“Nós existimos”: a história silenciada dos Kayapó do Sul e a luta por reconhecimento em Goiás
07 fevereiro 2026 às 08h30

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Por séculos, a história oficial tratou os Kayapó do Sul como obstáculo, ameaça ou povo “extinto”. Documentos coloniais os chamaram de “bravos”, “ferozes”, “indomáveis”. A historiografia recente, porém, reverte o olhar: os Kayapó do Sul — também conhecidos como Panará — reagiram à invasão, à escravização e às guerras de extermínio usando as armas que tinham para dizer não.
Hoje, 7 de fevereiro, data em que celebra-se o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, essa memória encontra voz na liderança indígena Myrrhamm (Mihan) Kayapó do Sul, que denuncia a invisibilização histórica e cobra do Estado brasileiro o direito básico de existir. “Eu só quero um palmo de terra para plantar alecrim”, afirma Myrrhamm em entrevista ao Jornal Opção.
Myrrhamm afirma que o “descobrimento” do Brasil não se deu pela Bahia, mas sim pelo Ceará, no Rio Grande do Norte. “Foi lá que a equipe do rei chegou, matou, tentou dizimar nosso povo. Nós corremos sem saber para onde, fugindo da morte, até parar aqui. Achavam que tinham matado todos, mas ainda sobrou cerca de 25% do nosso povo.”
Para ela, a história do Brasil nunca foi escrita pelo próprio povo e o que temos conhecimento até hoje foi fruto de narrativas colonizadoras.
Ao falar sobre espiritualidade, a cacique Myrrhamm Kayapó do Sul faz questão de diferenciar a religiosidade indígena das religiões baseadas na imposição e na catequização forçada vivida pelos povos originários ao longo da colonização. Para ela, a espiritualidade indígena está diretamente ligada ao modo de viver, ao cuidado com a terra e às relações humanas, funcionando como um princípio ético que orienta a convivência coletiva e a preservação da natureza. É nesse sentido que afirma:
“A religião indígena é o amor, o respeito à natureza, às pessoas e ao Grande Espírito Criador do Cosmo. Não é religião de imposição, é de cuidado.”
Quem são os Kayapó do Sul (Panará)
Pertencentes ao tronco linguístico Jê, os Kayapó formam um conjunto de grupos historicamente divididos em setentrionais (Kayapó do Norte) e meridionais (Kayapó do Sul). Antes da ocupação colonial efetiva, os Kayapó do Sul ocupavam uma vasta região do sul da antiga Capitania de Goiás, alcançando áreas do atual Mato Grosso e São Paulo. Na literatura do colonizador, receberam nomes genéricos e imprecisos — “Caiapó”, “Coroados”, “bilreiiros”, “Tapuia” — apagando suas autodenominações e diferenças internas.
A imagem de “tribo bravia” difundida por cronistas do século XIX serviu a um propósito: justificar guerras, apresamentos e a expulsão de povos de seus territórios. A historiografia contemporânea, ao recolocar o protagonismo indígena no centro, demonstra que a chamada “hostilidade” foi, na verdade, resistência organizada à violência colonial.
O avanço colonial e a ‘guerra de morte’ em Goiás
Desde o século XVI, expedições oriundas do litoral avançaram pelo interior em busca de riquezas e de mão de obra indígena. Antes mesmo da fixação colonial, entradas e bandeiras percorriam Goiás aprisionando povos nativos. Com a descoberta do ouro, no início do século XVIII, a expulsão tornou-se sistemática: onde havia metal, havia guerra.
Os documentos da época registram a prática da “guerra de morte” — ataques armados, destruição de roças, aprisionamento de mulheres e crianças. Bandeirantes paulistas, ao lado de sertanistas e milícias locais, mudaram cursos de rios, abriram caminhos e travaram combates com povos Jê que dominavam os cerrados. Os Kayapó do Sul repeliram bandeiras, atacaram comboios, interromperam estradas e reagiram à violência. Por isso, foram declarados “inimigos”.
