Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

A professora Luciana Helena Alves da Silva, doutora em Geografia e docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Goiás (Câmpus Cidade de Goiás), se manifestou sobre as informações de supostas descobertas antropológicas (objetos de culto judaico) que ligariam a família de Bartolomeu Bueno da Silva — o bandeirante Anhanguera, filho —, a práticas cristãs-novas em Goiás. As descobertas teriam acontecido na parede secreta de uma residência na Fazenda Ruá, município de Goiás-GO.

Sob condição hipotética, já que não teve acesso aos objetos, a pesquisadora do Arraial da Barra (hoje Buenolândia), onde residiu o Anhanguera, e autora da tese intitulada “O habitar e a memória em terras da santa: ancestralidade no Arraial da Barra, na cidade de Goiás/GO”, aceitou falar ao Jornal Opção.

Para Luciana Helena, as relíquias judaicas funcionariam “como arquivo silencioso. O Sefer Torá, a Menorá e as lamparinas não são apenas objetos rituais: eles funcionam como dispositivos de memória encapsulada, preservados, não para exposição, mas para continuidade identitária íntima”, afirma.

Para a professora, “a postura atual da família Bueno — silêncio, recusa de pesquisadores, alegação de herança íntima — pode ser lida, à luz da tese, não só como resistência contemporânea, mas como herança histórica de um regime de medo, no qual: revelar demais significava risco; lembrar em excesso podia ser perigoso”, elocubra a pesquisadora.

E continua: “A minha tese, ‘terras da santa’, não se restringe à devoção católica, mas designa um território ritualmente normatizado, onde a fé oficial organiza o espaço, os corpos e os tempos”.

Para a pesquisadora, “a presença judaica clandestina desloca essa leitura. Se confirmada, a descoberta mostra que Goiás foi simultaneamente: terra da santa (no discurso oficial); terra do segredo (na prática cotidiana). Isso amplia a leitura que fiz em minha tese ao revelar que: o sagrado colonial não era homogêneo; havia sacralidades concorrentes, ocultas, mas persistentes; o sertão funcionava como zona de refúgio simbólico, não apenas geográfico”, teoriza.

A estudiosa enfatiza que “um ponto central da minha tese é a leitura do espaço construído como texto de memória”. Assim, “a suposta descoberta na Fazenda Ruá faz exatamente isso: não nasce de um arquivo oficial; emerge de uma casa; reconfigura a narrativa macro a partir do micro. Nesse sentido, o achado confirmaria metodologicamente a abordagem da tese; fortaleceria a ideia de que Goiás foi construído também por sujeitos que habitaram o território em estado de exceção permanente”, formula Luciana Helena.

A professora finaliza afirmando que “descobertas desse porte não permanecem no silêncio institucional, especialmente quando envolvem patrimônio do século XVIII, manuscritos em hebraico, um Sefer Torá (que exige protocolos rigorosíssimos de conservação)”.

Como as informações vieram a público de maneira apócrifa e açodada, afirmando que revolucionaria a historiografia sobre Goiás, é importante a visão da pesquisadora sobre os impactos de tais descobertas, caso se confirmem.

Contudo, o eixo central do bandeirantismo — bem como do monçoeirismo, lembrando Afonso Taunay e Sérgio Buarque de Holanda — se reside na busca do ouro, no apresamento de indígenas e, por consequência, na expansão do território que deu à Coroa Portuguesa o Brasil tal qual existe.

Parece certo, entretanto, que, se confirmadas, as descobertas dariam à historiografia de Goiás, não uma abordagem demolidora ou revolucionária, como insinua o texto apócrifo. Mas um olhar mais familiar, mais doméstico, mais humano, mais “íntimo”, conforme teorizou Luciana Helena.

Nilson Jaime é doutor em Agronomia pela UFG e coordenador e editor-geral da “Coleção Goiás +300: Reflexão e Ressignificação. É colaborador do Jornal Opção.

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