A Arábia Saudita é uma ditadura? Das mais cruentas. Em tese, o príncipe Mohamed bin Salman deveria figurar na lista dos principais inimigos dos Estados Unidos.

As principais organizações terroristas do século 21 — a Al-Qaeda e o Estado Islâmico — surgiram, não por acaso, na sunita Arábia Saudita. O financiamento começou lá — até os grupos se tornarem autônomos. Mas nunca lhes faltaram armas nem dinheiro.

Em 2018, o colunista do “Washington Post” Jamal Khashoggi, de 59 anos, foi assassinado, em Istambul, na Turquia, por sauditas. A morte do jornalista de 59 anos teria sido autorizada por Mohamed bin Salman.

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Jamal Khashoggi e Mohamed bin Salman: o segundo autorizou o assassinado do primeiro | Foto: BBC News

Por que os Estados Unidos não consideram a brutal ditadura da Arábia Saudita como inimiga? Porque Mohamed bin Salman é um dos principais parceiros comerciais e políticos dos EUA. Por isso o presidente Donald Trump estende tapete vermelho para o “amigo” dos ianques.

Aos Estados Unidos, desde sempre, não importa se o país é uma ditadura ou se é governado por aiatolás. Para o país de Trump relevante mesmo é se são amigos ou inimigos.

De alguma maneira, o Irã xiita — também uma ditadura — é um pouco mais aberto do que a Arábia Saudita.

O atentado terrorista da al-Qaeda de 8 de Setembro de 2001 matou centenas de americanos do norte, o que, no governo do republicano George Walker Bush, resultou numa vingança implacável, que culminou com a morte do saudita (sunita) Osama bin Laden, no governo do democrata Barack Obama.

Síria, Venezuela e Cuba

Saudita, filho de exilados sírios, Ahmed Hussein al-Shar’a (Abu Mohammad al-Julani), presidente da Síria, pertenceu, durante anos, à al-Qaeda.

Mesmo tendo pertencido à al-Qaeda, Ahmed Hussein al-Shar’a não se tornou inimigo dos Estados Unidos. Pelo contrário, tornou-se aliado de Trump. Seu governo já começou a pôr as manguinhas de fora e tende a ser tão brutal quanto o de Bashar al-Assad.

Trump com Mohamed bin Salman e o presidente da Síria
Mohamed bin Salman, Donald Trump e Ahmed Hussein al-Shar’a: paixão por ditadores? | Foto: Reprodução

Os Estados Unidos vão se incomodar com a possível barbárie do governo de Ahmed Hussein al-Shar’a? Sob Trump, não. Por vários motivos. Dois deles: a Síria agora saiu da esfera de influência da Rússia de Vladimir Putin — que está ficando isolada no Oriente Médio — e se tornou aliada do país de Abraham Lincoln e Franklin D. Roosevelt. É o que conta.

Sob a presidência do ditador Nicolás Maduro, a Venezuela era, para os Estados Unidos, um “país do mal”.

Com Delcy Rodríguez na Presidência, apesar de divergências pontuais, a Venezuela se tornou um “país do bem”. Porque a economia do país, antes integrada à da Rússia e à da China, agora voltou ao domínio dos Estados Unidos.

O controle do petróleo da Venezuela — um dos maiores produtores globais — agora é dos Estados Unidos de Trump. Então, se a Venezuela continuar — ou não continuar — uma ditadura não terá a mínima importância. O que importa é mais a aliança econômica do que a questão política.

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Delcy Rodríguez: presidente da Venezuela e neo-trumpista | Foto: Reprodução

Ditadura comunista, implacável com a população e dissidentes, Cuba é um país pobre e, durante anos, foi mantido no balão de oxigênio por recursos da União Soviética (depois, da Rússia) e da Venezuela. Sem tais países, fornecedores de petróleo subsidiado, a nação dirigida por Miguel-Díaz Canel vai entrar em colapso. Se já não entrou.

Com Cuba em crise, e sem solução interna e sem apoios externos, os Estados Unidos nem precisarão invadi-la para retirar os comunistas do poder. Poderá transformar o país numa espécie de vassalo — assim como a Venezuela. O governante poderá ser o próprio Miguel-Diáz Canel, desde que submetido às diretrizes dos americanos do norte.

Rússia e armas nucleares

A Rússia “não” tem como ser atacada pelos Estados Unidos. Porque, como o país gerido por Vladimir Putin tem bombas atômicas, a guerra se tornaria, em questão de minutos, nuclear. Possivelmente. Seria uma carnificina sobretudo na Europa, que está saindo da esfera americana do norte, mas não tem escapatória; portanto, terá de voltar — e agachada.

Vladimir Putin: destruidor da Ucrânia | Foto: Reprodução

Ainda assim, os Estados Unidos, sob Trump, move uma guerra indireta à Rússia. No Oriente Médio, a Síria já se afastou da Rússia, se tornando mais um aliado do país de William Faulkner e Toni Morrison na região.

Agora, a Rússia deve perder — talvez já tenha perdido — seu aliado mais poderoso no Oriente Médio, o Irã. Era um aliado econômico, militar e político. A Rússia tinha dois pés solidamente plantados na região e agora não tem nenhum aliado estratégico. Os Estados Unidos vão reinar absolutos na região.

