O sincretismo da poética de Augusto dos Anjos
21 fevereiro 2026 às 18h44

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Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima
Sofro acelaradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!
……………………………………………………..
Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto
(Augusto dos Anjos)
Turbilhão teológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!
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Sistematizo, soluçando, o Inferno…
E trago em mim, num sincronismo eterno
A fórmula de todos os destinos!
(Augusto dos Anjos)
Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
……………………………………………………………
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógrama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca destra forte! (Augusto dos Anjos)
Augusto dos Anjos é um poeta excepcional, incomparável na Literatura Brasileira. Sua obra é a soma do Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo e de outros ismos da segunda metade do século XIX e início do século XX. Por ser considerado o poeta do “mau gosto”, do escarro, dos vermes, do feio, do grotesco, do hediondo, sua obra apresenta traços do Expressionismo (movimento vanguardista surgido na Alemanha em 1910) sem que, no entanto, tenha conhecido os preceitos dessa tendência da Vanguarda Europeia. Os temas, igualmente, são inquietantes e expressionistas: a decrepitude dos cadáveres, os vermes, a podridão, as substâncias químicas que compõem e decompõem o corpo humano, a prostituta, o sêmen, a ingratidão, a traição, o pior da existência, as dores do mundo.
Seus textos chocam pela agressividade do vocabulário, pela interpretação dramática e angustiante da matéria, da existência, do homem, da vida, do cosmos e de tudo.
A poesia de Augusto dos Anjos expressa a dor de ser dos simbolistas; e o negativismo, os anseios e angústias existenciais dos realistas. Sua sensibilidade está toda voltada para a dor universal. Os estudiosos já apontaram, aí, ecos da doutrina budista, retomada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), autor de Dores do Mundo e O Mundo Como Vontade e Representação. Este filósofo, em termos simples, defende que a vida é sofrimento e este pode ser abolido com a cessação dos renascimentos e absorção do indivíduo no Nirvana: “No alheamento da obscura forma humana,/De que, pensando, me desencarcero, /Foi que eu, num grito de emoção, sincero/Encontrei, afinal, o meu Nirvana!/Nessa manumissão schopenhauereana,/Onde a Vida do humano aspecto fero/Se desarraiga, eu, feito força, impero/Na imanência da Ideia Soberana!/Destruída a sensação que oriunda fora/Do tato – íntima antena aferidora/Destas tegumentárias mãos plebeias”-(ANJOS, Augusto, 1997, p. 171) (Todas as citações de poemas desse estudo sobre Augusto dos Anjos foram retirados de: ANJOS, HOUAISS, Antônio. Augusto dos Anjos. Poesia. Rio de Janeiro, Agir. 1968.)
Nirvana no Budismo é a extinção da vontade individual e a absorção do espírito do universo; é estado de ausência total de sofrimento. No soneto acima, denominado O Meu Nirvana, o eu lírico afirma que encontrou no seu Nirvana a paz e a plenitude a que se chega por uma evasão de si, “num grito de emoção”. E, no último terceto conclui que: “Gozo o prazer, que os anos não carcomem, / De haver trocado a minha forma de homem / Pela imortalidade das Ideias!”. Com estes versos declara que encontrou sua realização, sua plenitude na Sabedoria.
A poética de Augusto dos Anjos reflete a Filosofia e a Ciência do final do século XIX. Para este poeta não há Deus nem esperança, há apenas a supremacia da ciência; e, o ser humano, as energias que o geraram, as substâncias, a matéria de que ele é feito (células, sangue, carne, instinto), são arrastadas para a decomposição, para a podridão, para o mal, para o fim e para o nada.
Porém, o “nada” decantado por Augusto dos Anjos não representa apenas o fim da vida, mas também, uma outra face do ser que nos lembra as palavras de Michel Zeraffa quando diz: “O nada é a outra face do ser, e a morte a outra face da vida, esta não pode ser recusada, nem evitada”. (ZERAFFA, M. 1971 p. 287). Desta maneira, de acordo com o poeta, fatalmente o ser humano, desde o momento da epigênese, está condenado às dores da existência e fadado ao nada. Augusto dos Anjos não nega que o homem é um ser que caminha para a morte e que o verme é – este operário das ruínas – / Que o sangue podre das carnificinas / Come, e à vida em geral declara guerra. O ser vivo é condenado à decomposição da matéria.
A poesia do autor de EU é marcada pela união de duas concepções de mundo distintas: de um lado, a dor cósmica, que busca o sentido da existência humana; de outro, a objetividade do átomo, a experiência físico-química.
Augusto dos Anjos é um poeta que não se filiou a nenhuma Escola, mas sua poesia tem a objetividade, o positivismo e o pessimismo dos realistas; o cientificismo e o determinismo dos naturalistas; uma preocupação com a forma quase que parnasiana; o esoterismo e ontologismo dos simbolistas, além de nuances expressionistas e outros traços estéticos que anteciparam a modernidade. A sua poesia antilírica, antipoética, isenta de sentimentalismo, abriu discussão sobre os conceitos da “boa poesia”, e preparou o terreno para a grande renovação modernista.
