O lirismo de Mário Quintana
14 janeiro 2026 às 11h24

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Maria de Fátima Gonçalves Lima
Mário Quintana é um poeta que se recusa a ser enquadrado em qualquer escola literária e orgulha-se de não ter “frequentado” nenhuma. (Cf. PEIXOTO, S. A. (1994) p. 31). Sua obra não segue nenhum modismo específico, mas percorre os caminhos da mais pura poesia lírica moderna.
A poesia de Quintana tem correspondências com o Pré-Simbolismo de Charles Baudelaire (1821 -1867), primeiro poeta moderno a sistematizar o poema como relações entre sons, ritmos e imagens. Esse francês foi o primeiro a reconhecer a nova cidade e o homem nas multidões quando escreveu sobre “O pintor da vida moderna”, texto que incorpora a seus conceitos estéticos os dados dos novos tempos das metrópoles, abandonando o interesse pelo belo absoluto.
Baudelaire iniciou O pintor da vida moderna elogiando quadros e textos antigos, vinculados à história da arte e literatura, embora afirmando que seria um erro negligenciar “a beleza particular, a beleza de circunstâncias e a pintura de costumes” (BAUDELAIRE, Charles, 2006, p. 851). Para justificar sua ideia, ele afirmou que “o passado é interessante não somente pela beleza que dele souberam extrair os artistas para os quais ele era o presente, mas igualmente como passado, por seu valor histórico” e que “o mesmo ocorre com o presente.” (idem).
Escrito a partir de 1863, O pintor da vida moderna (ensaio sobre o desenhista, aquarelista e gravador Constantin Guys de Sainte-Hélène (foi publicado originalmente no Fígaro (26 e 29 de novembro e 3 de dezembro de 1863. (Cf. Op. cit. BAUDELAIRE, Charles, 2006, p. 1090). Assim, construído em três fases, no primeira em Le Figaro, mais tarde, integrariam a coletânea de escritos de Baudelaire, editado em l868, sob o título de L’Art Romantique.
A noção de modernidade, para o poeta e teórico, estaria associada à missão contemporânea da arte e estabelece uma nova ideia de modernidade, a tentativa de teorização da arte inspirou diversos comentários posteriores. Na miscelânea de sua arte poética com a projeção teórico-científica característica do ensaio, Baudelaire constrói uma imagem do pintor da vida moderna, mostra espaços nos quais atividades e fatos aparentemente corriqueiros como a moda, as viaturas, a mulher e outros se transformam em objetos da arte atemporal.
Em síntese, O pintor da vida moderna, de Baudelaire, apresenta, poeticamente, uma visão sobre o objeto da arte, sua possível técnica e suas condições de produção; a arte para seria uma constante busca do novo em todas as esferas da vida econômica, política, social, cultural, descobrindo-a ou inventando-a, à forma dos materiais da modernidade daquele contexto ou de outros quaisquer e em vários momentos estão presentes a busca eterna pelo fugitivo, pelo original em vários momentos. À modernidade associa-se sempre o ousado, o inovador, o original, aquilo que dá o tom de transformação de um conceito anterior.
Assim, o poeta fixa o irrepetível da vida que, sequestrado num determinado momento e ponto, transforma-se em elemento singular, intemporal e teoria a obra de arte com forma e conteúdo, enquanto a primeira representa o corpo, o segundo remete à alma da obra, à qual se relaciona a questão do intemporal, definindo, assim, a modernidade ao mesmo tempo em que produz uma obra de arte.
De acordo com Friedrich, Baudelaire “reúne o gênio poético e a inteligência crítica. Suas ideias acerca do procedimento da arte estão no mesmo nível do seu próprio poetar e são, em muitos casos, até mesmo mais avançadas, como ocorreu também com Novalis”. (Friedrich H. (1978) p. 36).
Diante do exposto, Baudelaire preconiza o impressionismo e afirma que a modernidade está também na possibilidade de transformar em poético tudo aquilo de artificial, grotesco e feio que a grande cidade pode oferecer ao artista: o caminho para uma estética do feio. Este poeta, ao lado de Edgar Allan Poe (1809 – 1949), o criador de O Corvo,defendem que a poesia se associa à inteligência crítica.
Os herdeiros de Baudelaire e Poe são os poetas mágicos – inspirados e os lógicos-construtores do Simbolismo: Verlaine, Rimbaud e Mallarmé, para ficar apenas com os franceses. Desses três, Stéphane Mallarmé (1842-1898) foi o ponto máximo dessa caminhada contra uma sociedade que tudo automatiza. Por isso o poeta precisa buscar suas armas dentro da própria linguagem da poesia (Idem Friedrich H. (1978) p. 95), mesmo sabendo que nada é definitivo.
Mário Quintana trilhou nos caminhos poéticos de Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Verlaine, Verhaeren, Rollinart e Antônio Nobre. Deste último, a influência foi notória e explícita quando escreveu alguns sonetos em homenagem ao poeta português. Entre eles, o soneto XI “Para Antônio Nobre”: “Contigo fiz, ainda em menininho, / Todo o meu Curso d”Alma…E desde cedo/ Aprendi a sofrer devagarinho, / A guardar meu amor como um segredo…” (Op. cit. QUINTANA, M. Poesia Completa, 2005, p.95)
O sujeito lírico moderno
Ao contrário do poeta que ainda acredita na poesia como expressão do “eu”, o poeta moderno sabe perfeitamente que qualquer recorte do mundo será apenas linguagem e não lhe é possível mais do que isto: o poeta moderno se vê projetado no mundo exterior sabendo que desse mundo só poderá fazer apenas uma tradução parcial.
Na poesia moderna, o sujeito explicitado como “eu” não se refere a uma pessoa particular. A poesia não alimenta nenhuma ilusão de ser um armazém de emoções reais. Existe uma distinção entre o poeta do texto e o poeta real, isto é, entre aquele que fala no poema e o homem comum que escreve o poema. Aquele que fala no poema é o eu poético, que é a presença do poeta no texto, enquanto sentimento que se revela.
