A crise do petróleo e do gás vai abalar a economia mundial… a 3ª Guerra é iminente?
21 março 2026 às 21h00

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Há quem postule que a guerra dos Estados Unidos e Israel é uma espécie de Flu + Vasco contra o Fla. Por isso, há torcedores de um lado e de outro. Mas vale a pena conferir o que dizem o economista Jeffrey Sachs, professor de Colúmbia, e o investidor Ray Dalio. Nenhum deles tem um grama de esquerdismo no cérebro.
A reportagem “Jeffrey Sachs diz que EUA e Israel subestimaram o Irã e alerta para fisco de crise global” saiu no Brasil 247, no sábado, 14. O artigo “Estudei 500 anos de história e temo estar começando a fase mais perigosa”, de Ray Dalio, saiu na “Fortune” e foi publicado no Brasil pelo Infomoney, na mesma data.
Há duas crises: a geopolítica — a batalha no Irã e em outros países do Oriente Médio — e a econômica, que está se tornando internacional, em decorrência da guerra.
Sachs sublinha que a guerra no Oriente Médio não deriva de negociações frustradas, e sim de ataques bélicos contra o Irã. “O Irã tentou negociar duas vezes. Nas duas vezes foi bombardeado por Israel e pelos Estados Unidos.”
O professor-doutor de Columbia, um dos mais prestigiosos centros universitários globais, enfatiza que “o Irã está sob um ataque absolutamente brutal. Está sob bombardeio maciço. Os Estados Unidos e Israel estão destruindo infraestrutura, assassinaram o pai [Ali Kamenei] e líderes do governo iraniano. Estão matando milhares de pessoas”.

A guerra pode gestar uma crise econômica global. “É um desastre para os Estados Unidos. É um desastre para o mundo inteiro. Os Estados Unidos e Israel jogaram o mundo inteiro em turbulência, talvez em uma guerra mundial”, pontua Sachs.
Forte instabilidade energética
Para Sachs, a luta contra o Irã “foi [é] um movimento violento e extremamente mal pensado desses dois países, e agora estamos sofrendo as consequências”.
Mesmo que parcial, o fechamento do Estreito de Ormuz — rota marítima crucial para o transporte de petróleo e gás — já está provocando, de acordo com Sachs, “forte instabilidade energética”.
“Estamos vendo interrupções massivas no fornecimento de petróleo. Apenas navios-tanques estão passando pelo estreito de Ormuz, aqueles que o Irã permite passar, como para a China e, segundo relatos, para a Índia”, assinala o mestre de Columbia.
Um dos motivos que levou à queda da ditadura civil-militar no Brasil foi o choque da crise dos preços (em alta) do petróleo — o que contribuiu para derrubar o ciclo de amplo crescimento econômico.
Sachs corrobora o que se disse acima: “A história mostrou, especialmente nos anos 1970, quando houve duas grandes interrupções no fornecimento de petróleo, que as consequências para a economia mundial são extremamente severas e chegam rapidamente”.

Portanto, insiste o economista, “estamos caminhando para uma crise global muito significativa”. Nos Estados Unidos, “se os preços da gasolina subirem, os salários caírem e os empregos desaparecerem, a oposição crescerá ainda mais”, avalia Sachs.
Depois do ataque ao Irã, com Israel bombardeando também o Líbano, se terá paz no Oriente Médio? Sachs, um dos mais experimentados economistas dos Estados Unidos, postula que não.
Veja-se o caso do Iraque, que hoje é governado por xiitas. Há sempre o risco de ressurgência de radicais, com atos terroristas individuais ou mesmo incentivados por Estados. Há aliados dos Estados Unidos que são aliados de Israel à força, mas sem qualquer empatia.
A derrocada dos aiatolás reduzirá a força dos inimigos de Israel no Oriente Médio, mas não poderá diminuir os inimigos. Arábia Saudita, por causa da aliança com os Estados Unidos, mantém relacionamento relativamente cordial com Israel. Mas, a rigor, não é um aliado. Sobretudo, não é um “amigo”. É, por certo, um “inimigo cordial”.
Por sinal, parte dos americanos sugere que a guerra contra o Irã é mais de Israel e que os Estados Unidos não deveriam participar dela.
A derrocada global, segundo Day Dalio
O artigo de Ray Dalio é interessantíssimo — parece, aqui e ali, ecoar as ideias do livro “A Armadilha de Tucídides”, de Graham Allison, professor da Harvard.
Usando o que chama de “história aplicada”, Graham Allison examinou 16 casos de conflitos entre potências hegemônicas e potências emergentes. O pesquisador conta que, em 12 casos, houve guerra de destruição. Estados Unidos e China seguirão pelo mesmo caminho? É possível.