Este poeta utilizou uma poesia formalmente trabalhada, em linguagem cientificista-naturalista e, ao mesmo tempo, assinalada por uma popularidade acima das expectativas. O que mais aproximou o autor de EU da grande massa de leitores foi sua temática em torno das incertezas do século XX, do medo da guerra, sua angústia em face de problemas e distúrbios pessoais e seu pessimismo schopenhauereano.
Augusto dos Anjos foi incluído numa modalidade de poetas chamados, há um tempo, cientificistas e filosofantes. “A asserção é válida, enquanto se compreenda que, por cientificista, não se quer senão designar quem se volte para as questões científicas, sem, entretanto, imbuir-se do seu método, em que o raciocínio analógico, simbólico, alógico, emotivo e afetivo deve, na medida do possível, ser neutralizado ou pelo menos contra-regrado, aferido, experimentado: nesse sentido, Augusto dos Anjos foi o contrário de um cientista; foi um cientificista. (HOUAISS, a. 1968 p. 9).
Este autor é um vate que registrou poeticamente seu tempo, sua realidade, seu mundo. Através de fortes imagens, poéticas e antipoéticas, não tiveram medo de revelar a realidade do homem que conheceu. Para tanto, usou a Ciência, a Filosofia, a Arte e a própria experiência de vida. Deste conjunto, nasceu o EU e outras poesias, com seus textos densos, profundissimamente hipocondríacos, tensos, doloridos, mas, antes de tudo, verdadeiros, realistas.
Dentro desta óptica reveladora do homem e do mundo, Augusto desnudou um universo de imagens degradantes e hediondas relativas à cidade. O poeta vivendo no início do século XX presenciou o fenômeno das grandes aglomerações humanas da cidade que, além de seu crescimento normal, começava a inchar-se com as populações rurais que procuravam melhores condições de vida, nos centros mais populosos. Desta forma, assistiu ao movimento migratório que teve graves consequências nos anos seguintes e que se estende aos nossos dias.
João Pessoa, Recife, Rio de Janeiro foram as cidades grandes assistidas pelo poeta que, captou seu mundo, principalmente o noturno e registrou suas paisagens degradadas, os prostíbulos, as estações rodoviárias, as tavernas e os cemitérios. No poema Os Doentes, o eu lírico exprime: “Como uma cascavel que se enroscava, /A cidade dos lázaros dormia… /Somente, na metrópole vazia, / Minha cabeça autônoma pensava! (…) (Idem p. 106) Dormia embaixo, com a promíscua véstia /No embotamento crasso dos sentidos, /A comunhão dos homens reunidos/Pela camaradagem da moléstia. (…) (Idem p. 108) Era a hora em que arrastados pelos ventos, /Os fantasmas hamléticos dispersos/Atiram na consciência dos perversos/A sombra dos remorsos famulentos”. (Idem p. 111)
Este é o poema mais longo e talvez o mais importante de Augusto dos Anjos. O vocabulário é complexo e muito científico. Existe no poema uma narrativa: é o poeta percorrendo a noite, até o amanhecer, os lugares doentes de uma cidade.
Em Os Doentes estão representados todos os marginalizados sociais, o mendigo, a prostituta, o índio e o negro. Para todos eles, é usada à mesma imagem: doentes, portadores de moléstia incurável e repugnante, como os Lázaros que a sociedade esconde. É uma fotografia horrenda, cruel, antilírica, porém, verdadeira. É o retrato realista dessa Sociedade da hipocrisia, da ganância, do egoísmo e do lucro. “O mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e em diabos atormentadores” (SCHOPENHAUER. Dores do Mundo. Rio de Janeiro, Ediouro. s/d. p. 23). Esta é uma verdade que nem sempre a poesia quer expressar. Augusto dos Anjos não teve medo de mostrar o mundo sem máscaras, sem véus, sem cortinas. O autor de EU e outras poesias desvela científica e ontologicamente a sociedade e a existência humana.
