Rússia pelo mar.
Sou posto sobre um chão sem grama
E neste chão vão me matar.
É escuro, acordo, e na estante:
Relógio, fósforo ao léu
Como espingarda penetrante
Ardem-me as luzes do painel.
Protejo o tórax e o pescoço,
— Pro tiro vão dar o comando! —
Tirar os meus olhos não ouso
Do fogo em círculos piscando.
Do consciente entorpecido
O tique-taque me segura
E da diáspora, seu tecido,
De novo eu sinto a cobertura.
No peito havia o sentimento
Que fosse assim: a Rússia inteira,
Céu, noite de fuzilamento;
No chão sem grama, cerejeiras.
[1925]
2
Quando num bairro à beira-mar
na noite úmida, entediado,
vais à janela e um sussurrar
ao longe soa derramado.
Ouça e distinga a onda em açoite
seu som que ofega em terra enxuta
a proteger dentro da noite
a alma absorta que o escuta
Som indistinto em mar contínuo
até que outro dia se esgueira
soa qual copo cristalino
e vazio lá da prateleira
De novo a insônia em teus lençóis,
tua janela abres ao fundo
e estás perante o mar a sós
na paz imensa deste mundo.
Não é o som do mar quem bate,
outro zumbido eu esmiuço,
é o leve som da minha pátria
seu respirar e o seu pulso.
Ali está o tom das vozes
que muito cedo foi embora:
versar de Púchkin que se glose,
murmúrio em bosques da memória.
Há nele refrigério e bênção
por dentro desse exílio bom…
Mas é que a pressa diária imprensa
toda a leveza desse som.
Porém à noite, no silêncio,
capta esse som que o mar invade,
da pátria, com rumor intenso,
com imortal profundidade.
[6 de julho de 1926]
3
Passagem
Numa fábrica da Alemanha agora
deixa que eu fale, musa, sem ter pressa!
Numa fábrica da Alemanha agora
em minha honra tudo já começa.
Uma máquina diz: “eu dou dentadas
e arrumo esse mingau de papel torto;
já passo adiante a próxima camada”.
Uma outra diz: “eu ponho cor e corto”.
Já tendo achado o ritmo que se dosa,
a criação, que faz-se em aço, imprime
com muitos braços nestas folhas róseas
um nome de estação inverossímil.
Na firma alguém como quem não se importe
essas pétalas dispõem pelas gavetas,
onde há fotos de palmas, mar do norte,
e olhos arregalados de corvetas.
Após anos, sem se importar, se arrasta
o mesmo balconista devagar
a preciosa gaveta vai puxar
me dando uma passagem para a pátria.
[1927]
A polêmica entre Edmund Wilson e o tradutor Nabokov