A poesia de Mário Quintana segue os preceitos modernistas. Nem sempre o “eu” poético coincide com o profissional da palavra que produz o texto; é como se fossem personalidades diferentes. Quando afirmamos que o “eu” poético está triste, é porque a tristeza é evidente ao nível do texto e não podemos afirmar que o poeta escreveu o poema quando estava triste. Um exemplo desse procedimento é poema “Da Primeira Vez em Que Me Assassinaram” (MQb p. 19):
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram.
Foram levando qualquer coisa minha…
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como único bem que me ficou!
……………………………….
(MQb p. 19)
Verifique que o assassinato do poeta não é real, é apenas simbólico, pois o “eu” lírico afirma ter sido assassinado várias vezes. Cada assassinato para o “eu” poético significa uma perda para o poeta.
O “eu” lírico é composto de muitos cadáveres. Esta comparação com cadáveres é significante, pois revela que o “eu” emotivo está sentindo-se roubado, empobrecido e morto – um defunto.
O “eu” poético revela um sentimento de desencanto, simbolizado pelo clima de morte e da vela amarelada. A vela acesa é segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant é “símbolo da individuação ao cabo da vida cósmica elementar que nela se vem concentrar. É na lembrança da acolhedora vela simples que devemos reencontrar nossos devaneios de solitários, escreve Bachelard. A chama é só, naturalmente só, e deseja permanecer solitária. […] As velas que ardem ao pé de um defunto – os círios acesos – simbolizam a luz da alma em sua força ascensional, a pureza da chama espiritual que sobe para o céu, a perenidade da vida pessoal que chega ao zênite”. (Op. Cit. Chevalier, J. e Gheerbrant, A. (1990) p. 934).
A vela amarelada no poema simboliza a chama espiritual que queima agoniada, desesperada, em busca da paz de espírito do além-túmulo, último bem que me ficou.A vida terrena foi manifestada por perdas, desencantos e perseguições.
Apesar desse clima sombrio, o poeta transmite uma força interior, não se curva diante dos inimigos, como se vê nos tercetos:
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste com um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
(MQb p. 19)
Este poema explora uma temática existencialista. Fala da morte, da essência interior do ser, de sua desumanização, e de sua niilização. Deixa evidente ainda, o poder que a poesia tem de vencer todas as barreiras, todas as pedras que atrapalham a humanização do homem.
A imagem poética
O poeta vê o invisível. Percebe e cria relações entre as coisas que vê, imagina, sente e pensa. Ele cria analogias, que são os pontos de semelhança entre coisas diferentes. Desta forma, o poeta é um criador de metáforas, de contrastes e comparações. Através das imagens metafóricas o poeta diz o indizível e pensa o impensável, atribuindo, desta forma, novos sentidos à realidade, criando novas ideias e novos mundos. O poeta é antes de tudo um criador de mundos.
Poesia é construída com palavras polissêmicas e procedimentos metafóricos, imagens. Muitas vezes a imagem relaciona-se à percepção sensorial. Quando diferentes órgãos dos sentidos são evocados, são misturados, temos um efeito denominado sinestesia. Perceba a sinestesia no poema “Presença” (MQb p.57):
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas, ‘
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frémito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!
(MQb p.57)
No soneto acima o “eu” lírico exprime a sinestesia da presença, personifica a saudade e atribui-lhe as sensações de vários órgãos dos sentidos, como o tato e olfato (a saudade desenhe tuas linhas perfeitas, ‘/teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento /das horas ponha um frémito em teus cabelos…). O “eu” poético cria imagens sinestésicas para expressar a presença do ser querido: (Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela /e respirar-te, azul e luminosa, no ar./ É preciso a saudade para eu te sentir /como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida… .).
Sob o campo imagético da poesia desse vate gaúcho, se esconde uma teia de infinitas raízes, uma tecelagem semântica, vários procedimentos estilísticos como: alusões, elipses, sutilezas verbais, soluções rítmicas e infinitas sugestões. Sua poesia, de aparente simplicidade formal, esconde uma riqueza de diamante. Carlos Drummond de Andrade traduziu da seguinte forma a lírica de Quintana, em um artigo de jornal é uma tradução para o simples, de muitos mistérios. Drummond escreveu ainda que:
A simplicidade de meios, a cantante sequência de versos que, mesmo se esquivando ao metro fico, estão sempre banhados numa atmosfera de música subordinada, o poder de extrair de um incidente mínimo de vida a centelha de poesia que ilumina uma extensão ilimitada, eis alguns dos segredos do bolso de Mário Quintana. Porque o segredo grande, este não se revela. O segredo deve ser o poeta que ele é, e não outro, sem embargo das influências que agiram em sua formação e das afinidades que o ligam a uma família de espíritos; a organização especial, o jeito quintanar e único, a arte de aprofundar sua experiência convertendo sua poesia num bem geral de tantos que nunca o viram e que, entretanto, o amam à fé destes versos. Pois esta é uma poesia que, “na sua ardente solidão”, provoca imediata empatia, e se faz objeto de amor. Correio da Manhã, 31/07/66.
O artista é um inventor de quadros, de cenas e de palavras. Cria o inusitado. Alguns poemas de Quintana revelam um realismo mágico ou fantástico, visões oníricas, o que leva a crítica a enquadrá-lo dentro do Surrealismo. O poema “O Dia”, do livro O Aprendiz de feiticeiro – 1930- exemplifica esse aparente Surrealismo:
O dia de lábios escorrendo luz
O dia está na metade da laranja
O dia sentado nu
Nem sente os pesados besouros
Nem repara que espécie de ser… ou deus…
ou animal é esse que passa no frêmito da hora
Espiando o brotar dos seios.
(MQb p.195)
Este inventor de imagens, por meio de palavras ricas em significados, expõe a ideia de um dia repleto de luz, em pleno zênite do meio-dia, na hora aberta. O dia, apresentado nos versos, está desnudo, nem sente os pesados besouros, os dissabores da vida. É um dia pleno, intocável e inesquecível.