A POESIA DE AUGUSTO DOS ANJOS
A primeira condição para compreender a obra de Augusto dos Anjos é mergulhar no seu discurso poético, no “discurso-rio”, na sua linguagem científica, naturalista, simbolista e ontológica. O leitor deve penetrar no reino desta linguagem poética, buscar os seus sentidos denotativos e conotativos e descobrir novos mundos, novas interpretações. A poesia de Augusto dos Anjos exige atenção, conhecimento e sensibilidade. Seus textos são únicos, originais e conduzem os leitores a um mundo de verdades doloridas que os otimistas ocultam. Observe o soneto “Vítimas do Dualismo” (ANJOS, Augusto, 1997, p. 190): “ Ser miserável dentre os miseráveis/- Carrego em minhas células sombrias/Antagonismos irreconciliáveis/E as mais opostas idiosincrasias!// Muito mais cedo do que o imagináveis/Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias/Cóleras dos dualismos implacáveis/E à gula negra das antinomias!//Psique biforme, O Céu e o Inferno absorvo…/Criação há um tempo escura e cor-de-rosa,/Feita dos mais variáveis elementos,/Ceva-se em minha carne, como um corvo,A simultaneidade ultramonstruosa/De todos os contrastes famulentos!”(Idem p.190)
Perceba que o eu lírico é pessimista e angustiado, encontra dentro de si contrastes terríveis: “O Céu e o Inferno absorvo…/ Criação há um tempo escura e cor-de-rosa”. Atente para o contraste que se estabelece entre o inferno x céu, entre o escuro e cor-de-rosa; observe ainda como o poeta se declara mais ou menos impotente para atenuar o sofrimento decorrente disso: “Ceva-se a minha carne, como um corvo, / A simultaneidade...”, onde a expressão cevar-se é extremamente forte; fazem eco, nela, ideias de alimentação, de devoração. O poeta se declara pasto da simultaneidade, sente-se devorado, aniquilado pelo dualismo. Observe, então, a propriedade e a justeza do título do soneto.
Toda essa confusão pessimista começa já no primeiro verso, quando o locutor se declara “Ser miserável dentre os miseráveis”. Nos versos seguintes, o texto não faz mais do que justificar e explicar essa confissão de ser miserável, desiludido, sofredor.
Tudo que aqui constatamos aponta que o primeiro traço característico da poesia de Augusto dos Anjos é o pessimismo: o poeta se vê de forma pessimista, e se vê no mundo de forma pessimista.
Por outro lado, uma vez constatado o pessimismo da obra deste poeta precisamos ver ainda como este sentimento pessimista se manifesta. Para isso, vamos retomar o texto e analisá-lo: explicando sua qualidade de ser o mais miserável de todos dos seres, o poeta localiza em suas células a causa disto (Carrego em minhas células sombrias antagonismos irreconciliáveis e as mais opostas idiossincrasias).
Observe que, num poema, falar-se de células e de idiossincrasias não é muito comum. Essas palavras costumam aparecer apenas em textos de cunho científico, que tratem, por exemplo, de biologia. Assim, sua presença num texto literário, mais especificamente num poema, é muito rara.
Já na segunda estrofe do poema, ainda falando com amargura de sua alma, o poeta liga-a as ideias de dualismo e de antinomias. Se a palavra alma foi frequentemente empregada ao longo de toda a poesia romântica, a inovação de Augusto dos Anjos consiste em relacionar alma a um vocabulário típico da filosofia, como dualismo e antinomia.
Observe ainda como dualismo e antinomia, substantivos abstratos geralmente exclusivos de textos filosóficos e dissertativos, estão relacionados no texto a cóleras, implacáveis e gula negra.
Tudo isso que há neste soneto de Augusto dos Anjos aponta outro de seus traços característicos: seu pessimismo é expresso através de uma linguagem científica, o que revela a adesão do poeta ao cientificismo tão em moda no fim do século passado que influenciou a literatura realista e naturalista.
Assim, a poesia de Augusto dos Anjos nos revela-nos uma concepção de homem bastante materialista: o homem é fruto da evolução natural, provém de formas inferiores de vida. Como se vê, o poeta adere totalmente a uma teoria evolucionista. O soneto que se segue, “Mater Originalis”, ilustra bem o que acabamos de afirmar: “Forma vermicular desconhecida/Que estacionaste, mísera e mofina, /Como quase impalpável gelatina,/Nos estados prodrômicos da vida;/O hierofante que leu a minha sina/Ignorante é de que és, talvez, nascida/Dessa homogeneidade indefinida/que o insigne Herbert Spencer nos ensina. //Nenhuma ignota união ou nenhum nexo/À contingência orgânica do sexo/A tua estacionária alma perdeu… //Ah! De ti foi que, autônoma e sem normas, /Oh! Mãe original das outras formas, /A minha forma lúgubre nasceu!” / (Idem p. 101)
Costuma-se ver, na poesia pessimista e científica de Augusto dos Anjos, influências de dois poetas: do português Antero de Quental e do simbolista brasileiro Cruz e Sousa. O radicalismo com que Augusto dos Anjos leva avante seu projeto de poesia científica é tal que, no soneto Mater Originalis, ele menciona diretamente um dos formuladores das teorias filosóficas e evolucionistas que ele abraça: Herbert Spencer.
