Prefeito de Cezarina afima que maioria dos casos de violência contra a mulher ocorre por “provocação”
13 março 2026 às 18h15

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O prefeito de Cezarina, Valtenir Gonçalves da Silva, afirmou em entrevista ao Jornal Opção que, na visão dele, grande parte dos casos de violência contra a mulher acontece porque as próprias vítimas “provocam” os agressores. Durante a entrevista, o prefeito também disse que não vê a violência doméstica como um problema significativo no município, que tem cerca de 8,3 mil habitantes.
“Não tem esse problema aqui não. Realmente, aqui é um município mais familiar, não tem esse problema aqui não.” Apesar da afirmação, o prefeito admitiu que a cidade não possui delegacia da mulher nem equipe especializada para atendimento às vítimas.
Segundo ele, mulheres que precisam de atendimento psicológico ou apoio especializado precisam procurar serviços em outra cidade. “Aqui não tem não, só em Trindade.”
Trindade, município vizinho, concentra parte dos serviços de atendimento à mulher na região.
Falta de estrutura
Questionado sobre quais políticas públicas são desenvolvidas na cidade para prevenir a violência contra mulheres, o prefeito disse que a principal ação do município são campanhas de conscientização. “Todo ano tem campanha. Todo ano a gente faz campanha. Tem o dia de denúncia. Tem tudo.”
Ele confirmou, no entanto, que não há estrutura local para atendimento especializado. “Aqui não tem não.”
No Brasil, o combate à violência doméstica é regido principalmente pela Lei Maria da Penha, que prevê medidas protetivas, punição aos agressores e criação de redes de apoio às vítimas.
“80% dos problemas é culpa da mulher”
Ao ser questionado sobre quais medidas considera mais eficazes para combater a violência doméstica, o prefeito afirmou que acredita que muitos casos acontecem porque as mulheres provocariam os parceiros. “Eu acho que a mulher não foi feita para ser agredida, mas infelizmente tem uns que abusam da lei e aproveitam.”
Em seguida, ele afirmou: “O fato é que 80% dos problemas é culpa da mulher.”
Após questionamento da reportagem sobre a declaração que revitimiza a vítima, o prefeito tentou relativizar a fala, mas voltou a afirmar que, segundo a percepção dele, muitos casos envolvem provocações. “Não falei isso não. Falei que a maior parte dos casos que eu já vi, dos que eu conheço, é. Elas provocam porque a lei defende elas.”
Ele comparou a situação com disputas trabalhistas. “É a mesma coisa do funcionário levar o patrão na justiça. É porque a lei dá condição.”
Permanência na relação
O prefeito também disse acreditar que a permanência de mulheres em relações abusivas pode contribuir para conflitos. “Como é que você fica morando com uma pessoa sabendo que vai te ofender, que vai te bater, e você fica provocando ele todo dia?”
Ao longo da entrevista, ele afirmou conhecer boa parte dos moradores da cidade. “Aqui eu conheço a maioria. 70% da cidade eu conheço.”
Segundo ele, em muitos casos que presenciou, as discussões entre casais seriam públicas. “Quando o cara chega empurrando a mulher, você já viu muitos dias ela bater boca na rua com ele, xingar ele.”
Dependência financeira
Questionado pela reportagem se fatores como dependência financeira poderiam explicar por que mulheres permanecem em relacionamentos abusivos, o prefeito disse que considera essa uma possibilidade. “Outras, por questão financeira. ‘Ah, eu largo ele, vou arrumar emprego, quem vai cuidar dos filhos?’”
Ele também afirmou que prefere trabalhar com mulheres na administração municipal. “Porque a mulher é mais responsável, mais dedicada, mais honesta.”
“O agressor tem que ser punido”
Apesar das declarações, o prefeito afirmou que acredita que agressores devem ser responsabilizados. “O agressor tem que ser punido.”
No entanto, voltou a defender que o comportamento das mulheres também deveria ser considerado. “Mas quando o agressor relata que está sendo provocado, tem que tomar cuidado.”
Segundo ele, a solução passaria por mudanças de comportamento dentro da relação. “Se você não conduzir seu marido de forma diferente, automaticamente você vai provocar o que não deve acontecer.”