As imagens surrealistas na obra de Quintana não possuem o automatismo psíquico puro, fórmula pela qual André Breton dá início à sua definição de Surrealismo. A poesia deste poeta não possui a recusa sistemática ao Belo e à Arte e nem busca a simples manifestação do inconsciente e do sonho através de algo disforme e gratuito.
Por outro lado, Quintana não nega a importância do Surrealismo em sua formação de poeta. Assim como não esconde que o Surrealismo, junto com o Simbolismo, constitui em confluências poéticas:
Eu me criei lendo os poetas simbolistas, depois fui libertado pelos poetas surrealistas da excessiva musicalidade à forma pela forma. E assim o poeta vai-se fazendo. Quanto às influências, não há influência propriamente. Há confluência. A gente só gosta de quem se parece com a gente. (In. CARVALHO, 1977, p. 5)
No entanto, Mário Quintana foi influenciado deveras pelo poder das imagens poéticas que existem na verdadeira poesia. O texto poético é imagético por natureza, deve possuir uma intensa magia e dizer o indizível.
Deve ser ressaltado ainda, que as imagens constantes na obra de Quintana aparecem em primeiro plano, aquelas provenientes do mundo urbano procedentes da rua, do movimento, das pessoas, dos objetos, dos animais e dos vegetais que povoam a realidade. A poesia de Quintana é predominantemente visual e óptica. No entanto, o poeta-pintor não expressa apenas o exterior, ao contrário, as imagens observadas pelo eu lírico são símbolos da condição interior do poeta. No soneto abaixo Quintana expõe sua poesia pictórica:
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem.,
Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!
(MQb. p. 7)
Neste poema o eu emotivo exprime sua capacidade de desenhar com palavras, ao mesmo tempo transmite a atmosfera da paisagem. Ao descrever a cena, o pintor – poeta converte o objeto da pintura em uma invenção da natureza. Desta maneira, faz uma transmutação da sua interioridade, pois a cena é uma representação do universo inventivo do poeta que retrata a natureza, tão poeticamente, que a realidade pode ser transformada em uma pintura sonhada. Ao traduzir de forma poética e pictórica a realidade, o eu lírico confunde o real com o onírico, ao mesmo tempo que realiza uma alquimia verbal. O mesmo procedimento pode ser encontrado no poema “Magias” (MQb p. 134):
Os antigos retratos de parede
não conseguem ficar longo tempo abstratos
Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
porque eles nunca se desumanizam de todo.
Jamais te voltes para trás de repente.
Não, não olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…
Sem fim e sem sentido…
Dessas que a gente inventava para enganar a
solidão dos caminhos sem lua.
(MQb p. 134)
Os sonhos, produtos da divagação do poeta que compõem o mundo ideal, humanizam e imortalizam as coisas, como acontece neste poema. Aqui os retratos são vivificados e parecem observar atentamente o mundo que está à sua volta.
Os retratos, na ilusão do poeta, dão a impressão de quererem flagrar os homens na sua incredulidade do impalpável, de outras vidas, de outros mundos, dos seus próprios devaneios. Por esse motivo o poeta dá conselho para que “Jamais te voltes para trás de repente / Não, não olhes agora”.
A poética de Mário Quintana valoriza o devaneio, o sonhar acordado e rejeita os valores materiais. O poema em análise afirma que: “O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim… / Sem fim e sem sentido… / Dessas que a gente inventava para enganar a / solidão dos caminhos sem lua”.
A valorização da imaginação sem limite, em Mário Quintana, justifica a preferência do poeta gaúcho pelo mundo infantil no qual domina a inocência, o sonho, a liberdade e o avesso. “A Canção da primavera” (Primavera cruza o rio/ Cruza o sonho que tu sonhas. / Na cidade adormecida. (MQb p.24) e, o soneto IV, (Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças, / É lá que eu canto, numa eterna ronda, / Nosso comuns desejos e esperanças. (MQb p.10) exemplificam esse reverso da lógica.
Observa-se, ainda, em Quintana o desejo de regressar a condição pueril que brinca, que corre, que grita, que pula, que extrapola as leis lógicas dos adultos. A criança dança, canta, sonha, fala sem medo de expressar o próprio ser. Os meninozinhos e as meninazinhas vivem um mundo onírico que foge da razão do material. Daí a preferência de Mário Quintana pela natureza, enquanto esta pode ser a projeção do eu sonhador do poeta. Por isso, as imagens de nuvens, de animais, de lua, de manhãs, de noites, de tardes, de dias, de sol, de estrelas, de estrelinhas, de céu, de cores, do azul, do verde, de anjos, de arcanjos, de ventos, de sonos, de verão, de primavera, de outono, de pássaros, de abelhas, de animaizinhos, de sapos, de grilos, de lobos, de salamandras mágicas, de vacas, de cavalos de circo, de touros, de cachorros, de flores, de rosas, do ar, de árvores, de florestas, da luz, da aurora, de voos altos, de asas, do mar, da água, de rios, da grama, de campos verdes, de gotas pequeninas do orvalho, de filmes coloridos, de horizontes, de arcos da manhã, de pintores, de frutas, de laranjas, de cristais, de ouro, de alturas, de silêncios, de invernos, de ocasos, de Deus, do tempo, da eternidade da vida, do encanto, da magia, do espelho, da hora, da morte, da vida e do mundo:
Queridas unhinhas róseas…
bocas de úmida, fresca avidez,
de onde todas as notas, loucas,
querem fugir de uma só vez…
Olhinhos de água tão pura
que nada há que os espante…
Sensível narina aflante…
Inquieta mão que procura…
Indeciso quadril, mas já
com aquele femíneo encanto…
Sobrancelhínhas: um veludo…
Orelhas, dedinhos… Ah,
nem queiras saber tudo quanto
elas prometem à vida…
(MQb p. 99)
Este poema, denominado “As meninazinhas” exemplifica a preferência de Quintana afetividade, oriunda da presença de diminutivos, de adjetivos afetivos. O poema acima apresenta uma linguagem carinhosa, (Queridas unhinhas … Olhinhos …. Sobrancelhínhas…. dedinhos…) de um adulto falando a uma criança, assim como o poeta se dirige ao mundo que descreve.