Quando Herbet Spencer (1820-1903), um engenheiro inglês que construía estradas de ferro, publicou, em 1857, seu primeiro texto importante, um artigo intitulado O Progresso: Sua Lei e Sua Causa, as ideias evolucionistas já estavam difundidas na Europa. Várias obras científicas, principalmente no campo da Geologia e da Biologia, apresentavam o princípio da evolução como a hipótese mais plausível para explicar o desenvolvimento da vida sobre a Terra. Spencer ficou conhecido como o fundador do “Darwinismo Social”. Mas, na realidade, o engenheiro inglês se antecipou à teoria evolucionista de Charles Darwin, ao desenvolver a tese de que toda realidade evolui à semelhança de organismos vivos.
Envolvido pelas luzes da ciência, Augusto dos Anjos faz constante menção a elementos químicos e utiliza um vocabulário médico que reforça ainda mais o cientificismo e o materialismo desse poeta, tão original dentro da tradição literária brasileira. Observe agora o clássico soneto “Psicologia de um vencido”: “Eu, filho do carbono e do amoníaco,/Monstro de escuridão e rutilância, /Sofro, desde a epigênese da infância,/A influência má dos signos do zodíaco.//Profundissimamente hipocondríaco,/Este ambiente me causa repugnância…/Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/Que se escapa da boca de um cardíaco.//Já o verme – este operário das ruínas – /Que o sangue podre das carnificinas/Come, e à vida em geral declara guerra,//Anda a espreitar meus olhos para roê-los,/E há de deixar-me apenas os cabelos,/Na frialdade inorgânica da terra!(Idem p. 82)
Verifique que a linguagem deste poema surpreende e modifica uma tradição poética brasileira, construída em grande parte com base em sentimentalismos, delicadezas, fantasias e sonhos. O desenvolvimento da ciência no final do século XIX vulgarizou muitos termos específicos da Química, da Física e da Biologia. Neste poema percebe-se vestígio deste cientificismo da época nos vocábulos usados pelo poeta como: carbono, amoníaco, epigênese, hipocondríaco, verme. Estas palavras aqui empregadas poeticamente por Augusto dos Anjos, tradicionalmente, seriam consideradas antipoéticas.
O poema acima pode ser dividido em duas partes: a primeira, que trata do próprio eu lírico, e a segunda que trata da morte. O eu lírico encara a vida e a si mesmo de forma pessimista, pois entende que o homem é matéria, química, e tudo caminha para destruição.
Além de ser matéria que se decompõe, o ser humano é um ser antitético por natureza, filho do carbono (preto) e do amoníaco (branco). O homem, o animal racional, é um ser que é capaz de construir o mundo e destruí-lo; o homem é um dos animais mais perigosos e traiçoeiros; é o que deveria ser humano, mas é o mais desumano, às vezes.
O eu poético acrescenta ainda, que se sente um monstro de escuridão e rutilância, enfatizando com esta antítese, as contradições do ser humano. O segundo verso do soneto pode sugerir, também, o fato de o “ser” – que deveria ser humano, demasiadamente humano – apresentar-se muitas vezes como um animal vil. E, por outro lado, pode sugerir com a escuridão e a rutilância, a incapacidade do homem de conhecer a si mesmo, uma vez que os conhecimentos sobre a alma são ainda vagos e, por mais que a ciência esteja avançada, pouco se sabe sobre a Psiquê e muito é preciso ser descoberto.
A morte é enfocada como um fato natural, como sendo o destino final e fatal de toda forma de vida. Cabe ressaltar também a crueza com que a morte é tratada, representada pela imagem do verme a comer o sangue podre das carnificinas.
A concepção de vida latente neste poema diverge da ideia aceita por todas as religiões, uma vez que, no texto, o homem é visto exclusivamente como matéria destinada à decomposição. Não se aceita o espírito ou a alma como componente do ser humano, dogma de todas as religiões.
O título Psicologia de um vencido é uma espécie de síntese das ideias do soneto. Nele temos a recorrência da visão de mundo do poeta através das imagens e palavras antipoéticas. É também, um sugestivo autorretrato expressionista, que se assemelha a uma caricatura com imagens distorcidas, rompendo com os limites estéticos do belo e do feio, numa postura típica dos melhores expressionistas.
Neste soneto, o eu lírico sugere a expressão da angústia de um ser humano; mas a pessoa não tem os traços da face bem definidos, tem um rosto distorcido, uma máscara, uma caricatura; é um sujeito que nasceu sob a influência do zodíaco, é um hipocondríaco nos braços da morte.
Embora o título contenha a palavra Psicologia, o poema detém-se a tratar da matéria, das substâncias químicas que formam o eu, evitando maior introspecção. Apesar disso, é possível constatar o negativismo interior do eu lírico, que se considera “vencido” em virtude da fragilidade física do ser humano e da força implacável da morte.
Deve ser notado, ainda, que o poema é centrado no eu, mas, apesar disso, suas ideias são universalizantes uma vez que, o poeta retrata a condição humana, a constituição, a fragilidade física do “ser”, a fatalidade e a postura inexorável da morte.
