O acolhimento às pessoas em situação de rua na capital tem enfrentado resistência de moradores do entorno de abrigos emergenciais e casas de acolhida. O descontentamento expõe uma dura realidade social: a negação da existência de uma parcela vulnerável da população, que muitos preferem manter “invisível”.

Nos últimos meses, o deslocamento dessa população tem sido acompanhado de rejeição por onde passa, em um movimento que resulta em violação de direitos e em práticas de higienização social, negando o básico a qualquer cidadão e aprofundando a marginalização.

Após dificuldades com a ocupação da praça em frente ao antigo Centro Pop, na Alameda Botafogo, a administração municipal passou a buscar um espaço maior no Setor Aeroporto. A mudança, porém, foi alvo de críticas e manifestações de vizinhos e, com a intensificação das chuvas, o mesmo cenário voltou a se repetir com a implantação de um abrigo temporário, inicialmente no Setor Aeroporto e, depois, no Conjunto Residencial Aruanã III.

A administração municipal sustenta que, apesar do preconceito e da resistência, o cuidado com a população em situação de rua deve continuar. Destaca ainda que o acolhimento é realizado com acompanhamento da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh).

“Tratar quem não tem condições de prover o básico para sobreviver como criminoso significa negar o acesso a serviços socioassistenciais previstos em lei. Invisibilizar essa população não resolve o problema, que exige respostas estruturais e permanentes”, afirma a secretária da Semasdh, Erizânia de Freitas. “A situação demanda um olhar mais empático”, completa.

O que diz o Movimento da População de Rua

Para o coordenador do Movimento População em Situação de Rua de Goiânia, Eduardo de Matos, o problema não se resume à resistência de moradores, mas revela falhas estruturais na condução das políticas públicas voltadas a essa população.

Segundo ele, embora reconheça o esforço de profissionais que atuam na ponta, o modelo adotado em Goiânia está muito distante do que é praticado em outras capitais. “Os profissionais fazem o máximo com dignidade, mas se você comparar com o Centro Pop de Brasília, São Paulo ou Curitiba, percebe que aqui ainda estamos muito atrás. Um equipamento como esse deveria funcionar 24 horas”, avalia.

Sobre os abrigos emergenciais, Eduardo explica que o funcionamento é limitado. “A pessoa chega à noite, dorme e sai cedo. Depois só volta à noite de novo. É algo muito simples, mas é o que tem”, afirma. Ele diz não ter recebido queixas diretas sobre o atendimento, mas pondera que a precariedade do serviço é evidente.

Um dos pontos mais sensíveis, segundo o coordenador, são as denúncias de deslocamento forçado de pessoas em situação de rua para outras cidades ou instituições. “Recebemos uma denúncia da coordenação do Centro Pop de Brasília. Não era o município, mas o Estado, informalmente. Isso apareceu numa reunião do CIAMP. Dizem que é voluntário, mas, na prática, é uma limpeza da cidade”, denuncia.

Eduardo também critica a ausência de políticas de moradia social. “Por que não se discute moradia primeiro, como já acontece em outros estados? Goiânia e Aparecida não têm iniciativa nenhuma, nem para acessar recursos do Minha Casa Minha Vida. O dinheiro existe, mas falta política pública”, afirma.

Eduardo Matos, coordenador do Movimento da População de Rua em Goiás | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Para ele, a resistência da população é agravada pela forma como as mudanças são conduzidas. “Você não pode simplesmente deslocar pessoas de um lugar para outro sem trabalho prévio, sem diálogo. Vivemos numa cultura preconceituosa com a pobreza e, com a situação de rua, isso é ainda pior”, diz.

O coordenador destaca ainda o enfraquecimento dos espaços de controle social. “O principal órgão de acompanhamento das políticas é o CIAMP, municipal, estadual e nacional. Mas, em Goiânia, quem preside o CIAMP Municipal é a própria secretária. No Estado, acontece o mesmo. Assim, o órgão perde autonomia e não consegue cumprir seu papel”, conclui.

Mudanças sucessivas expõem impasse no acolhimento

A instabilidade no acolhimento da população em situação de rua em Goiânia se intensificou nos últimos meses e ficou ainda mais evidente em janeiro de 2026, com a implantação e a rápida desmobilização de abrigos emergenciais durante o período chuvoso.

Linha do tempo

Dezembro de 2025
Após reclamações de moradores, o Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (Centro Pop) deixou a Alameda Botafogo, no Centro, e foi transferido para a Rua Francisca Costa Cunha, no Setor Aeroporto. A Prefeitura argumentou que o novo local permitiria um atendimento mais humanizado e anunciou investimento de R$ 1,5 milhão em melhorias estruturais em 2026.

No mesmo endereço, passou a funcionar também o abrigo emergencial, utilizado anteriormente no período de frio.

Início de janeiro de 2026
Moradores e comerciantes do Setor Aeroporto intensificaram protestos contra a presença do Centro Pop e do abrigo emergencial. Após mediação da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg), a Prefeitura se comprometeu a retirar o abrigo do local em até 15 dias, mantendo apenas o Centro Pop.

19 de janeiro de 2026
O abrigo emergencial foi transferido para um antigo Núcleo de Assistência Social (NAS) no Conjunto Residencial Aruanã III, na região leste da capital. A mudança também gerou protestos imediatos de moradores, que alegaram insegurança e falta de estrutura do imóvel.

20 de janeiro de 2026
Mesmo com presença da Guarda Civil Metropolitana e servidores da Semasdh, moradores realizaram manifestações em frente ao abrigo. Pessoas em situação de rua relataram constrangimento e desgaste emocional diante da hostilidade.

21 de janeiro de 2026
Sob chuva, cerca de 50 homens foram reunidos na Estação Ferroviária de Goiânia, acreditando que seriam levados ao abrigo no Aruanã III. No entanto, foram encaminhados para quatro comunidades terapêuticas de forma emergencial. A Prefeitura informou que a mudança ocorreu devido à não aceitação do abrigo por moradores da região.

22 de janeiro de 2026
O acolhimento emergencial passou a ser realizado no Projeto Metamorfose, no Setor Campinas. Pessoas em situação de rua relataram que só descobriram o destino ao chegar ao local e que, após pernoitarem, foram devolvidas à estação ferroviária nas primeiras horas da manhã.

O Metamorfose havia sido interditado em dezembro de 2025 como instituição de longa permanência, por condições insalubres, mas continuou sendo utilizado para acolhimento emergencial, mediante acordos com a Prefeitura e sob fiscalização da Vigilância Sanitária.

Um problema que permanece

As mudanças sucessivas de endereço escancaram a dificuldade do poder público em conciliar o direito ao acolhimento com a resistência de comunidades locais. Para movimentos sociais, especialistas e defensores de direitos humanos, a situação evidencia a ausência de uma política estruturante, que vá além de soluções emergenciais e do simples deslocamento da população em situação de rua pela cidade.

Enquanto isso, pessoas seguem sendo removidas de um ponto a outro, enfrentando preconceito, insegurança e a incerteza diária de onde poderão dormir — um retrato de uma cidade que ainda não decidiu como conviver com suas próprias desigualdades.

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