Nessa medida, fica circunscrita a imagem poética de Mário Quintana sempre no âmbito de duas realidades: uma vida sonhada e uma vivida. Na realidade o eu lírico valoriza mais o devaneio, o sonho, a idealização do que não mais existe, porque não pode ser restaurado (como o passado e a infância), o que desencadeia o desconforto do poeta com o momento atual, que se apresenta triste, melancólico, desencantado, uma vela amarelada. Por esse motivo o artista poetiza o mundo empregando imagens poéticas do universo infantil ou filosofa sobre o ser e a importância do poema, da poesia, e do poeta para este mundo tão cheio de verdades e certezas. É o que filosofa “O Poema” (MQPc.p. 393):
O poema é uma pedra no abismo
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta.
(QUINTANA, M. Poesia completa, 2005. p. 393)
O eu emotivo leva o sujeito a verificar o barulho que faz o poema no abismo da desumanização; faz o homem refletir sobre sua condição e sobre a linguagem poética. O artista da palavra é o agente responsável por esse despertar, por esse barulho produzido pelo poema e que pode ser perigoso para os homens que não querem aceitar as verdades doloridas de sua condição de desumano e de sujeito de um mundo caótico.
O poeta é aquele que obriga o indivíduo a ouvir a música da vida e pensar sobre sua existência. As figuras reveladas por meio do poético descrevem a imagem do homem e o conduz ao encontro da sua humanidade perdida no silêncio das palavras e que, só a poesia tem a magia e o poder de organizar o caos, nomear os seres, preencher o mundo com sons, música, lirismo, devaneio, vida, cores, céu, estrelas, manhãs, tardes, noites e dias seguintes. A poesia é a salvação da humanidade, o homem precisa de poesia para humanizar-se, para ser e criar um mundo cada vez melhor e mágico, um mundo de imagens poéticas cheias de eternidade e certeza de um amanhã melhor.
Metalinguagem e poesia
Uma das preocupações dos poetas de todos os tempos têm sido a de tentar definir a poesia. Dessa forma, seus textos tematizam o próprio fazer poético. A esse fenômeno dá-se o nome de metalinguagem.
Metalinguagem é a utilização da linguagem para tratar da própria linguagem. É a reflexão da obra de arte sobre a obra de arte.
A arte da palavra de Mário Quintana sempre trilhou os caminhos da essência da poesia. Esse poeta principiou sua carreira literária com A Rua dos Cataventos (1940), obra composta de 35 sonetos impregnados de renovações métricas, rítmicas e formais. A linguagem modernizada, com acentos coloquiais e populares, demonstrava influências do Simbolismo na sutileza dos símbolos e dos ritmos. Neste livro, a metalinguagem aparece tímida, mas já faz da linguagem objeto do poema.
Em Canções(1946), a consciência metalinguística começa concentrar-se na palavra, melhor dizendo, começa a abstratizar a palavra na direção do puro nome. Do Mário Quintana pintor que nomeava o mundo através de descrições coloridas, surge em Canções o Mário Quintana poeta preocupado com a substância da linguagem, filosofando sobre a essência da poesia e fazendo experiências linguísticas e poéticas.
Nas Canções, Quintana aparece mais solto, mais liberto das formas tradicionais, mais criativo, mais engajado aos experimentalismos da poética vanguardista: Impressionismo, Surrealismo, Cubismo. Seu Modernismo ficava evidente nos versos brancos, nos versos livres, na sintaxe rebelde, na rima toante, na expressão do absurdo, na mistura do lógico com o racional, nas imagens surrealistas, na mistura do erudito com o popular e do grave com o cômico, na simplicidade da linguagem.
O título Canções é justificado pela preferência da redondilha maior e pelo lirismo musical que popularizam os poemas encantam a todos: “Canção da primavera”(p.24), “Canção de Domingo”( MQb p. 31), “Canção de um Dia de Vento”(MQb p. 25), “Canção de outono”(MQb p. 26 ), “Canção do suicida” (MQb p. 27), Pequena crônica policial (MQb p. 28), “Canção de barco e de olvido ” (MQb p. 29), Porém nem todas as canções são escritas em redondilhas, muitas são trabalhadas em versos livres ou métrica irregular, porém todas possuem muito ritmo e musicalidade.
A métrica, as rimas, alternância de sílabas fortes e fracas (cadência), os jogos de som, a extensão dos versos, a presença de assonância (repetição de sons vocálicos), aliteração (repetição de sons consonantais) e onomatopeia (1 Gram. Vocábulo cuja pronúncia lembra o som da coisa ou a voz do animal que designa. 2 Frase constituída para causar efeito fonético imitativo) (Op. Cit. Michaelis (1998) p. 262) são os elementos que formam a expressão sonora de um poema. Descobrindo esses elementos o leitor identifica o ritmo do texto.
O ritmo é uma espécie de desenho que o texto poético faz para o leitor. Acompanhe o ritmo “Canção de um Dia de Vento” (MQb p. 25):
O vento vinha ventando
Pelas cortinas de tule.
As mãos da menina morta
Estão varadas de luz.
No colo, juntos, refulgem
Coração, âncora e cruz.
(MQB p. 25)
Observe que na primeira estrofe temos a imagem sobro do vento nas cortinas de tule. Esta imagem é alcançada através das aliterações (repetição do v) e também pela duplicação do verso O vento vinha ventando.
