Em meio às movimentações que começam a desenhar o cenário político para as eleições de 2026 em Goiás, o vereador por Goiânia Oséias Varão, do PL, aparece como uma das vozes mais influentes dentro do partido no estado. Natural de Araguaçu, no Tocantins, ele se formou em Direito pela PUC Goiás e construiu sua trajetória política ligada ao campo conservador.

Varão também é fundador da Frente Conservadora de Goiás e, nos bastidores, é considerado uma das “mentes pensantes” por trás das estratégias do PL em Goiânia e em todo o estado.

Nesta entrevista, o parlamentar comenta os desdobramentos da decisão do partido de lançar Wilder Morais como candidato ao governo de Goiás, após um período de debate interno entre defensores de uma candidatura própria e aqueles que defendiam uma composição com o grupo do governador Ronaldo Caiado e do vice-governador Daniel Vilela. Segundo Varão, os dois lados apresentavam argumentos consistentes, mas a definição acabou sendo tomada pela direção nacional do partido, em Brasília.

O vereador também analisa o cenário eleitoral em Goiás, a força política do governador Caiado, as possibilidades do PL na disputa ao Senado, o papel do eleitorado conservador e a relação da legenda com outros partidos. Além disso, fala sobre a dinâmica interna da sigla, a influência do bolsonarismo no estado e as estratégias do partido para manter protagonismo na política goiana.

Na conversa, Varão ainda aborda a atuação da bancada do PL na Câmara de Goiânia, a relação com o prefeito Sandro Mabel e a leitura que faz sobre a reorganização do campo da direita no Brasil e em Goiás

Ton Paulo – Observou-se, por determinado período, a construção de um possível acordo entre o PL e o MDB, partido do vice-governador Daniel Vilela, que em poucos dias assumirá o governo do Estado e deverá disputar a reeleição. No entanto, em um intervalo muito curto de tempo, esse entendimento foi desfeito. Com isso, o PL decidiu lançar candidatura própria, encabeçada por Wilder Morais. Como o senhor avalia o desfecho desse processo?

De fato, o partido e as lideranças se dividiram em dois grupos. Um grupo defendia a composição com Daniel Vilela e com Ronaldo Caiado, e outro grupo defendia a candidatura própria do senador Wilder Morais.

Eu participei ativamente de todas essas discussões internas, e uma coisa que ficou muito clara para mim nesse processo foi a seguinte: os dois lados tinham razões consistentes. Ao ouvir os argumentos de ambos, percebe-se que quem defendia a candidatura própria apresentava um raciocínio bastante simples: um time que não disputa campeonato não tem torcida; da mesma forma, um partido que não disputa eleição não mantém eleitorado.

Assim, a não candidatura do PL ao governo do Estado representaria um risco de o partido perder o protagonismo que possui hoje, do ponto de vista eleitoral. Isso poderia gerar um certo esvaziamento do partido aqui no Estado, justamente pelo fato de não termos uma candidatura própria. Hoje, o PL é um dos dois principais protagonistas da política estadual sob a perspectiva eleitoral.

A eleição de Goiânia demonstrou isso de forma bastante clara. Antes mesmo da divulgação de qualquer pesquisa, eu já previa que o resultado da eleição em Goiânia se daria entre caiadistas e bolsonaristas, pois essas são hoje as duas principais forças eleitorais. Portanto, a ausência de candidatura tende a enfraquecer essa posição e retirar do PL parte desse protagonismo.

Além disso, não podemos deixar essa parcela significativa do eleitorado sem representação. É preciso reconhecer que esse argumento é forte e consistente, pois está diretamente relacionado à construção, ao fortalecimento e à ampliação do partido no Estado. Esse processo é fundamental para a direita no Estado e em Goiânia.

Se a prioridade é eleger o presidente da República e senadores, governador está, no mínimo, em terceiro plano

Por outro lado, qual era o argumento utilizado pelo grupo que defendia a composição? A questão colocada era a seguinte: qual é a prioridade da direita hoje no Brasil? Eleger o presidente da República e ampliar a representação no Senado.