Mas o professor de Harvard sugere caminhos para evitar uma batalha que poderá arrasar o mundo. Mas ele admite que há uma crise, geopolítica e econômica, entre as duas nações que pode ser incontornável.
Ray Dalio afirma que estudou mais de 500 anos de história para entender se fatos que, de maneira ampla ou não, se “repetem”. As ligeiras diferenças revelam um padrão.
“O que encontrei é que todas as ordens monetárias, ordens políticas sobem, evoluem e colapsam em um padrão recorrente que chamo de ‘Grande Ciclo’, normalmente com duração de cerca de 75 anos, com variação de aproximadamente 30 anos para mais ou para menos”, diz Ray Dalio.
Os tempos vindouros, adverte o investidor, “se parecerão mais com o turbulento período anterior a 1945 do que com o que vivemos desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.
“A guerra já matou 2 mil pessoas, a maioria no Irã, e gerou a maior disrupção no fornecimento de petróleo de todos os tempos”, frisa o investidor.
O livro “Princípios Para Lidar com a Nova Ordem Mundial”, de Ray Dalio, lista seis estágios do que chama de “Grande Ciclo”.
“O estágio 6 é o colapso, o período de grande desordem. O estágio 5 é o que o antecede imediatamente. É onde estamos agora”, frisa o investidor e pesquisador.
Ray Dalio aponta os sinais que sugerem que o mundo está saindo do estágio cinco para o seis.
1
“Dívidas públicas grandes e em rápida elevação e conflitos geopolíticos que geram preocupações com o valor e a segurança do dinheiro, especialmente da moeda de reserva, o que impulsiona um movimento de saída das moedas fiduciárias em direção ao ouro.”
2
“Grandes desigualdades de renda, riqueza e valores dentro dos países, que levam à ascensão do populismo de direita e do populismo de esquerda e a diferença inconciliáveis, que não podem ser resolvidas com compromissos e Estado de Direito.”
3
“A transição de uma ordem mundial com uma potência dominante e relativa paz para uma ordem mundial marcada por conflito entre grandes potências.”
Ray Dalio diz que não está otimista, “considerando a natureza humana como ela é”. Mas sugere que “nada está predestinado. Existe alguma chance de que nossos líderes, individual e coletivamente, não entrem em confronto e consigam unir as pessoas para fazer as coisas difíceis e inteligentes necessárias para lidar com esses desafios bem o suficiente para contrariar as probabilidades”.
Terceira Guerra Mundial é iminente?
Caminha-se para a Terceira Guerra Mundial? Na verdade, a guerra comercial está em curso, notadamente entre a China e os Estados Unidos, mas também com coadjuvantes, como a Rússia, o Brasil e os principais países europeus (Alemanha, Inglaterra, França e Itália).

Uma guerra contra o Irã, com poder de fogo não comparável ao de Israel e, sobretudo, aos dos Estados Unidos, é uma coisa. Porém, uma guerra contra a China, que teria o apoio da Rússia — duas potências nucleares —, é outra coisa bem diferente. Seria uma batalha de destruição total e, de cara, a Europa poderia ser totalmente destruída.
Por incrível que possa parecer, é o arsenal nuclear dos Estados Unidos — certamente, o mais poderoso — e da China, assim como o da Rússia, que podem impedir uma batalha total. Porque uma guerra de destruição em massa não interessa a ninguém.
Uma guerra nuclear, entre as potências dominantes, pode não ter vitoriosos, e sim só derrotados. Os escombros poderão ser gerais. Por isso, uma Terceira Guerra Mundial é até possível, mas há a possibilidade — não se fala de certeza — de que seja com mísseis e bombas letais, mas não nucleares.
Mas o recado dos Estados Unidos está dado, e é para a China: “Estamos preparados para tudo, inclusive para a guerra”. O recado da China talvez seja: “Estamos preparados para a guerra, mas não queremos iniciá-la”.
A China opera, na verdade, em outra vibe: quer vencer os Estados Unidos no campo da economia. Daí sua aposta no investimento em tecnologia de primeira linha. Os automóveis elétricos são apenas a face mais visível.
Em termos de guerra comercial, apesar da incontestável força dos Estados Unidos, a China de Xi Jinping vem acumulando pequenas vitórias — que vão se tornar médias e, depois, grandes. O país de Donald Trump opera para travar seu avanço. Pela economia, tudo indica, não dará pé. Então, irá às armas? É possível. É a tal armadilha de Tucídides.