O Aprendiz de Feiticeiro (1950) possui uma intensa inquietação metalinguística. Este livro oferece as diretrizes de uma Poética e de uma Retórica particulares. Nesta obra o poeta deixa aflorar claramente a preocupação com a parte teórica da poesia e com a prática do discurso. Aqui encontramos o poeta dominando a sua expressão mágica, não é mais um simples aprendiz. Nesta obra o autor já é um mestre da feitiçaria verbal. Nessa seleção Mário Quintana de Bolso obra podemos encontrar poemas que revelam a feitiçaria e a alquimia poética de Quintana como por exemplo: O poema (MQb 30), O poema do amigo (MQb 31), Obsessão do Mar Oceano (MQb 32). Ao longo das janelas mortas (MQb 33), No silêncio terrível (MQb 34).
EmEspelho Mágico (1951), Mário Quintana expõe com maestria conselhos sobre estilo, sobre a preocupação de escrever sobre o cuidado com as formas, sobre as belas frases, sobre análise, livros, sistemas, ideias, sátira etc. No meio desses elementos retóricos há concepções poéticas retoricamente planejadas, como quarteto sobre o belo, sobre o prazer, sobre a arte e sobre a própria obra (Cf. PEIXOTO, S. A. (1994) p. 40). O próprio poeta não considerou os textos deste livro como poemas. Veja o que diz Quintana “I. Da observação” e “VI Do cuidado da forma”:
Não te irrites, po r mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio…
(MQb p.35)
Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule…
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule!
(MQb p.35)
Examine o que pensa o poeta “V Das Belas Frases”, (MQb p.35) “III Do Estilo” (MQb p. 35) “CVII Da Condição Humana” (MQb p.42) e “CXI Da própria obra” ( MQb p.42):
Frases felizes… Frases encantadas…
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas…
Como há pacóvios bem-vestidos.
(MQb p.35)
Fere de leve a frase… E esquece… Nada
Convém que se repita…
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.
(MQb p.35)
Se variam na casca, idêntico é o miolo,
Julguem-se embora de diversa trama:
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama.
(MQb p.42)
Exalça o Remendão seu trabalho de esteta…
Mestre Alfaiate gaba o seu corte ao freguês…
Por que motivo só não pode o Poeta
Elogiar o que fez?
(MQb p.42)
Na última estrofe está objetivado o humor irônico de Mário Quintana. Os quartetos anteriores evidenciam as experiências literárias e lições de vida, arte e artimanhas do poeta.
As quatro quadras apresentadas acima são exemplos de um conjunto de 111 quartetos, numerados em algarismos romanos, que integram o livro Espelho Mágico, nos quais à filosofia da arte e da vida se mesclam notas de humor e ceticismo. Para Quintana os textos deste livro são máximas ou sentenças na forma de quadras. Nesta seleção Mário Quintana de Bolso – encontramos, além dos quartetos apresentados acima, as estrofes que falam “VIII Dos mundos” (MQb p. 36), “XI Das corcundas” (Idem p. 36), “XII Das utopias” (Idem p. 36), “XLIV Dos Livos” (Idem p. 36), “ XLV Da saberoria dos livros”(Idem p. 37),”XIX Dos milagres” (Idem p. 36), “XXI Das ilusões” (Idem p. 37), “XXIII Dos nossos males” (Idem p. 37), “XXXV Da eterna procura” (Idem p. 37), “XXXIX Do pranto” (Idem p. 37), “XL Do sabor das coisas” (Idem p. 38), “XLVI Dos sistemas” (Idem p. 38), “XLVII Do exercício da filosofia” (Idem p. 38), “XLVIII Das ideias” (Idem p. 38), “ L Da amizade entre as mulheres” (Idem p. 39), “XVIII Da felicidade” (Idem p. 39), “LXXIII Da realidade” (Idem p. 39), “LXXIV Do amoroso esquecimento” (Idem p. 39), “LXXVI Da discrição” (Idem p. 40), “ LXXVIII Da preguiça” (Idem p. 40), “LXXX Do ovo de Colombo” (Idem p. 40), “LXXXIII Do mal da velhice” (Idem p. 40), “LXXXIV Da moderação” (Idem p. 41), “XCVIII Da calúnia” (Idem p. 41), XCVII Da experiência (Idem p. 41) e “CIII De como perdoar aos inimigos” (Idem 41).
O poema e a poesia
Poema é uma composição em verso caracterizada por uma forma artística superior, o uso do ritmo e o emprego de linguagem elevada para exprimir uma interpretação imaginativa de uma situação ou de uma ideia. Poema é o lado físico da poesia e a poesia é alma do poema.
Mário Quintana afirma, em “O poema”, inserido em O Aprendiz de feiticeiro, que:
Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
(MQb p. 30)
O poema é uma revelação de uma realidade interior que atravessa abstratamente a realidade perceptível através dos sentidos, é a materialização do desejo de um porto sonhador a traduzir angústia do poeta à procura do seu próprio ser no mundo. A poesia é a essência do verso. O poema, composto por versos metódicos, não tem alma, é uma coisa triste, solitária, vazia. A poesia é ser do poema, é alegria, imaginação, criação, e imortalidade dos versos.
Para Quintana, a poesia é produto da alma humana, é reflexo dessa alma. Ela não é simplesmente uma maneira de escrever, é uma maneira de ser (FONSECA (1977) p. 6). Portanto, a poesia é uma maneira de ver e de sentir o mundo.
Embora não sendo uma simples maneira de escrever, é através da linguagem que o interior do poeta vai realmente se desvelar. De acordo com o conceito heideggeriano A linguagem é a morada do ser. (in. NUNES, B. (1986) p.275). Quintana afirma também, sem querer ser filosófico, que a poesia se confunde com alma do poeta, ela faz parte de seu ser.Desta forma, a maneira de escrever será a expressão do ser do poeta.