Na nossa perspectiva, somente será possível interromper aquilo que consideramos uma escalada autoritária por parte de ministros do STF se houver maioria no Senado e a eleição de um presidente da República alinhado a esse campo político. Então, se a prioridade é eleger o presidente da República e senadores, governador está, no mínimo, em terceiro plano.

Ao analisar a situação concreta aqui no Estado e em Goiânia, o que se observa? Há um governador, Ronaldo Caiado, identificado com a centro-direita e que, em diversas pautas, se alinha conosco, como na questão da segurança pública, entre outras. Além disso, trata-se de um governador com índices de aprovação muito elevados.

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“Antes mesmo da divulgação de qualquer pesquisa, eu já previa que o resultado da eleição em Goiânia se daria entre caiadistas e bolsonaristas, pois essas são hoje as duas principais forças eleitorais” | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Alguns dizem que a aprovação é de 70%, outros falam em 75%, e há quem mencione até 85%. De todo modo, é um índice muito alto. Se observarmos o histórico das eleições no Estado de Goiás, e também em outros estados, percebemos: quando um governador possui índices de aprovação tão elevados, normalmente consegue eleger seu sucessor.

O próprio Marconi Perillo, quando tinha um alto índice de aprovação, conseguiu eleger Alcides Rodrigues. Que na minha visão, é o pior candidato que alguém poderia ter. Mas elegeu.

Portanto, olhando sob uma perspectiva histórica e considerando a situação natural, é de que o Caiado possa eleger o seu sucessor ao governo e também os dois senadores que venha a apoiar.

Ton Paulo – Então qual o fator determinante?

O fator mais determinante é conjuntura. Você percebeu que todos os dois têm bons argumentos? Qual foi o grande desafio? Eu entendi isso inclusive logo. Esse assunto não seria decidido por nós aqui.

Nenhum grupo conseguiu convencer o outro. Então, a decisão veio de Brasília.

Eu participei de reuniões em que eu percebia que não era possível decidir isso aqui, em Goiás. Então, a decisão foi de Brasília e lá houve a decisão do presidente Valdemar Costa Neto de lançar o Wilder candidato a governador do nosso estado e afastar da possibilidade de composição.

Ton Paulo – O que o presidente Bolsonaro realmente, de fato, falou para o Wilder na visita que ocorreu na Papudinha? Houve muito desencontro de informações sobre como, de fato, foi a conversa.

Eu não posso afirmar exatamente como ocorreu. Posso apenas relatar as impressões que tive ao ouvir as pessoas envolvidas, ouvindo o Wilder, o Gustavo e outras pessoas que estiveram com o presidente. O que entendo que aconteceu foi o seguinte. Havia uma convicção do presidente Bolsonaro de que deveríamos fazer uma composição aqui no estado.

Ele já havia conversado sobre isso com o Gustavo Gayer e pedido a ele que trabalhasse nessa direção. Quando o Wilder foi conversar com o presidente, na minha leitura, o que ocorreu foi o seguinte. O presidente apresentou ao Wilder os argumentos em favor da composição.

O Wilder, por sua vez, contra-argumentou e apresentou os motivos pelos quais defendia a candidatura própria. Em determinado momento, segundo o próprio relato do Wilder, o presidente perguntou qual era o sentimento dele em relação à disputa. O Wilder respondeu que acreditava que poderia vencer a eleição.

Diante disso, ainda de acordo com o relato do Wilder, o presidente afirmou que, se essa era a convicção dele, então deveria ser candidato e conversar com o Valdemar. Foi isso que consegui compreender a partir dos relatos que ouvi.

O que percebo é que não se trata necessariamente de alguém estar mentindo nessa história. O que existem são enfoques diferentes sobre uma mesma fala. Assim, havia um presidente que inicialmente demonstrava resistência, pois sua preferência era pela composição.