A retaliação indígena atingia o que o Império considerava sagrado: as caravanas de ouro. O resultado foi a intensificação da repressão.
“Eles sempre colocaram uma etnia contra a outra. Diziam: você é Kayapó, você fica aqui; você é Xavante, fica ali. Faziam isso para nos dividir e tomar a terra. Isso continua até hoje”, relata Myrrhamm.
Anhanguera, ouro e o apagamento dos povos
A ocupação de Goiás se consolidou com a descoberta do ouro por Bartolomeu Bueno da Silva (o Anhanguera), no início do século XVIII, na região da atual Cidade de Goiás (antiga Vila Boa). O ciclo aurífero foi intenso, porém curto. Em poucas décadas, a mineração entrou em crise, deixando um rastro de impactos ambientais e humanos.
Nesse processo, os povos nativos não foram respeitados nem em seus nomes. Muitos desapareceram; outros foram reduzidos a pequenos contingentes. A violência antecedeu e acompanhou a mineração: guerras, expulsões e escravização caminharam juntas.
Kayapó do Sul nos documentos do colonizador

Relatórios coloniais descrevem os Kayapó do Sul como “bárbaros”, “assaltantes” e “canibais”, termos que legitimavam a repressão. No entanto, os próprios documentos revelam outra face: a organização da resistência. Os Kayapó usavam o terreno, desfiladeiros, a mata e projéteis naturais para conter ataques. Flechas, pedras e a geografia do cerrado foram transformadas em estratégia.
A literatura da época registra que um único guerreiro Kayapó poderia “desbaratar tropas armadas”, tamanho o conhecimento do território e a mobilidade do grupo. A demonização serviu para sustentar campanhas de extermínio e o uso da chamada “guerra justa”.
Antonio Pires de Campos e a guerra interétnica
Entre os nomes associados à repressão está Antonio Pires de Campos, sertanista que liderou expedições contra os Kayapó do Sul com apoio de guerreiros Bororo, explorando rivalidades intertribais. Em troca, recebeu recompensas — ouro, títulos e terras. Seus relatos descrevem os Kayapó como ameaça permanente e justificam a violência empregada.
Apesar das carnificinas, a resistência persistiu. Os Kayapó não abdicaram facilmente de seus territórios, o que levou a administração colonial a rever a estratégia.
Da guerra à ‘brandura’: o aldeamento como política
Na segunda metade do século XVIII, diante da crise do ouro, da evasão populacional e da resistência indígena, a Coroa Portuguesa adotou a política do aldeamento. Governadores passaram a defender o “tratamento brando”: catequese, presentes, promessas de paz. O objetivo era claro: transformar indígenas em população sujeita, produtora e controlável.
O governador José de Almeida Vasconcelos Soveral de Carvalho, o barão de Mossâmedes, percorreu a capitania e criou o aldeamento de São José de Mossâmedes, que daria origem à atual Mossâmedes. A iniciativa reuniu diferentes povos — Acroá, Karajá, Javaé, Xacriabá — e, posteriormente, Kayapó do Sul.
A ‘conquista’ dos Kayapó do Sul
Seu sucessor, Luiz da Cunha Menezes, intensificou o aldeamento dos Kayapó do Sul, considerados “indomáveis”. Em 1780, uma expedição “de paz” foi enviada ao sertão com intérpretes indígenas, presentes e promessas. O contato resultou na vinda de dezenas de Kayapó à Vila Boa, recebidos com cerimônias planejadas para impressionar e intimidar: tropas em armas, artilharia e discursos que alternavam benevolência e ameaça.
Em 1781, centenas de Kayapó foram conduzidos ao aldeamento Maria I, fundado às margens do rio Fartura, em homenagem à rainha de Portugal. Novos descimentos ocorreram nos anos seguintes. O aldeamento tornou-se símbolo da política colonial: integração forçada sob vigilância.