No seu livro Caderno H, Quintana escreve:
Falam em decadência da arte de escrever. Mas isso que por aí se vê, essa imprecisão, essa desconexão, é tudo um símbolo gráfico do espírito do autor. Não me venham, porém, dizer que ele não tem estilo. Tem-no e muito seu. O estilo continua sendo o homem. O que existe é crise de pensamento (QUINTANA, M. Poesia completa, 2005. p. 340)
É difícil definir poesia, porque a poesia está no homem. Para expressá-la exige a ruptura de barreiras que há em nós mesmos, é preciso extirpar o nosso impulso natural de buscar as coisas fáceis, sobretudo nos domínios da expressão através da língua. Sérgio Alves Peixoto, escrevendo sobre a poesia de Mário Quintana, diz que:
O ser humano é múltiplo, virtual, inacabado. Busca-se a cada instante sem nunca se encontrar. Configurando sua poesia como “uma maneira de ser”, Quintana a identifica ao homem, ao criador. Por isso, todas as vezes que procura dela falar, que a procura conceituar, não faz nos termos da crítica que tanto condena. Não a reduz, não a classifica, não a rotula. Pelo contrário, fala dela poeticamente, através de imagens sugestivas que aumentam a carga misteriosa de encantamento. Esse seu vício triste / Desperdiçado e solitário / Que [faz] tudo pode abafar essa misteriosa e envolvente quinta estação em que viveram, entre outros, Cecília Meireles, e que, talvez, possa ser um dia também habitada pelo poeta e pelo leitor não admite uma classificação redutora. (PEIXOTO, S. A. (1994) p. 40).
A poesia não é para ser definida, é para ser sentida, vivida. Ela se confunde com o próprio homem e com a vida; portanto, está em toda parte, guarda em si todo um mistério. Sendo, como o próprio poeta diz, um estado d’alma, deve ser traduzida como profunda, misteriosa, verdadeira e humana, demasiadamente humana.
A poesia e sua essência
Sérgio Alves Peixoto expõe o seguinte sobre essência da poesia de Quintana: “Se procurássemos resumir em um único vocábulo o que é, para Mário Quintana, a essência da poesia, esse vocábulo seria imaginação. Para Quintana, poesia e imaginação se confundem; são, na realidade, uma mesma coisa”.(PEIXOTO, S. A. (1994) p. 15).
Imaginação é exclusividade da criatura humana, porém alguns homens usam mais intensamente esta capacidade. O poeta é guiado pela imaginação e criatividade. Gaston Bachelard assevera que essa faculdade aproxima o poeta da criança. Ambos são imaginativos, inventam verdades e criam mundos mágicos.
Sobre a imaginação humana Jean-Paul Sartre filosofa da seguinte maneira:
O ato de imaginação […] é um ato mágico. É um encantamento destinado a fazer aparecer o objeto em que se pensa, a coisa que se deseja, de modo que possamos dela tomar posse. Há neste ato, sempre, qualquer coisa de imperioso e de infantil, uma recusa em aceitar a distância, as dificuldades.
Assim, o garotinho de seu leito age sobre o mundo através de ordens e preces. A essas ordens da consciência, os objetos obedecem: eles aparecem (Sartre, J. P. 1996. p. 236- 239).
O filósofo e o poeta têm aparentemente o mesmo conceito sobre a imaginação, ato mágico de encantamento. Porém, Quintana tem uma forma particular de conceituar sua imaginação: é a memória que enlouqueceu (QUINTANA, M. Poesia completa, (2005) p. 340).
Memória, porque o poeta só pode, na realidade a ela recorrer; louca, porque, proposital e teatralmente, perde a noção das coisas e recria inventivamente fatos e acontecimentos.
A poesia superpõe duas realidades: uma sonhada e uma vivida. O eu lírico não procura provar nada, inventa sua verdade. Para este artista vivemos o verdadeiro real quando o vivenciamos pela imaginação. Apenas os nossos cinco sentidos não são capazes de captar todas as verdades de cada coisa. A ausência revela mais do que a presença, pois permite ao poeta imaginar e imaginar-se. Sentir a presença de algo ou de alguém, pensá-lo presente, imaginá-lo frente a nós mesmos torna-o mais real, mais verdadeiro.
A poesia não é apenas a verdade, é muito mais: é a invenção da verdade. Imaginar é transformar, recriar, inventar mundos novos, mitologias novas. Todavia, esse mundo de sonho, de encantamento não foge do real. A poesia não pode ser dissociada do real, pelo contrário, deve conscientizar o homem e fazê-lo conhecer o melhor da vida, um mundo melhor, mais humano e mais imaginativo. O texto poético deve despertar a criatividade do homem. Daí a questão enfocada por Quintana de que o poeta é um ser perigoso, que por isso mesmo é assassinado, várias vezes, pela sociedade.
Platão expulsa os poetas da República, por achar a sua função menor. De acordo com este filósofo grego, a realidade humana é basicamente imitativa e distante da essência do ser – o mundo das ideias – e os artistas não representam a verdade do mundo nas suas imitações. Nesse mundo imitativo, em primeiro lugar está o artesão e só depois, de modo degradado a imitação do artista.
Já para Aristóteles, imitar, representar, criar são marcas naturais do ser humano. A obra de arte é uma realidade especial, podendo ser mais importante que própria história: é preferível o impossível que verossímil ao possível (Aristóteles, (1987) p. 16) que éincrível uma vez que a obra de arte não tem necessariamente um compromisso com a verdade. Dessa forma, a arte pode se dar ao prazer de retratar o impossível, ou puramente o fictício. Porém, embora não tenha esse compromisso com a veracidade dos fatos, a arte é, muitas vezes, mais verossímil que a própria realidade, que é considerada possível, mas são apresentadas, inúmeras vezes, como impossível, incrível e absurda.
Tanto para Platão como para Aristóteles, no entanto, coloca-se o impasse entre o discurso lógico da razão e o discurso alógico inventivo da arte poética. Enquanto o Geômetra Platão é radical na sua insatisfação, o Biólogo Aristóteles experimenta compreender a arte e sua especial relação entre o homem e o mundo.
O poeta é um ser sensível que vê o invisível aos olhos comuns, percebe a poesia de todos os lugares: do silêncio dos velhos corredores, de uma esquina, de uma lua, do primeiro olhar da primeira namorada, de todas as namoradas do mundo inteiro.