João Paulo Alexandre – O senhor mencionou que divergências dentro do partido são algo normal. No entanto, da forma como elas estavam ocorrendo, inclusive com essas insinuações entre um grupo e outro, isso não acaba desviando o foco principal, que é justamente fortalecer a sigla e caminhar com um projeto que vocês consideram ser o melhor para Goiás?

Você pode perceber que, em nenhum momento, fiz qualquer posicionamento público que alimentasse esse conflito. Procurei adotar uma postura de respeito às duas posições. Dentro do partido, procurei atuar como alguém que buscava mediar essas divergências.

Conversei com o senador Wilder, conversei com o deputado federal Gustavo Gayer, ouvi um lado e o outro, escutei os dois argumentos e tentei, de alguma forma, estabelecer um diálogo entre eles. Internamente, portanto, nunca me posicionei de forma clara para um lado ou para o outro. Também tenho evitado fazer isso publicamente, justamente para conseguir me manter como um interlocutor entre esses dois grupos dentro do partido.

Assim, meu papel neste momento é o de mediador e conciliador dentro do partido, para que possamos sair fortalecidos de toda essa situação.

Ton Paulo – Circula a informação de que agora, com esse rearranjo político, o deputado federal Gustavo Gayer deve ser o único candidato ao Senado pelo PL. Procede?

Minha expectativa é que consigamos emplacar um segundo nome competitivo para disputar o Senado pelo PL. Entre as possibilidades, temos o próprio Fred Rodrigues, que neste momento está com a candidatura a deputado federal encaminhada, pois essa é a proposta que ele vem trabalhando. Ainda assim, trata-se de um excelente nome.

Ele conquistou um espaço e um protagonismo muito relevantes na eleição para prefeito de Goiânia, quando obteve mais de 280 mil votos. Tornou-se bastante conhecido e passou a ser uma referência da direita tanto em Goiânia quanto no Estado, algo que repercutiu de forma muito positiva.

Minha expectativa é que consigamos emplacar um segundo nome competitivo para disputar o Senado pelo PL

Na minha avaliação, o nome de Fred Rodrigues é hoje uma excelente opção que temos para a disputa ao Senado. Há também o Major Vitor Hugo, que é vereador comigo na Câmara Municipal e possui toda uma trajetória política, tendo sido candidato a governador e também integrado o governo Bolsonaro. Acredito que ele pode igualmente se apresentar como um segundo nome do PL para o Senado no estado de Goiás.

Existe ainda a possibilidade de composição com o partido Novo. Nesse caso, será necessário avaliar qual nome o Novo poderá apresentar para essa eventual aliança.

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“Caso haja uma convergência dentro do partido em torno do meu nome como parte de um projeto partidário, eu teria disposição de colocá-lo à disposição [ao Senado] | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Ton Paulo – O senhor também foi citado como um possível pré-candidato ao Senado junto com Gustavo Gayer. O senhor tem essa vontade, teve esse diálogo?

Olha, eu já fiz essa reflexão em alguns momentos, analisando essa possibilidade, até porque de fato existe um cenário relativamente aberto.

Por exemplo, há o Major Vitor Hugo, que tem uma candidatura a deputado federal muito bem encaminhada. O mesmo ocorre com o Fred, que também está com uma candidatura a deputado federal bastante consolidada.

Para que eles fossem candidatos ao Senado, teriam de abrir mão dessa construção, e isso dependeria muito da disposição de cada um. Caso não houvesse disposição por parte do Major Vitor Hugo e do Fred para disputar o Senado, entendo que precisaríamos buscar um outro nome.

Nessa hipótese, caso haja uma convergência dentro do partido em torno do meu nome como parte de um projeto partidário, eu teria disposição de colocá-lo à disposição.

