O Jornal Opção sempre fez e faz questão de dizer a mesma coisa: o senador Wilder Morais, do PL, tem todo o direito de disputar mandato de governador, daqui a sete meses. O jornal frisa que se trata de um empresário vencedor e, até onde se sabe, decente. Seus negócios são da área privada e não se tem notícia de comércios com a área pública. Ele tem construtora, shoppings etc.

No momento, Wilder Morais comemora a “autorização” do presidiário Jair Bolsonaro — o ex-presidente da República transformou a Papudinha num escritório eleitoral (o que deveria ser proibido pelo Supremo Tribunal Federal) — para que dispute o governo de Goiás. Trata-se de um apoio e tanto. Porque Messias persiste como líder popular.

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Márcio Corrêa, prefeito de Anápolis: aliado de Daniel Vilela | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Jair Bolsonaro deu a Wilder Morais — que é mais wildista do que bolsonarista — um apoio entusiasmado? Não. Porque o ex-presidente entusiasma-se mesmo só com a possibilidade de eleger Gustavo Gayer, do PL, para senador.

Porque Gustavo Gayer, ao contrário de Wilder Morais, é um bolsonarista-raiz — inteiramente identificado com a ideologia e o projeto político dos Bolsonaros. O senador, pelo contrário, é um político relativamente moderado — é de direita, mas não de extrema direita, seara dos filhos de Messias.

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Magda Mofatto: a deputada está na base de Daniel Vilela | Foto: Câmara dos Deputados

Wilder Morais quer ser candidato a governador. Trata-se de um projeto pessoal, altamente pessoal, e não partidário. Porque o PL do Estado — leia-se prefeituras (basta ouvir Márcio Corrêa e Carlinhos do Mangão, prefeitos, respectivamente, de Anápolis e Novo Gama), Magda Mofatto, Daniel Agrobom e Gustavo Gayer (que talvez seja maior do que o PL em Goiás) — quer compor com o vice-governador Daniel Vilela, pré-candidato a governador de Goiás pelo MDB.

O projeto de Wilder Morais é, portanto, mais do campo pessoal do que campo partidário. Sim, há membros do PL que o apoiam, como os deputados estaduais Major Araújo e Eduardo Prado (conhecido como “Wildinho”). Mas a maioria não o apoia. Alguns podem até ser empurrados para apoiá-lo, ou melhor, podem fingir que o apoiam mas o cérebro, o coração e a alma estarão noutro lugar — ao lado de Daniel Vilela.

Daniel Agrobom: deputado deve deixar o PL e está na base de Daniel Vilela | Foto: Câmara dos Deputados

Veja-se o caso de Márcio Corrêa. O prefeito de Anápolis — cidade que tem o terceiro maior eleitorado de Goiás — entusiasma-se com Wilder Morais? Não. Sua ligação é com Daniel Vilela, de quem é aliado e amigo.

Seguramente, mesmo filiado ao PL, Márcio Corrêa não apoiará Wilder Morais. Embora sejam do mesmo partido, não são, a rigor, aliados. O prefeito de Anápolis poderá indicar algum de seus aliados para a chapa majoritária de Daniel Vilela? É possível.

O vereador Major Vitor Hugo — pré-candidato a deputado federal pelo PL — mantém diálogo aberto com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), Daniel Vilela e Márcio Corrêa. Sente-se bem na base governista. Mas poderá apoiar Wilder Morais? É provável.

Daniel Vilela, Carlinhos do Mangão e Joscilene Martins: PL com o postulante do MDB | Foto: Divulgação

Gustavo Gayer não tem entusiasmo algum com Wilder Morais. Tanto por considerá-lo eleitoralmente fraco quando por perceber que sua candidatura pode impedir sua vitória para senador.

Se o senador Vanderlan Cardoso for candidato à reeleição na base governista, e se Gustavo Gayer ficar ao lado de Wilder Morais — por injunção dos Bolsonaros —, a tendência é que o político de Senador Canedo seja reeleito.

Uma das principais lideranças do PL no Entorno de Brasília é o prefeito de Nova Gama, Carlinhos do Mangão. O gestor municipal já anunciou que apoiará Daniel Vilela. Porque, como avalia, o PL, desde sempre, esteve na base de Ronaldo Caiado e Daniel Vilela.