Na segunda estrofe, o poeta utiliza a palavra ânsia, que significa “aflição”, “angústia”. Porém, esta sensação para o eu lírico, reduz-se a uma manifestação física, uma vez que é comparada ao estado de um cardíaco, provocada pela extrema agonia do Nihilismo. Segundo Nicola Abbagnano: NIILISMO (in. Nihilism; fr. Nihilisme, ai. Nihilismus; it. Nichílismo). Termo usado na maioria das vezes com intuito polêmico, para designar doutrinas que se recusam a reconhecer realidades ou valores cuja admissão é considerada importante. (ABBAGNANO, Nicola. (1992) p. 712).
O negativismo e niilismo pode ser entendido de maneira geral como (Redução a nada; aniquilamento. Descrença absoluta. Filos. Doutrina segundo a qual nada existe de absoluto. Ét. Doutrina segundo a qual não há verdade moral, nem hierarquia de valores) (FERREIRA, A. B. H. 1990 p. 973) são traços do Realismo; a visão materialista e o cientificismo expressos no poema são marcas do Naturalismo de Augusto dos Anjos; enquanto a visão mórbida, pessimista, decadentista do eu lírico sobre a vida são características do Simbolismo.
Este soneto tem uma mensagem de puro pessimismo, mas poderíamos considerar as duas últimas estrofes mais enfáticas, mais sem expectativas, já que o eu poético se vê em processo de deterioração, vislumbrando nada mais que a morte para seu futuro. Seguindo essa mesma linha negativista, o soneto “Versos Íntimos” acrescenta que: “Vês! Ninguém assistiu ao formidável/Enterro de tua última quimera. /Somente a Ingratidão – esta pantera /Foi tua companheira inseparável! //Acostuma-te à lama que te espera! /O homem, que, nesta terra miserável, /Mora, entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera//Toma um fósforo. Acende teu cigarro! /O beijo, amigo, é a véspera do escarro, /A mão que afaga é a mesma que apedreja.//Se a alguém causa inda pena a tua chaga, /Apedreja essa mão vil que afaga, /Escarra nessa boca que te beija!”(Idem p. 143)
Neste poema, Augusto dos Anjos expõe sua postura em relação à vida e, a sua concepção revela seu profundo pessimismo e niilismo diante de uma sociedade formada por feras e que leva o homem a ser, também, fera. O pensamento deste poeta pré-modernista tem afinidade com as ideias de Schopenhauer quando afirma: “O inferno no mundo excede o Inferno de Dante, no ponto em que cada um é o diabo do seu vizinho; há também um arquidiabo superior a todos os outros, é o conquistador que dispõe milhares de homens em frente uns dos outros e lhes brada: “Sofrer, morrer, é o vosso destino; portanto fuzilem-se, canhoneiem-se mutuamente!” e eles assim procedem” (SCHOPENHAUER. S/D. p. 43).
Desta maneira, conclui-se que o homem, no íntimo, é um ser egoísta, e mais ainda, um animal selvagem, uma fera. “Este mundo é um campo de carnificina onde entes ansiosos e atormentados vivem devorando-se uns aos outros, onde todo o animal carnívoro se torna o túmulo vivo de tantos outros” (SCHOPENHAUER. S/D. p. 43). Este é um ponto de vista pessimista, negativista sobre a realidade, sobre as dores do mundo.
O eu lírico dirige-se a um interlocutor (que pode ser a própria consciência ou o leitor), ressaltando a solidão de todo ser humano. O poema sugere que esta solidão é consequência do egoísmo que destrói as quimeras, os sonhos, as fantasias, os caminhos para felicidade, para vida.
O texto expõe ainda que, a ingratidão é a mais fiel das companheiras “e o futuro é absolutamente incerto e sem duração” e o homem deve acostumar-se ao pior, à lama, à triste sombra, ao fim. Schopenhauer assevera que: “Assim como sob o ponto de vista físico o andar não é mais do que uma queda sempre evitada, da mesma maneira a vida do corpo é a morte sempre suspensa, uma morte adiada, e a atividade do nosso espírito um tédio sempre combatido… É preciso enfim que a morte triunfe, pois lhe pertencemos pelo próprio fato do nosso nascimento e ela não faz senão brincar com a presa antes de a devorar” (SCHOPENHAUER. S/D. p. 43).
