Qual é o discurso base de Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente da República pelo Partido Liberal? Aparentemente é, se eleito, anistiar o pai, Jair Bolsonaro, e os militares condenados por golpismo. Para ele, é muito. Para os brasileiros, é nada.

Até agora, exceto os clichês de praxe, não se pôde ler, em nenhuma entrevista, uma análise complexa de Flávio Bolsonaro a respeito, por exemplo, da economia do país. Sobre como, resolvendo alguns gargalos, o Brasil pode crescer de maneira sustentada.

Não há, nas falas de Flávio Bolsonaro, uma fala concatenada sobre a questão das desigualdades sociais e a respeito das agruras da classe média.

O que falta a Flávio Bolsonaro, o mais moderado da família, é preparo, não ideológico, e sim técnico para analisar, com correção e não preconceitos, a robusta mas problemática economia do país.

O que faz Flávio Bolsonaro é combater o governo do presidente Lula da Silva, do PT. Como opositor, está correto. Mas o senador não apresenta uma análise detida — portanto, crível — dos problemas do país e da gestão federal. Há mais opinião do que análise sedimentada.

Dada a falta de uma crítica formulada, apresentada de maneira articulada, Flávio Bolsonaro pode se tornar uma presa relativamente fácil para Lula da Silva, notadamente nos debates. Porque contestar suas críticas poderá não ser difícil para o presidente.

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Flávio Bolsonaro: pré-candidato do PL não tem a astúcia de Lula da Silva | Foto: Redes sociais

Crime organizado se tornou máfias

Um dos temas candentes da pré-campanha e da campanha eleitoral — a eleição será realizada daqui a oito meses e alguns dias — será segurança.

O governo do PT não lida bem com o tema, porque o interpreta, de maneira geral, pelo vezo da ideologia, e não pela análise objetiva da realidade.

Aos poucos, há uma mudança relativa no discurso de alguns petistas. Mas prevalece, no geral, a ideia de que a criminalidade resulta, basicamente, de problemas sociais.

A rigor é como se fosse justo dizer que o pobre, por ser pobre, estaria a um passo de cometer crimes. Trata-se de um preconceito, de matiz indireto, contra aqueles situados na base da pirâmide social.

Não há como reduzir a criminalidade se não se entender, de vez, que o crime organizado — o que desorganiza o país, aumentando o custo do Estado, dado o combate dispendioso e, ainda assim, ineficaz — não tem a ver com pobreza, ao menos na maioria das vezes.

O crime organizando se tornou uma potência. São empresas. São máfias.

Marcola, do PCC, e Fernandinho-Beira Mar não são bandidos sociais — são empresários do crime organizado no Brasil, a partir de presídios | Fotos: Reproduções

Quando se revelou que o PCC é dono de postos de combustíveis, motéis, hotéis, concessionários de automóveis, construtoras de imóveis, distribuidoras de bebidas — além de outros negócios (lavanderias dos bilhões de reais amealhados) —, parece que houve um susto (e, quem sabe, surto) geral.

O PCC se organizou como exército, fortemente armado, constituiu seu próprio tribunal de justiça — julga membros e não membros: os mata ou absolve —, e como empreendimento civil. Mantém um pé na ilegalidade — o tráfico de drogas e de cigarros — e outro na legalidade, daí as múltiplas empresas em nome de laranjas.

Dado o volume de dinheiro, o PCC irmanou-se com outras instituições internacionais do crime, como a ‘Ndrangheta, e se tornou uma multinacional — com atuação direta em alguns países, como Brasil, Paraguai, Argentina, Espanha e Itália (via parceiros da Calábria).

Para combater o PCC, assim como Comando Vermelho (CV), o Estado precisa se empenhar de maneira articulada. O governo do PT não é, claro, inteiramente omisso no combate ao crime organizado. Nos últimos meses, começou a agir.

Mas, mesmo com mudanças nas leis, para torná-las mais duras quando se tratar do crime organizado, o governo federal precisa ser mais proativo. Menos lento.

Não se defende massacres, ao estilo de El Salvador, mas não há como combater o crime organizado com luvas de pelica. Observe-se que, há pouco tempo, o PCC matou, na rua, um delegado aposentado da Polícia Civil de São Paulo.