Eduardo Prado: apoiador de Wilder Morais | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Para Márcio Corrêa e Carlinhos do Mangão apoiar Daniel Vilela não é uma ruptura, e sim a continuidade de uma aliança.

Há vários outros (quase todos) prefeitos do PL que caminharão com Daniel Vilela. Porque têm mais a ver com Ronaldo Caiado e o emedebista do que com Wilder Morais. O prefeito de Buriti Alegre, Garibaldo Neto, ficará com o senador. Mais um ou dois não o deixarão de lado, mas sem grande entusiasmo.

Dois prefeitos do PL disseram ao Jornal Opção, em ocasiões diferentes, que Wilder Morais caminha para ser o Gustavo Mendanha de 2026. Quando visitar o interior de Goiás — sim, terá de descer do helicóptero (de onde parece observar o mundo) —, um Estado maior do que Cuba, Portugal e Israel juntos, será recebido por quem?

Garibaldo Neto e Wilder Morais: aliados | Foto: Divulgação

Uma campanha para governador é muito diferente de uma campanha para governador. Para senador, surfando na onda bolsonarista e tendo muito dinheiro para torrar, não é tão difícil ser eleito. Porém, numa disputa para o governo, o candidato precisa contar com bases sólidas em todos os municípios — o que o PL, o de Wilder Morais, não tem.

Citemos dois casos da eleição de 2024. Em Aparecida de Goiás, a campanha mais rica foi a do deputado federal Professor Alcides Ribeiro, apoiado por Wilder Morais. Começou em primeiro lugar, mas o peso do governador Ronaldo Caiado, de Daniel Vilela e de Gustavo Mendanha, ex-prefeito do município, fez a diferença. Tanto que o prefeito eleito, Leandro Vilela, é do MDB.

Vanderlan Cardoso: alternativa da base para o Senado| Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Em Goiânia, o candidato do PL, Fred Rodrigues, apoiado tanto por Gustavo Gayer quanto por Wilder Morais, chegou a ser o mais votado no primeiro turno.

Fred Rodrigues obteve 283.054 votos (31,14%) no primeiro turno. Sandro Mabel (União Brasil) conquistou 190.278 votos (27,66%).

Porém, no segundo turno — com a força da máquina e a aliança ampliada —, Sandro Mabel foi eleito, com 353.518 votos (55,53%). Fred Rodrigues ficou com 283.054 votos. Sandro Mabel ganhou 163.240 a mais no segundo turno. Fred Rodrigues levou apenas 68.801 votos a mais e perdeu. Porque ficou isolado, sem ganhar apoios novos. O PL tem a fama de não agregar.

Fred Rodrigues: perdeu para prefeito porque o PL não agregou | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Gustavo Gayer “planeja” compor com Daniel Vilela porque, inteligente como é, não quer ficar isolado como Professor Alcides e Fred Rodrigues. O deputado sabe como as campanhas contra a base governista são duras.

Exército eleitoral do PL fica com Daniel

Na semana passada, um deputado estadual perguntou para um repórter do Jornal Opção: “Quem perdeu com a possível candidatura de Wilder Morais a governador?”

A resposta só as urnas poderão responder com precisão. Mas é possível especular a partir do quadro político-eleitoral atual — quando Daniel Vilela lidera as pesquisas de intenção de voto de maneira folgada, com Marconi Perillo, do PSDB, em segundo lugar e Wilder Morais em terceiro.

A rigor, com “a” candidatura — possível candidatura — de Wilder Morais, ninguém ganhou nem perdeu nada. É preciso ficar de olho nas pesquisas de intenção de voto e, sobretudo, nas qualitativas.

A base governista perdeu Wilder Morais? Ora, como perder o que não se tinha? A base governista perdeu a base do PL? Não. Os prefeitos continuam, em sua maioria, com Daniel Vilela. Comenta-se que até os de Morrinhos (sempre foi ligado ao governador Ronaldo Caiado) e Jataí (tem história ao lado dos Vilelas, notadamente com Maguito Vilela) tendem a se aproximar do emedebista — que, daqui a 40 dias, assumirá o governo do Estado.

Há, claro, a possibilidade de que, se Wilder Morais realmente for candidato — há quem no PL não acredite nisto —, a disputa será encaminhada para o segundo turno? De fato, é possível. Mas Daniel Vilela deixará de ser o favorito para vencer no segundo turno? Tudo indica que não.