Este poeta, tão livre de expressão e criatividade, é muitas vezes aprisionado pelos grilhões dos desumanos que não suportam a poesia. Estes funcionam como grilos perturbando a paz e o lirismo dos poetas e, às vezes, assassinam o poeta que existe dentro deles mesmos e todos os poetas do mundo: “A noite dorme um sono entrecortado, alfinetado de grilos” (QUINTANA, M. Poesia completa, (2005) p. 274), “Os grilos são os poetas mortos”. (QUINTANA, M. Poesia completa, (2005) p. 639).Dessa forma,o vocábulo grilo, simboliza também o poeta que perturba a boa vida daqueles que não querem ver certas realidades consideradas desagradáveis.
Função da poesia
A função da poesia, antes de tudo, é despertar o homem para a humanidade. A obra deste vate gaúcho é uma reflexão sobre o mundo, o homeme sua existência. É uma poética que tem uma forte irmandade com filosofia.
O poeta Mallarmé dizia que a poesia se faz com palavras, e que é poeta quem lhes cede à iniciativa de que elas falem por si mesmas. O filósofo Heidegger, no empreendimento de auscultação da linguagem, filosofou sobre sua essência. O poeta e o filósofo buscaram a linguagem poética em sua pura essência dizente. Por estas e outras experiências e pensamentos, a Filosofia se avizinhará da poesia tanto quanto a filosofia da ciência. E ambas falarão sempre do ser; os textos dos poetas e dos filósofos rememoraram, reiterada e veladamente, mas de maneira diferente, essa mesma experiência congênita à própria linguagem e à humanidade do homem (Nunes, B. (1986) p. 260). Heidegger afirma mesmo que a Filosofia está mais próxima da poesia do que da ciência.
A poesia de Mário Quintana literalmente filosofa através das palavras, observe o soneto “Ah Os relógios”(MQb p.146):
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…
(MQb p.146)
Neste poema, o eu lírico filosofa sobre a existência. Observa que o tempo é uma invenção da morte, mas a poesia eterniza o homem. Ao perceber esse espetáculo do cotidiano e da natureza, o eu lírico manifesta dois sentimentos: de compreensão e de resignação diante da fugacidade das horas.
O texto conduz o leitor a verificar a existência das coisas, a ordem de tudo. O poema faz o leitor pensar sobre o ser e o estar das coisas e dele mesmo; a buscar perguntas intrigantes e respostas inteligentes, a filosofar. O texto poético eleva o homem à Filosofia e esta, por sua vez, encaminha o ser a uma passagem para um poético mágico, para uma alquimia verbal, para uma descoberta da magia e do poder das palavras. A palavra é que leva uma coisa a ser coisa (Op. cit. Nunes, B. (1986) p. 267). As palavras são poderosas, e, de acordo com a interpretação de Heidegger:
As palavras não são simples vocábulos (Wörter), assim como baldes e barris dos quais extraímos um conteúdo existente. Elas são antes mananciais que o dizer (Sagen) perfura, mananciais que têm que ser encontrados e perfurados de novo, fáceis de obturar, mas que, de repente, brotam de onde menos se espera. Sem o retorno sempre renovado aos mananciais, permanecem vazios os baldes e os barris, ou têm, no mínimo, seu conteúdo estancado (in NUNES, B. (1986) p. 199).
A poesia efetua esse retorno sempre renovado. O poeta é aquele que perfura os mananciais, tomando os vocábulos como palavras dizentes. Seu caminho não vai além das palavras; ele caminha entre elas, de uma a outra, escutando-as e fazendo-as a falar. O retorno se opera no intervalo do silêncio, que vai de palavra a palavra, quando o poeta nomeia o discurso dizente. É a nomeação que leva a coisa a ser.
Antes da nomeação, as palavras assim como a natureza apenas estavam imersas no caos aparente da existência. O poeta desvela a existência das coisas por meio do texto poético, quebrando assim o silêncio das palavras, nomeando a existência das coisas e fazendo tudo emergir aos olhos do leitor: a nuvem, a asa, o vento, a árvore, a pedra, o morto, o curto prazo da vida, o curto prazo da morte, como no poema acima transcrito. O poeta desvela o poder do raciocínio, da observação, das palavras, da Filosofia e da Poesia.
O texto poético transporta o homem do simples estar, para o eterno ser; conduz a criatura a perceber sua humanidade, inteligência, criatividade, existência dentro desse universo tão amplo, tão cheio de perguntas e respostas, aparentemente hermético, mas compreensível para o homem que contempla a vida e filosofa sobre a existência de tudo.
A vida e obra de Mário Quintana e seu autorretrato
Mário de Miranda Quintana nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete no Rio Grande do Sul. Ingressou na vida literária escrevendo sonetos e traduzindo para Editora Globo Marcel Proust, Virgínia Woolf, Morgan, Guy de Maupassant, André Gide, Aldous Huxley etc.
Seu primeiro livro de poesia, A Rua dos Cataventos (1940), teve ótima repercussão de crítica e público. Entre suas obras publicadas figuram: Canções (1946), Sapato Florido(1947), Espelho Mágico(1948), O Aprendiz de Feiticeiro(1950), Poesias (1962), Antologia Poética(1966), Caderno H(1973), Pé de Pilão (obra infantil – 1975), Apontamentos de História Sobrenatural e Quintanares(1976), A Vaca e o Hipogrifo(1977),Na Volta da EsquinaeObjetos Perdidos Y Otros Poemas(1979),Esconderijos do Tempo (1980), Lili Inventa o Mundo(1983), Nariz de VidroeO Sapato Amarelo(publicação infantil 1984), O Baú de Espantose80 Anos de Poesia(1986), Preparativos de Viagemeda Preguiça com o Método de Trabalho(1987), Porta Giratóriae A Cor do Invisível(1988).
O poeta ganhou vários prêmios literários, seus textos brilham em inúmeras antologias nacionais e estrangeiras, em livros escolares, em dicionários e em enciclopédias. Nos últimos anos sua obra foi descoberta com louvor e vinha recebendo sucessivas homenagens.