Diante do exposto, o poeta e o filósofo acorrem para uma severa realidade com nuances de negativismo, desesperança e niilismo. O tom pessimista, pesado e triste chega ao clímax quando o poeta apresenta o antilírico verso “o beijo, amigo, é a véspera do escarro”. Aqui, mais do que uma referência à decomposição da matéria, o texto exprime o fim do lirismo, do amor, do belo, do sublime. O beijo (símbolo supremo do sentimento), sendo véspera do escarro (símbolo da podridão, do repugnante, do grotesco), anula toda poesia que sempre representou. Da mesma forma, o eu lírico nega qualquer espécie de solidariedade e de amor: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. O autor doutrina que não há sinceridade e não pode existir a ingenuidade de acreditar numa boa ação, no amor, na virtude, no bem. O mundo é dos maus.
O poema “Versos Íntimos” possui o pessimismo dos realistas; a preocupação formal que revela vestígios do Parnasianismo, a sugestão de vocábulos como quimera, próprios dos simbolistas e, a valorização do feio e do grotesco, características do Expressionismo.
O soneto O morcego é uma referência da obra de Augusto dos Anjos e reflete com maestria as marcas deste poeta. Observe o texto na íntegra: “Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. /Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:/Na bruta ardência orgânica da sede, /Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. // (…)A consciência Humana é este morcego! /Por mais que a gente faça, à noite, ele entra/Imperceptivelmente em nosso quarto!” (Idem p. 81)
Neste soneto o eu poético filosofa e faz do leitor um interlocutor das suas descobertas. No primeiro momento cria um clima tenebroso, soturno, à meia-noite e, assustado, chama atenção para o morcego na bruta ardência orgânica da sede. Depois descreve o drama do morcego a morder-lhe o pescoço e sugar-lhe o sangue. Num clima dramático, segue fazendo a sua descrição assustadora, com tintas fortes e escuras. O leitor é conduzido para o clímax da luta do “eu” contra o morcego, do homem contra a própria consciência – como foi metaforizado o morcego.
O texto pretende fazer o leitor refletir sobre uma situação trágica: o fato de ser perseguido pela consciência. Deste morcego, o ser humano não pode fugir, nem se ocultar.
A preocupação de Augusto dos Anjos em revelar os conhecimentos sobre o corpo e a alma, conduziu-o ao desafio de poetar cientificamente A Ideia do ser humano. Verifique o soneto: “De onde ela vem?! De que matéria bruta/Vem essa luz que sobre as nebulosas/Cai de incógnitas criptas misteriosas/Como as estalactites duma gruta?!//Vem da psicogenética e alta luta/Do feixe de moléculas nervosas,/Que, em desintegrações maravilhosas,/Delibera, e depois, quer e executa!//Vem do encéfalo absconso que a constringe,/Chega em seguida às cordas da laringe,/Tísica, tênue, mínima, raquítica…//Quebra a força centrípeta que a amarra, /Mas de repente, e quase morta, esbarra/No molambo da língua paralítica!” (Idem p. 82)
Nos versos acima, Augusto dos Anjos investiga a origem das ideias em nossa mente. Por intermédio de interrogações e exclamações, num clima pasmo, busca questionamentos, respostas e conclui em termos científicos (psicogenética, moléculas nervosas, encéfalo absconso, cordas da laringe) que, uma ideia possui muitos obstáculos para chegar a realizar-se e fazer-se em palavras. Uma ideia percorre um longo trajeto, que de tão extenso, chega às cordas da laringe “tísica, tênue, mínima, raquítica…”, quase sem força e sem essência, mas desfazendo-se em palavras: Mas, “de repente, e quase morta, esbarra/ No molambo da língua paralítica!” Isso porque faltam as palavras precisas que impedem a ideia de apresentar-se inteira como se apresenta na mente.
Esta falta de precisão das palavras, este limite, esta luta com a linguagem nos fazem lembrar as palavras de Drummond quando diz: “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã. / São muitas, eu pouco. / Algumas, tão fortes como o javali” (ANDRADE, C. D. 1982 p. 153). Carlos Drummond de Andrade poetiza sua luta com as palavras usando a metalinguagem, o que não acontece totalmente em Augusto dos Anjos. Neste, a preocupação está mais para as descobertas científicas sobre a mente humana.