O que Wilder ganhou ao sugerir que tem o apoio de Jair Bolsonaro para ser candidato? O “apoio” do ex-presidente e, portanto, de setores do bolsonarismo. Mas o que realmente levou de novo? Nada, por enquanto. Qual exército eleitoral terá para a disputa de 2026? Talvez nem ele mesmo saiba. Porque parte substancial do PL irá com Daniel Vilela. O senador ficará com a legenda e o postulante do MDB ficará com a maioria de seus membros.

Mesmo o bolsonarismo, cuja força é inconteste, precisa de exército eleitoral para uma disputa do cargo de governador.

Marconi cairá para o terceiro lugar?

Apresenta-se, a partir de agora, uma hipótese, que, claro, precisa ser testada. Como? Observando as pesquisas dos próximos dois ou três meses. Wilder Morais poderá superar Marconi Perillo? É possível. Então, se isto acontecer, o tucano terá sido o grande prejudicado pela recente movimentação do senador do PL.

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Professor Alcides Perillo e Marconi Perillo: novos aliados | Foto: Divulgação

Se cair para o terceiro lugar, Marconi Perillo poderá ir, aos poucos, se desidratando. Se brincar, pode ser superado até pelo candidato do PT.

Se descer para o terceiro lugar, distanciando-se tanto de Daniel Vilela quanto de Wilder Morais, o tucano-chefe continuará no páreo ou irá para deputado federal? Só ele poderá dizer e, por certo, não o fará agora.

Marconi Perillo tende a mudar o discurso e bancar Aava Santiago para governadora? Quem sabe. Pode compor com o PT de Adriana Accorsi, Rubens Otoni, Olavo Noleto e Edward Madureira? É o que lhe resta. (O ex-governador poderá ser candidato na chapa de Wilder Morais? Resta saber se o PL aceita.)

Nos últimos tempos, guiado por Jardel Sebba e Jayme Rincón — seus principais articuladores, ao lado de Eliane Pinheiro e Itamar Leão —, Marconi Perillo está tentando adotar um discurso de direita. Sem perceber que, em Goiás, o espaço da direita está ocupadíssimo por Ronaldo Caiado e Gustavo Gayer. Então, como sabe quem aprecia história, uma tática equivocada por ser destrutiva para a estratégia.

Flavio Bolsonaro e Ronaldo Caiado e Gayer
Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Gustavo Gayer: permanecem aliados? | Fotos: Reproduções

Flávio Bolsonaro pode perder no 1º turno?

Política e matemática são irmãs. Por isso, sugere-se uma observação atenta dos números da eleição presidencial de 2026. Lula da Silva, do PT, venceu nos dois turnos.

Jair Bolsonaro estava no poder — era o presidente. Ainda assim, no primeiro turno, perdeu para Lula da Silva. O petista obteve 57.259.504 votos (48,43%) e o líder do PL conquistou 51.072.345 votos (43,20%).

No segundo turno, Lula da Silva foi eleito presidente com 60.345.999 votos (50,90%) e Jair Bolsonaro perdeu com 58.206.354 votos (49,10%). A diferença foi de 2.139.645 votos. Os candidatos mostraram força (o postulante da direita cresceu um pouco mais).

Quem é mais forte, em termos político-eleitorais: Jair Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro, o pré-candidato a presidente pelo PL em 2026? Claro que o primeiro.

Por isso, Flávio Bolsonaro deveria examinar, com o máximo de atenção, o resultado do pleito de 2022. Se agregar já no primeiro turno, buscando alianças nos Estados, poderá não ir para o segundo turno contra Lula da Silva, que, além de profissional, está no poder e operando para atrair parte significativa do Centrão e, até, do União Brasil.

Se “brigar” nos Estados, apoiando projetos não consistentes, como uma candidatura de Wilder Morais, Flávio Bolsonaro poderá entregar o ouro para Lula da Silva já no primeiro turno? É uma possibilidade. E quem vai apoiá-lo em Goiás, que conta com 5 milhões de eleitores (repetindo: Jair Bolsonaro perdeu em 2022 por uma diferença de 2,1 milhões de votos), na hipótese de segundo turno? Isto, claro, se for para o segundo turno.