Ton Paulo – Como ficou o clima dentro do PL após essa mudança? Sabemos que havia uma disputa interna, com a ala do Gustavo Gayer defendendo uma composição e a ala do Wilder defendendo candidatura própria. Agora foi definido que será mesmo o Wilder. Como ficou a relação, por exemplo, entre Gustavo Gayer e Wilder?

Toda disputa política, especialmente quando envolve uma situação tão desafiadora quanto essa, acaba gerando algum tipo de desgaste. Como mencionei, havia argumentos consistentes dos dois lados, e isso naturalmente cria dificuldades em um primeiro momento. No entanto, acredito que, com o tempo, será possível equacionar essa situação e superar essas divergências.

Não é algo que se resolva de um dia para o outro. Muitas vezes é preciso aguardar um período para que os ânimos se acalmem, para então sentarmos, conversarmos e buscarmos uma solução.

Minha expectativa, e também meu desejo, é que possamos trabalhar para que o campo da direita saia fortalecido no estado de Goiás. Esses detalhes e essas questões internas serão tratados ao longo do tempo.

Ton Paulo – Ainda de forma hipotética, pensando na possibilidade de segundo turno, vamos supor que a disputa final fique entre Daniel e Marconi. Nesse caso, com quem o PL ficaria?

Eu não posso falar pelo partido neste momento, porque esse não é um cenário que estejamos projetando ou trabalhando agora. Até porque já existem precedentes que precisam ser considerados. Na eleição passada para a Presidência da República, por exemplo, quem o governador Caiado apoiou no segundo turno? Foi o Bolsonaro.

Diante disso, entendo que o alinhamento mais natural tende a ocorrer com o candidato que já esteve conosco em diversos momentos, não apenas em 2022. É importante lembrar também que, em 2018, o Caiado apoiou o Bolsonaro no segundo turno. Esses históricos certamente acabam pesando e podem influenciar uma eventual decisão.

De todo modo, esse é um tipo de cenário sobre o qual não devemos especular excessivamente, pois pode dar a impressão de que estamos trabalhando com a hipótese de derrota. Na realidade, o nosso foco é trabalhar para vencer a eleição.

João Paulo Alexandre – Até o momento, o que se desenha é uma chapa praticamente pura do PL em todos os aspectos. Wilder e Ana Paula, que ele trouxe do MDB e que agora está no PL, além da questão das chapas proporcionais. O PL não estaria adotando uma estratégia muito arriscada ao permanecer tão isolado no estado neste pleito?

Mas quais são as opções? Eu não diria que isso tenha sido propriamente uma estratégia deliberada. Trata-se muito mais de uma situação decorrente das circunstâncias políticas do momento. É uma questão conjuntural.

Ton Paulo – Mas a aliança com o MDB não seria uma estratégia para evitar o isolamento?

Para que uma aliança aconteça, é preciso que, dentro do espectro de opções disponíveis, existam condições políticas que a tornem viável. Quando se observa, por exemplo, a atuação da máquina governamental atraindo partidos de diferentes campos e incorporando essas siglas à sua base, percebe-se que esse é um mecanismo bastante comum na política.

Quando Marconi estava no poder, o que ocorreu foi algo semelhante. Ele também utilizou o peso da máquina estatal para trazer diversos partidos para sua base de apoio. Não foram todos, mas a grande maioria acabou se aproximando. Agora vemos o governador Caiado adotando uma estratégia parecida.

Ton Paulo – Por que você acredita que o PSDB, que já foi um partido tão poderoso e chegou a polarizar a política nacional com o PT, hoje acabou reduzido a uma legenda com pouca expressividade?

Penso que isso resulta de uma combinação de fatores, sobretudo de uma mudança significativa que ocorreu na política brasileira a partir de 2013. Basta lembrar que Aécio Neves foi candidato à Presidência da República em 2014 e foi o protagonista daquela eleição.

No entanto, a partir de 2013 começou a se consolidar um processo de profunda decepção de uma parcela expressiva da população brasileira com a esquerda. Esse sentimento vinha sendo alimentado desde o escândalo do mensalão e se intensificou com o chamado petrolão e com as investigações da Operação Lava Jato. Houve uma frustração muito grande.