O “Monólogo de uma sombra” é o poema inicial do livro EU; é um texto de 31 sextilhas (estrofes formadas por seis versos), e apenas as três últimas são atribuídas ao poeta, que nelas descreve a impressão das frases ouvidas anteriormente. O poema se inicia com aspas, que se fecham depois da vigésima oitava estrofe e, nestas 28 primeiras estrofes, o monólogo da sombra alonga-se, sendo ouvido pelo poeta e comentado por este nas três últimas sextilhas. Nesse poema, a sombra é uma entidade parcialmente antropomorfizada (por fazer uso da linguagem e por certas referências humanas que faz de si mesma) e goza de muitos atributos da natureza e da matéria: “Sou uma Sombra! Venho de outras eras,/Do cosmopolitismo das moneras…/Pólipo de recônditas reentrâncias, /Larva de caos telúrico, procedo/Da escuridão do cósmico segredo,/Da substância de todas as substâncias!”(Idem p. 75)
Nesta primeira estrofe, a sombra fala da sua origem, usam uma linguagem científica e erudita como monera e pólipo. Monera é um vocábulo que significa único, solitário e, também, é um organismo unicelular. Para Ernest Heinrich Haeckel (1834-1919), biólogo e pensador alemão, defensor da unidade do universo – monismo), é a primeira forma orgânica de vida. Seu livro Os Enigmas do Universo (1900) exerceu grande influência sobre Augusto dos Anjos. Este poeta assimila o pensamento do biólogo alemão, no sentido de que, no texto, monera refere-se à origem de todos os seres que habitam o Universo, inclusive o Homem – Do cosmopolitismo das moneras. Pólipo ou polipo (Augusto dos Anjos sempre empregava esta palavra como se fosse paroxítona, no entanto, a pronúncia proparoxítona é recomendada por muitos lexicógrafos) é um animal metazoário do ramo dos celenterados; o vocábulo está no significado de polvo, ou de um animal que possui muitos tentáculos e reentrâncias. Porém, no poema, o significado não é denotativo, é uma metáfora para a mobilidade da Sombra.
O poeta acrescenta à mobilidade da sombra a metáfora de larva do caos telúrico. O vocábulo “larva”, por sua vez, significa, ‘fantasma’, ‘máscara’. “Entre os antigos romanos, espírito malfazejo de um morto que vagueava entre os vivos para aterrorizá-los” (FERREIRA, A. B. H. 1990 p. 821). Desta forma, esta palavra, tanto no sentido denotativo, quanto no conotativo, tem o significado de imprecisão de forma, flutuação e, portanto, uma sombra nas palavras do poeta, um “pólipo” que se move assustadoramente de um lugar para outro.
O último verso desta sextilha – da substância de todas as substâncias – a sombra expõe sua origem e deixa patente que procede da substância original das quais todas também procedem. Todas as substâncias vêm daquele foco de onde deriva o universo todo, o cosmo – cósmico segredo – monisticamente, unitariamente; uma vez que segue a doutrina monística, segundo a qual, o conjunto das coisas pode ser reduzido à unidade, quer do ponto de vista de suas substâncias, quer do ponto de vista das leis pelas qual o universo se ordena. Desta maneira, a substância não nasce apenas do caos telúrico, mas do cósmico segredo, da gênese universal, do princípio de tudo, do que ainda não tinha sido devassado pelo conhecimento humano.
AUGUSTO DOS ANJOS – O VATE DA DOR E DO INFORTÚNIO
Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no engenho Pau-d’Arco, Vila do Espírito Santo, Paraíba, em 20 de abril de 1884. Vivendo numa época de grandes transições, o poeta paraibano assistiu a decadência dos engenhos tradicionais, em prol das usinas e presenciou o início do processo de urbanização.
O engenho Pau-D’Arco
Augusto dos Anjos viveu a ruína material de sua família, proprietária de pequena propriedade rural, na Várzea Paraibana. O sofrimento individual leva-o a ser solidário com os sofrimentos do outro, sobretudo com as pessoas humildes. Nos “Gemidos de Arte” encontramos uma referência à casa do “finado Toca”: “ Não sei que subterrânea e atra voz rouca, /Por saibros e por cem côncavos vales, /Como pela avenida das Mappales, /Me arrasta à casa do finado Toca! /Todas as tardes a esta casa venho. /Aqui, outrora, sem conchego nobre, /Viveu, sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho!” (p. 130).
No poema “Ricordanza della mia Gioventú” (Recordação da Minha Juventude) recorda a ama de leite, Guilhermina, que “Furtava as moedas que o Doutor me dava. / Sinhá-Mocinha, minha Mãe ralhava… e lhe justifica os pequenos furtos: Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama, / Eu furtei mais, porque furtei o peito/ que dava leite para tua filha!” (Idem p. 125).
Augusto dos Anjos gostava do contato com a natureza e, em seus versos, cantou a presença de um pé de tamarindo, que foi testemunha dos anos de sua infância e de sua juventude no engenho Pau-D’Arco: “No tempo de meu Pai, sob estes galhos,/Como uma vela fúnebre de cera,/Chorei bilhões de vezes com a canseira/De inexorabilíssimos trabalhos!/Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,/Guarda, como uma caixa derradeira,/O passado da Flora Brasileira/E a paleontologia dos Carvalhos!//Quando pararem todos os relógios/De minha vida e a voz dos necrológios/Gritar nos noticiários que eu morri,//Voltando à pátria da homogeneidade,/Abraçada com a própria Eternidade/A minha sombra há de ficar aqui!”(Idem p. 85)
Em “Debaixo do Tamarindo”, Augusto registra suas lembranças de Pau-d’Arco, da sua família que, no texto, foi registrada através do jogo de palavras paleontologia dos Carvalhos. No primeiro sentido, Carvalho refere-se a uma espécie de planta de grande porte que produz uma madeira resistente, utilizada geralmente em construções; no segundo sentido, refere-se à Família Carvalho, uma vez que o poeta se chama Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos. Nota-se que o vocábulo está em maiúsculo para denotar a propriedade da palavra e a perenidade e fortaleza da Família dos Carvalhos, em Recife. O nome da árvore foi extremamente sugestivo, pois insere o ser humano no ser vegetal do Tamarindo. Os dois últimos versos do soneto revigoram a ideia da homogeneidade entre o Tamarindo, o poeta e suas Sombras: “Abraçado com a própria Eternidade / A minha sombra há de ficar aqui!”