A vida nos aldeamentos: controle, doenças e fugas
Relatos de viajantes do século XIX revelam as fragilidades do sistema. Os Kayapó do Sul não se adaptaram às casas de teto alto e paredes frias; construíram moradias próprias, próximas às roças. A administração era precária, comandada por pedestres mal remunerados que exploravam o trabalho indígena. As fugas eram constantes.
Doenças trazidas pelos não indígenas agravaram o cenário. Epidemias de sarampo dizimaram dezenas; a falta de conhecimento sobre prevenção levou a banhos coletivos durante a febre, aumentando as mortes. A catequese não impediu o colapso demográfico.
Extinção administrativa e dispersão
Em 1813, o aldeamento Maria I foi extinto sob alegações administrativas e econômicas. A partir de 1831, os Kayapó do Sul passaram a perambular pelas franjas dos núcleos urbanos, deslocados de suas terras, “apatriados” de seu próprio território. A historiografia passou a registrar sua extinção em Goiás.
A extinção, contudo, foi administrativa e narrativa, não humana.
Do passado ao presente: ‘Nós existimos’

É contra esse apagamento que se levanta Myrrhamm (Mihan) Kayapó do Sul. Cacique e liderança indígena, ela afirma que os Kayapó do Sul não desapareceram — foram dispersos, empurrados para cidades, privados de terras e reconhecimento.
Nós estamos aqui desde 1600. Dizer que não existimos é repetir a violência.
Hoje, segundo ela, há mais de cem famílias Kayapó do Sul em Goiânia, vivendo em ocupações, periferias e áreas insalubres. Sem aldeia reconhecida, sem espaço cultural, sem políticas públicas específicas.
Ao denunciar a desigualdade no acesso a políticas culturais, a cacique evidencia o contraste entre o reconhecimento institucional dado à cultura dominante e a invisibilização dos povos originários no espaço urbano. Segundo ela, apesar da presença histórica e atual de indígenas na capital goiana, não há equipamentos públicos destinados à produção, preservação e transmissão dos saberes indígenas, o que aprofunda o apagamento cultural e dificulta a sobrevivência coletiva dessas comunidades.
“Os branquinhos têm centenas de casas de cultura em Goiânia. Os indígenas não têm nenhuma. Nem um metro.”
Myrrhamm é psicoterapeuta indígena, fitoterapeuta, reikiana, pesquisadora e primeira advogada indígena de Goiás. Formou-se em Direito pela antiga UCG, em Pedagogia pela UFG, cursou mestrado em Ciências Agrárias e estudos ambientais. Atua na defesa dos direitos indígenas, na saúde integral e na preservação dos saberes tradicionais.
Tudo que eu sei não é meu. É do Grande Espírito Criador. Foi emprestado para servir.
A luta por reconhecimento e terra
Apesar da atuação acadêmica e social, Mihan denuncia a ausência de reconhecimento institucional: universidades que não registram os Kayapó do Sul; órgãos que ignoram sua existência; políticas que tratam Goiás como se não houvesse indígenas.
Não queremos favor. Queremos um pedaço de terra para plantar, curar, ensinar.
Ela reivindica um espaço mínimo: uma casa de cultura, uma área para plantar alimentos e medicinais, um lugar para danças, escrita e transmissão de saberes.
“Como mulher, cacique e pajé, tentam me calar com violência. Se eu fosse um cacique homem, isso não estaria acontecendo assim. Ainda hoje tentam silenciar as mulheres indígenas.”
Resistência contínua
A história dos Kayapó do Sul revela que o rótulo de “feroz” encobriu séculos de resistência. O aldeamento, apresentado como paz, foi controle; a extinção, uma decisão administrativa. Hoje, a luta é por memória, território e voz.
Dizem que os Kayapós do Sul não existem. Mas nós estamos aqui desde 1600. Existimos, resistimos e não vamos desistir. Goiás é terra Kayapó do Sul.
Reconhecer os Kayapó do Sul é rever a própria história de Goiás — não como terra vazia conquistada, mas como território indígena invadido, defendido e ainda vivo.
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