Eu, inclusive, faço parte de uma geração que participou ativamente de movimentos políticos anteriores. Em 1992, por exemplo, fui um dos “caras-pintadas” e atuei ao lado de militantes de esquerda nas mobilizações que levaram ao impeachment do presidente Collor.

O que existe é uma disputa entre um campo de centro-direita e outro de direita. É dentro dessa configuração que a política goiana tem se estruturado

Naquela época, muitos de nós acreditávamos no discurso da esquerda de combate à corrupção. Na década de 1990, os militantes e políticos de esquerda eram extremamente contundentes nesse tema. O enfrentamento à corrupção era um dos principais eixos de atuação política deles.

Com o passar do tempo, especialmente a partir dos escândalos que vieram à tona durante os governos do PT, instalou-se uma grande decepção. Por volta de 2013, esse sentimento acabou explodindo e gerou uma forte reação de parte da população.

Diante disso, muitas pessoas passaram a procurar uma alternativa ao sistema político vigente. Surgiu então um espaço para uma candidatura que se apresentasse como antissistema, e Jair Bolsonaro acabou ocupando esse lugar. Evidentemente estou simplificando um processo histórico mais complexo, mas em determinado momento Bolsonaro conseguiu vocalizar esse sentimento que já existia em parte da sociedade. Isso ficou evidente, por exemplo, nas cenas em que ele aparecia em aeroportos ainda como pré-candidato e era cercado por multidões.

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Vereador Oséias Varão, em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Ao mesmo tempo, o PSDB também acabou sendo associado a escândalos de corrupção relacionados ao petrolão. Com isso, o partido não conseguiu se posicionar como o principal porta-voz desse sentimento de insurgência contra o sistema político tradicional. Bolsonaro acabou ocupando esse espaço.

Além disso, na política é muito difícil sustentar uma terceira via de forma duradoura. Muitas vezes se fala nessa possibilidade, mas, na prática, o eleitorado tende a se organizar em torno de dois polos principais.

João Paulo Alexandre – No cenário nacional, Flávio Bolsonaro aparece como pré-candidato, enquanto Ronaldo Caiado também manifesta o desejo de disputar a Presidência da República. Aqui no estado de Goiás, você acredita que Flávio teria dificuldades, mesmo com o protagonismo do PL, considerando a popularidade de Caiado?

Nós trabalhamos basicamente com dois cenários. O primeiro é o de Caiado mantendo sua candidatura à Presidência da República. O segundo é a possibilidade de que, por alguma razão, ele decida não disputar.

Caso ele não seja candidato, Flávio Bolsonaro não teria, inicialmente, grandes dificuldades em Goiás. No entanto, se Caiado também disputar a Presidência, a situação muda. Existe uma proximidade muito grande entre o eleitorado goiano e o governador, que possui um índice de aprovação bastante relevante. Nesse contexto, a tendência seria de um cenário muito equilibrado entre Caiado e Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

Isso ocorre porque, como mencionei anteriormente, as duas forças políticas estão bastante equilibradas no estado de Goiás. Portanto, não é possível afirmar quem ficaria à frente, mas é provável que haja uma disputa em condições de equilíbrio entre Caiado e Flávio Bolsonaro no estado.

Por outro lado, tenho convicção sobre um ponto. Em um eventual segundo turno entre Flávio Bolsonaro e o PT, representado por Lula, é natural que Caiado apoie Flávio Bolsonaro. Da mesma forma, se Caiado chegasse ao segundo turno contra Lula, o apoio natural viria do PL.

Essa é a dinâmica política que se apresenta. Em Goiás, costumo dizer que a política atual não é marcada por dois polos completamente antagônicos. O que existe é uma disputa entre um campo de centro-direita e outro de direita. É dentro dessa configuração que a política goiana tem se estruturado.