O soneto “Debaixo do Tamarindo” é um documento que testemunha as marcas do engenho Pau-d’Arco que acompanharam o poeta, mas também, que ficaram na Paraíba.
O curso de Direito, o Magistério, as Mudanças e a Poética da Dor
Em 1903, Augusto dos Anjos matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife. Foi no contato com o ambiente acadêmico que o poeta se familiarizou com a ciência em voga, especialmente com as doutrinas de Ernest Heinrich Haeckel muito lido na época. Absorvem de tal modo aqueles termos que passa a usá-los nas conversas íntimas, com amigos, sem perceber. Daí, a explicação para utilização de tantos termos científicos em seus poemas.
A 13 de janeiro de 1905, depois de uma doença que o manteve paralisado por um longo tempo, morre o pai do poeta. No seu livro de poemas, EU, Augusto apresenta quatro sonetos dedicados à doença e à morte de seu pai, Alexandre Rodrigues dos Anjos: “ I A meu Pai doente/Para onde fores, Pai, para onde fores, /Irei também, trilhando as mesmas ruas…/Tu, para amenizar as dores tuas, /Eu, para amenizar as minhas dores!” (Idem p. 135)
Em 1907, forma-se em Direito, mas não exerce a profissão de advogado. Retorna a João Pessoa, onde leciona Literatura Brasileira, até ser afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano em 1910, em consequência de desentendimento com o governador. Neste mesmo ano, casa-se com D. Ester Fialho, muda-se para o Rio de Janeiro e passa a dedicar-se ao Magistério, lecionando no Colégio Pedro II.
Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho, a quem o poeta dedicou o seguinte soneto: “Ao meu primeiro filho nascido /morto com 7 meses incompletos. /2 de fevereiro de 1911/- Agregado infeliz de sangue e cal, /Fruto rubro de carne agonizante, /Filho da grande força fecundante/De minha brônzea trama neuronial, //Que poder embriológico fatal/Destruiu, com a sinergia de um gigante, /Em tua morfogênese de infante/A minha morfogênese ancestral?!//Ah! Possas tu dormir, feto esquecido, /Panteisticamente dissolvido/Na noumenalidade do NÃO SER!(Idem p. 84)
Augusto, o vate da dor e do infortúnio, fez de sua poética um meio de expressar todas as dores do mundo, inclusive as suas. Duas mortes marcaram seus versos: seu pai e seu primogênito. Tais acontecimentos contribuíram para o pessimismo, o negativismo e o aspecto triste e mórbido presentes na temática deste poeta.
O Livro Polêmico e o Final Prematuro
Em 1912, nasce sua filha Glória e, em edição particular, financiada com recursos próprios e do irmão Odilon, publica seu livro de poesia EU. Este livro provocou escândalo: o público estava habituado aos elegantes e líricos poemas que se declamavam em salões. Era o tempo da “Belle Époque” carioca e a Literatura deveria ser lírica, o sorriso da sociedade; mas, o livro EU era o choro da sociedade, era antilírico, cultuava o feio, o grotesco, o mau gosto.
A crítica reconheceu o talento de Augusto dos Anjos, mas fazia-lhe sérias restrições. O poeta tornou-se polêmico. A Faculdade de Medicina incluiu a sua obra em sua biblioteca, por tratar de assuntos científicos.
Somente a partir de 1928, quatorze anos após sua morte, o poeta paraibano encontrou a compreensão e a aceitação; por isso, Augusto não usufruiu de uma vida tranquila. Nomeado diretor de um grupo escolar na cidade mineira de Leopoldina, assumiu a direção do estabelecimento, lecionava, colaborava com a imprensa local, lutava pela sobrevivência.
Em 31 de outubro de 1914, apanha uma forte gripe que se complica tornando-se pneumonia, e, morre a 12 de novembro desse mesmo ano, com trinta anos. Teve um final prematuro.
Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima é autora de 50 obras, ensaísta, crítica literária, escritora de obras da literatura infanto-juvenil, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras – Literatura e Crítica Literária – Mestrado e Doutorado da PUC Goiás e Titular da Cadeira nº 5 da Academia Goiana de Letras (AGL

