Vida e morte: uma insiste, a outra se repete
09 abril 2026 às 15h26

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A imagem da criança no balanço, em meio à guerra, é uma metáfora perfeita da relação entre vida e morte que margeia toda a existência. É um grito silencioso que diz: a violência pode ser avassaladora, mas a inocência é resistente, mais do que qualquer poder humano.
A vida não muda sua forma de ser diante das obscenidades da guerra, das repetições da morte; ela insiste, mesmo quando parece fraca, mesmo quando cessam as esperanças. É como se a morte tentasse quebrar a vida repetidas vezes, e esta, teimosa e insistente, sempre continuasse, quase com um ar de deboche, como quem diz: “você tem o chicote, mas eu sei onde dói”.
Lembro-me das histórias dos escravocratas que espancavam e condenavam à fome os seres humanos sequestrados, esperando que eles desistissem. Funcionou com seus corpos, mas não com seus espíritos; ainda cantavam suas músicas, lembravam suas histórias e honravam seus ancestrais. Mais um episódio em que a morte vem com seus impactos e sobressaltos, com demonstrações toscas de força, e acaba por revelar a fraqueza de quem mata por ódio e a força de quem, por amor, se mantém vivo.
Às vezes, quem mata também morre; em outras, já está morto. Com nosso jeito humano de ver o mundo, nos enganamos e pensamos: “O mundo está perdido, já era! Agora, a morte venceu”. Mas nunca vence. A vida, da mais simples bactéria, insistirá e fará surgir florestas. A morte triunfa em todos os rounds, mas sempre perde a luta.
Basta perceber como os poderosos senhores da guerra necessitam de bravatas e penduricalhos. Cercam-se de fiéis (que os tratam como deuses) para tentar esquecer que também são gente, mas nunca conseguem disfarçar a flagrante tristeza e a falta de sentido em seus olhares. Buscam ouro em terra inócua, fazem banquete onde não há comida.
Em contraponto, as crianças, seres desprovidos de poder, mas abundantes em inocência, se satisfazem e se alegram com um simples graveto. Correndo descalças, basta um gramado para que possam ser e viver tudo o que sua fértil imaginação permitir. Em meio à miséria, vivem momentos valiosos, se empanturram com o pouco que o mundo lhes oferece.
Por isso, eu creio que, um dia, a morte se dará por vencida. Cansar-se-á (não sem lutar), mas sairá derrotada, e os humanos poderão viver plenamente um período livre de dor desnecessária, sem guerras, sem miséria e sem violência. Não sei se será em breve ou quantos séculos ainda teremos de esperar, mas esse dia chegará.
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