Ton Paulo – Falando agora sobre Goiânia, o PL hoje na Câmara ainda se autodenomina independente. Em alguns momentos vota com a base do prefeito e, em outros, não. Na abertura dos trabalhos da Casa, inclusive, alguns vereadores do PL criticaram tanto a ausência do prefeito quanto vetos a projetos da própria bancada. Como deve ser a relação dos vereadores do PL com o prefeito Sandro Mabel neste primeiro quadrimestre de 2026 na Câmara?

Neste primeiro ano de mandato, cada um de nós ainda está procurando compreender qual é a melhor forma de se posicionar em relação à Prefeitura de Goiânia. Os quatro vereadores do PL têm um acordo de procurar agir, sempre que possível, de maneira conjunta, porque isso fortalece a bancada. Quem acompanha nossa atuação já percebe essa tentativa de alinhamento.

No entanto, ao longo do tempo ficou claro que cada um dos quatro vereadores possui características próprias. Há diferenças de idade, de estilo e de abordagem na condução da relação com o Paço Municipal. Não somos um bloco homogêneo de quatro vereadores com o mesmo perfil.

Pelo contrário. Se você observar a atuação de cada um, verá que todos têm maneiras distintas de fazer política, personalidades diferentes e formas próprias de se posicionar. Conciliar essas diferenças e construir convergência nem sempre é simples. Ainda assim, procuramos fazer esse esforço de articulação interna.

No meu caso específico, falando apenas por mim e não pela bancada, tenho algumas convicções. Entendo que o prefeito Sandro Mabel está, de fato, comprometido em melhorar a qualidade de vida na cidade. No entanto, realizar transformações profundas em apenas um ano de governo, sobretudo após assumir a administração nas condições em que ela se encontrava, não é algo simples.

O que tenho observado é que ele tem buscado organizar a máquina pública e já conseguiu avançar em vários aspectos. Isso significa que todos os resultados desejados já foram alcançados? Não. Nem todos os que eu gostaria, nem todos os que a população gostaria. Ainda existem muitos problemas e dificuldades. Porém, é possível perceber que a direção adotada tende a produzir bons resultados.

Se recordarmos os mandatos de Iris Rezende, especialmente o último, veremos algo semelhante. No primeiro ano de governo dele, alguns vereadores faziam oposição firme, como o delegado Eduardo Prado, Alisson Lima, Kajuru e Elias Vaz. Nos dois primeiros anos, esses vereadores foram eleitos ou reeleitos porque havia, naquele momento, uma insatisfação da população.

Iris também assumiu a prefeitura em uma situação administrativa difícil. Quando um gestor começa a reorganizar a máquina pública, inevitavelmente gera contrariedades. Esses parlamentares vocalizavam parte desse descontentamento.

Com o passar do tempo, porém, Iris manteve a estratégia que considerava correta. Ao final do mandato, a Câmara contava com 35 vereadores, dos quais 32 estavam na base de apoio e apenas três permaneciam na oposição. Isso mostra como a percepção sobre o governo mudou ao longo do tempo, em função dos resultados alcançados.

O que quero destacar é que, para entregar resultados e administrar bem, muitas vezes é necessário tomar decisões duras e contrariar interesses. Essas medidas precisam ser tomadas principalmente no primeiro e no segundo ano de governo. Caso contrário, o gestor corre o risco de chegar ao terceiro e ao quarto ano em uma situação muito difícil.

Foi o que aconteceu em outras administrações, como as de Paulo Garcia e Rogério Cruz. Em muitos casos faltou disposição para enfrentar resistências, dificuldades e até a impopularidade momentânea que algumas decisões exigem.

Ton Paulo – E o Sandro Mabel está tendo essa disposição?

Na minha avaliação, sim. Vou dar apenas um exemplo. Há relatos de que, durante o governo Rogério Cruz, alguns vereadores tinham indicações que somavam cerca de 300 mil reais em cargos dentro da prefeitura, ou até mais.