No dia 1º de maio de 1994 o poeta faleceu. Deixou este mundo de realidades e sonhos que inspirou suas imagens poéticas, mas sua obra ficou imortalizada nos livros e nas almas dos amantes da arte literária. Quintana, pensando nesse momento escreve:
Quando eu morrer e no frescor da lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua…
Nada mais quero com nenhum de vós!
Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão…
Que linda a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!…
Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr-de-sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas…
E um dia há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto…
(MQb p.23)
O poema apresenta imagens poéticas de grande intensidade para expressar a morte, o encontro com a nova morada, com a solidão iluminada de lua. O eu lírico deseja a paz da eternidade e o distanciamento com a fria realidade que ele tanto recusou. Seu desejo agora, mais do que nunca, é ficar com seus poemas imaginários, avessos ao mundo material e lógico.
No segundo quarteto, o poeta expressa que deseja continuar com seus poemas de puros devaneios, com seus anjinhos, seus menininhos, suas avezinhas, seus diminutivos, suas luas, suas estrelas, sua linda eternidade, seus amigos mortos, seus fantasmas e suas contínuas experiências poéticas e linguísticas.
O primeiro terceto revela o desejo do eu emotivo levar consigo a suas líricas madrugadas, seus pôr-de-sóis, suas brilhantes luas, suas asas em bando e revoada e, os mais poéticos risos, os das primeiras namoradas. Depois apresenta reticências, simbolizando que aspira muito mais… Deseja levar, enfim, todos os bons momentos da vida, todas as belezas do mundo.
Finalmente, no último terceto, o poeta expõe que sua vivência, suas experiências e visões foram tantas durante a vida, que a morte há de ficar espantada com essas lembranças que o poeta guardou do passado. Durante a vida cantou tanto a existência, que mesmo depois da morte, continua cantando e espantando os males na região negra da morte. A vivacidade do poeta gaúcho é tão intensa, cheia de cores, música, canções, sóis, estrelas e dias que espantará o negro manto que cobre o fim da vida.
Destarte, o soneto acima traduz a alma poética desse artista que soube viver intensamente o lirismo da vida e fez da vida poesia e arte. Este poeta foi uma criatura sensível enfeitiçado pelas palavras e um feiticeiro da linguagem. Sua obra está cheia de menininhos, menininha, meninazinhas, avozinhas, cidadezinhas, ruazinhas, estrelinhas, mundo infantil, delicado, pequenino, mas cheio de criatividade, de imaginação, de imagens poéticas. O poeta devaneia através das palavras e cria mundos insólitos e assim, em Apontamentos de história sobrenatural, faz o seu “Autorretrato”:
No retrato que me faço
¾ traço a traço ¾
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore…
Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança…
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão…
E, desta lida, em que busco
¾ pouco a pouco ¾
Minha eterna semelhança
No final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!
(MQB p.47)
Em seu autorretrato a pintura feita pelo artista expressa um Realismo Mágico ou Fantástico. As imagens são indefinidas, porque não se prendem a nenhuma forma e conceito definidos ou exigidos pela sociedade. Esse retrato traduz o próprio Mário Quintana que nunca seguiu fórmulas pré-estabelecidas ou Escolas. Este poeta gaúcho teve como escola apenas a poesia que existe em todos os lugares: nos devaneios de uma criança, num pôr do sol, numa lua, numa esquina, num sorriso, na palavra, no ritmo, na canção, nas lembranças, no passado, no presente, na vida, na morte e em tudo.
Conclusão
A poesia de Mário Quintana é caracterizada por uma “difícil simplicidade”. É um mundo poético impregnado de ternura, misticismo, melancolia, nostalgia da infância, pureza, simplicidade, mundo infantil, criancinhas, vovozinhas, estrelinhas, luas, sois, noites, dias, estações, humor irônico, canções, ritmos, poema em prosa, criação, vida, morte e renascimento.
A poética desse vate gaúcho é assinalada por imagens inventivas, às vezes, inusitadas. A imaginação é a tônica da sua poesia. Tanto o poeta, quanto o leitor precisam trabalhar com a faculdade de imaginar. O próprio Quintana oferece a receita de um leitor ideal:
O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.
Uma fase? Que digo? Uma palavra!
O cronista escolheria a palavra do dia: Árvore”, por exemplo, ou “Menina”.
Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.
Sem mais nada
Até sem nome.
Sem cor de vestido nem de olhos.
Sem se saber para onde ia…
Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor!
E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão…
E se o leitor nada conseguisse tirar dessa obra-prima, poderia o autor alegar, cavilosamente, que a culpa não era do cronista.
Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha…
Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra “Ventania”. Serve?
(QUINTANA, M. Poesia completa,2005. p. 802)
A obra poética de Quintana desperta o homem para a sua capacidade de usar sua imaginação, seus devaneios, sua sensibilidade e ser humano, verdadeiramente humano.
Concluiremos este trabalho seguindo ainda o ensinamento de Quintana, este maestro da poesia brasileira, que aconselhou o seguinte:
Essa mania de ler sobre autores fez com que no último centenário de Shakespeare, se atravesse entre uma professorinha do interior e este escriba o seguinte diálogo:
– Que devo ler para conhecer Shakespeare?
– Shakespeare.
(QUINTANA, M. Poesia completa, 2005. p. 294)
Diante do exposto, parodiando o mestre, aconselhamos aos intelectuais, vestibulandos ou não, ou as pessoas de bom gosto, que leiam Mário Quintana. Nessa leitura conhecerão o poeta, o lirismo do mundo e descobrirão o homem.
Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima é autora de 50 obras, ensaísta, crítica literária, escritora de obras da literatura infanto-juvenil, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras – Literatura e Crítica Literária – Mestrado e Doutorado da PUC Goiás e Titular da Cadeira nº 5 da Academia Goiana de Letras (AGL)