Lula da Silva prefere enfrentar Flávio Bolsonaro | Foto: Ricardo Stuckert

O delegado havia dedicado boa parte de sua vida profissional a investigar e prender membros do PCC. A máfia patropi esperou e, quando ninguém esperava que pudesse fazer nada — afinal, Ruy Ferraz Fontes estava aposentado e não era mais nenhuma ameaça à organização criminosa —, matou o ex-policial.

Que a polícia não tenha percebido a movimentação do PCC, que articulou um plano amplo — envolvendo várias pessoas —, indica relativo despreparo. Mais: outros policiais podem, daqui pra frente, ficar com receio de, uma vez aposentados, entrarem para a lista cinza das organizações criminosas.

O promotor de justiça Lincoln Gakiya — que permanece na ativa — está na lista cinza do PCC. Planejam assassiná-lo. Oxalá a Polícia Civil consiga protegê-lo.

O que o governo Lula da Silva tem a dizer, para além das teorias e retóricas, a respeito do crime organizado? Por enquanto, nada de muito relevante.

Flávio Bolsonaro, embora seja defensor de uma segurança dura, também nunca apresentou um projeto inteligente — e mesmo não inteligente — para o combate ao crime organizado. A retórica da extrema direita difere da retórica da esquerda — uma é anti-humanista e a outra é humanista — mas são, no fundo, muito parecidas. Porque não sabem como combater as máfias tropicais.

Se Lula da Silva e Flávio Bolsonaro não têm ideias sólidas de como combater o crime organizado — e ideias “bonitas” expostas no papel são, por vezes, apenas retóricas para “iludir” a sociedade —, o governo de Goiás, Ronaldo Caiado, do União Brasil, prova que, mesmo sem leis específicas, é possível combater as máfias hiper organizadas.

As polícias que mais matam no Brasil são a de São Paulo, Estado governado por Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e a da Bahia, Estado governado por Jerônimo Rodrigues Souza, do PT.

Apesar de membros do PCC e do CV trafegarem pelo Estado (que não é uma ilha), não instalam suas bases operacionais, as de largo alcance, nas cidades goianas. Porque o governo de Ronaldo Caiado combate o crime organizado de maneira sistemática. A prioridade é a defesa do cidadão de bem e, ao mesmo tempo, a proteção da vida dos policiais. Mas Goiás não é El Salvador — não há um banho de sangue no Estado.

O crime organizado não entende a linguagem da suavidade. Só pode ser contido pela força. E é isto, dada a ideologia, que a esquerda não percebe ou não quer perceber. O governador da Bahia começa a jogar duro contra as máfias que atuam no Estado que dirige.  Ele é do PT, mas enfrenta uma realidade concreta.

Este ano, na pré-campanha e na campanha, o discurso da segurança tem, por enquanto, “dono” — Ronaldo Caiado. Neste campo, comparando o que o goiano e o presidente Lula da Silva fizeram, o primeiro tende a levar a melhor.

Caiado pode garantir direita no 2º turno

Uma campanha polarizada entre Lula da Silva, um profissional de primeira linha — dotado da astúcia dos intuitivos —, e Flávio Bolsonaro, que não tem experiência nacional, pode ser destrutiva para o segundo.

Por isso, se Ronaldo Caiado for retirado de campo — o que certamente não acontecerá —, longe de beneficiar, pode prejudicar toda as direitas, não apenas Flávio Bolsonaro.

Lula da Silva — repetindo: um político dotado de alta inteligência prática (e assessorado por técnicos de marketing do primeiro time, o que refina sua intuição) — pode esmagar o “imaturo” pré-candidato do PL.

Porém, se Ronaldo Caiado estiver no jogo, tudo pode ser muito diferente.

O governador de Goiás pode exibir o que fez na segurança, na saúde, na educação e no social. Mostrar que um Estado não muito rico fez — ou seja, obtendo resultados práticos — o que o governo federal deixou de fazer, apesar de contar com bilhões de reais.

Então, se Ronaldo Caiado sair da disputa — por falta de apoio de seu próprio partido (que agora decidiu oferecer-lhe apoio) —, Lula da Silva pode ser reeleito no primeiro turno.

Ficando no jogo, Ronaldo Caiado tanto pode ser eleito quanto pode ajudar outro candidato, como Flávio Bolsonaro, a derrotar o petista-chefe. 

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