O Sandro Mabel chegou e afirmou que esse modelo não poderia continuar dessa forma. Eu concordo com essa posição. É difícil imaginar uma administração eficiente quando a principal lógica de ocupação dos cargos é a indicação política em grande escala.

Ele tem consciência disso. Por isso afirmou que deseja dialogar com os vereadores e atender demandas políticas dentro do possível, mas que não seria viável manter proporções tão elevadas. Como consequência, houve uma redução significativa nesse tipo de prática.

Ton Paulo – Voltando à questão das eleições estaduais, o senhor é uma liderança de destaque no meio evangélico. E é um fato curioso, porque o governador Ronaldo Caiado e o pré-candidato Daniel Vilela contam com um apoio expressivo desse segmento, mas o pré-candidato Wilder Morais, não. Como pretendem lidar com isso?

Uma parte significativa das principais lideranças da igreja evangélica no estado de Goiás mantém, atualmente, um vínculo histórico com o governador Ronaldo Caiado. Desde 2018, muitos desses líderes já o apoiaram em sua candidatura ao governo do estado, o que resultou na construção de uma relação bastante consolidada ao longo dos anos. Existe, portanto, um trabalho consistente de parceria e articulação política entre o governador e essas lideranças evangélicas.

Diante desse cenário, é pouco realista imaginar uma ruptura imediata nesse momento. Por isso, é necessário pensar em estratégia. Dentro das igrejas evangélicas, a maioria dos eleitores possui uma orientação política de direita, com valores conservadores. As pesquisas apontam isso de forma bastante clara.

Assim, cabe ao nosso grupo político trabalhar para conquistar esse eleitorado que, em muitos casos, já tem uma inclinação natural a apoiar candidatos ligados ao campo político de Jair Bolsonaro. Se o nosso candidato ao governo estiver alinhado a esse grupo, existe uma tendência de que esse eleitorado demonstre receptividade.

Há também um ponto importante que muitas vezes é mal compreendido por quem observa esse ambiente de fora. Eu mesmo faço parte da igreja evangélica tem 49 anos e sou filho de pastor. A partir dessa experiência, percebo que existe uma percepção bastante equivocada sobre o funcionamento das igrejas evangélicas.

Muitas pessoas imaginam que os fiéis seguem automaticamente as orientações políticas de seus pastores. No entanto, a dinâmica não funciona dessa maneira. O pastor tem, naturalmente, o direito de expressar suas opiniões e de tentar influenciar seus amigos e membros da comunidade com suas posições políticas.

Entretanto, se um pastor apresenta um candidato que não demonstra coerência com os princípios e valores defendidos por aquela comunidade, a tendência é que essa candidatura não encontre apoio significativo entre os fiéis.

João Paulo Alexandre – No ano passado, entrevistamos muitos prefeitos do PL. Alguns reclamaram bastante da falta de espaço e de diálogo dentro da sigla. Isso motivou, inclusive, muitos prefeitos a se afastarem do partido ou a declararem apoio a candidatos de fora dele, como Daniel Vilela. Como o senhor avalia essa situação?

Sobre essa questão dos prefeitos, o que acontece? Eu gosto muito de fazer uma análise racional e objetiva. Vocês se lembram de quando o Marconi foi candidato a governador em 1998 contra o Iris? O Iris tinha mais de 200 prefeitos apoiando sua candidatura. Isso impediu o Marconi de ganhar a eleição? Não.

O que eu quero mostrar com esse exemplo é que vencer uma eleição majoritária não ocorre, primordialmente, porque você tem prefeitos te apoiando.

O que eu percebo é o seguinte: travar uma disputa por prefeitos é uma luta que nós tendemos a perder. Não conseguimos vencer o Caiado ou o Daniel nesse terreno. O poder da máquina pública é muito grande na atração dos prefeitos.

Por isso, entrar nessa disputa direta com o governador acaba sendo uma batalha muito difícil de vencer.