Irã, aiatolás e questão nuclear

O ataque americano do norte ao Irã tem a ver com a insatisfação americana com a ditadura dos aiatolás, tão cruel quanto a da Arábia Saudita? Convém lembrar que ditaduras não incomodam os Estados Unidos — que foram aliados da brasileira por 21 anos e da chilena de Augusto Pinochet até sua queda.

Não há uma instituição séria, ao menos até o momento, que sustente que o Irã estava próximo de produzir bombas atômicas. Mas parece evidente que tinha interesse em fabricá-las. Tanto para se fortalecer contra Israel — espécie de estadosunidozinhos do Oriente Médio — quanto em relação a outros países árabes, com a Arábia Saudita na comissão de frente (os xiitas do Irã não se entendem com os sunitas sauditas).

Ali Khamenei: morreu por não se submeter aos EUA | Foto: AP Photo/Office of the Iranian Supreme Leader

Em crise permanente com a Índia, o Paquistão tem bomba atômica, assim como o rival. Por que os Estados Unidos toleram que um caldeirão à beira da explosão tenha armas nucleares? Simples: apesar de ser corrupto, e de malversar fundos americanos, o Paquistão é aliado do país de Hemingway e Faulkner.

A economia e a política do Paquistão são largamente moldadas pelos Estados Unidos. Se há ditadura, se o regime é cruento, não importa. O que vale mesmo é que se trata de um aliado estratégico importante. Além do que é um “dique” contra a Índia, que é considerada pelos americanos como “muito independente” e pertence ao Brics — ao qual China e Rússia são parceiras.

O Irã, além de ficar numa área estratégica — com o Estreito de Osmuz e muito mais —, é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Era um país “russo” e agora se tornará “americano do norte”.

A velha Pérsia vai continuar xiita. Se aparecer um aiatolá pró-americano do norte será alçado ao poder. Serve também um militar da Guarda Revolucionária. Só não pode ser pró-Rússia e pró-China.

Eis, então, o busílis da questão. O problema de Israel até pode ser o Irã. Porque de lá saía o financiamento ao Hamas e ao Hezbollah, e outros grupos terroristas, para atacar o país dos judeus.

O Irã pode ser um problema para os Estados Unidos por causa do petróleo, mas não tem como atacar o país de Emily Dickinson e Joyce Carol Oates. Não é um adversário à altura da nação de Trump.

A guerra entre Estados Unidos e China

Na verdade, o Irã e a Venezuela, dois produtores de petróleo — que move o mundo inteiro (e por muito tempo será assim) —, são alvos da nova estratégia dos Estados Unidos em relação à China.

Livro crucial para entender as disputas entre Estados Unidos e China | Foto: Jornal Opção

As elites americanas retiraram os democratas do poder e lá colocaram Donald Trump. O republicano esbravejou… e nada. Os chineses continuaram avançando. Os bilionários mexeram os pauzinhos e devolveram o poder aos democratas de Joe Biden.

Os chineses continuaram avançando, ameaçando a hegemonia política e, sobretudo, econômica dos Estados Unidos. Então, as elites ianques — inclusive as tecnológicas (daí a entrada em cena de Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos) — mais uma vez escantearam os democratas e reconvocaram Trump.

Se no primeiro governo assistiu-se um Trump isolacionista, no segundo governo houve uma drástica mudança de rumos. Os Estados Unidos voltaram a ser intervencionistas — como provam os casos da Venezuela e do Irã.

Agora, Trump decidiu enfrentar a China no campo econômico mas com o uso de tarifas e armas.

Graham Allison, professor de Harvard: guerra à vista entre China e EUA | Foto: Reprodução

Na América Latina afastou do campo da nação de Xi Jinping a Venezuela — que tem imensas reservas petrolíferas. No Oriente Médio, sem o Irã, a China estará isolada. Os dois maiores produtores de petróleo da região, Arábia Saudita e Irã, ficarão sob controle, relativo controle, do país de Theodore Roosevelt.

A China vinha travando uma guerra meramente comercial com os Estados Unidos e ganhava mais do que perdia. O jogo dos comunistas é quase sempre pesado, mas a China, no contexto global, passou a usar o soft power. Além de ser um grande importador e exportador, empresta muito dinheiro e está fazendo investimentos em vários países.

Mesmo pressionando, os Estados Unidos vinham enfrentando a China de maneira, digamos, olímpica. Quando percebeu que o jogo era bom para os chineses, mudou de rumo. Por isso decidiu cercar e tomar alguns aliados da China.

O objetivo de Trump é isolar a China — assim como a Rússia. Para tanto, está usando armas letais. Deixou a conversa mole de lado.

A nova política dos Estados Unidos — geopolítica — vai segurar a China? Talvez não. Mas o cerco político pode retardar o avanço chinês. O país de Billie Holiday e Ella Fitzgerald quer continuar na liderança global.

O professor de Harvard Graham Allison diz que potências dominantes e emergentes tendem a ir à guerra. Ele estudou 16 casos e, em 12, houve batalhas destrutivas. Trump está reduzindo o espaço dos chineses. No caso de uma guerra, estará em melhores condições de vencer, por certo.