“Cultura que celebra a morte”: antropólogo denuncia apagamento cultural das vítimas do Césio-137
23 março 2026 às 13h08

COMPARTILHAR
O antropólogo urbano Jorge Cordeiro denunciou o abandono cultural das vítimas do desastre radiológico com Césio-137, de 1987, sepultadas no Cemitério Parque Goiânia, no Setor Gentil Meireles. Nas redes sociais, o pesquisador descreve um cenário de descaso do poder público com a memória das quatro vítimas enterradas no local: Leide das Neves Ferreira, de 6 anos; Maria Gabriela Ferreira, de 37; Israel Baptista dos Santos, de 22; e Admilson Alves de Souza, de 18.
Em entrevista ao Jornal Opção, Cordeiro afirma que, embora os túmulos estejam preservados, não há nenhuma identificação, marcador histórico ou placa que sinalize a relevância daquele espaço para a história da tragédia. Segundo ele, existe uma política de apagamento histórico que invisibiliza inclusive o luto das famílias. “Não tem mapa no cemitério, não tem uma seta indicando do que se tratam estes túmulos”, afirma.
O antropólogo aponta que o mesmo ocorre em outros locais atingidos pelo acidente radiológico, como o antigo ferro-velho de Devair Alves, na Rua 26-A — atual Rua D. Francisca de Costa Cunha Dom Tita —, no Setor Aeroporto, um dos epicentros da tragédia. A área ainda existe, mas também não conta com qualquer marcador histórico.
Para Cordeiro, esses casos refletem uma cultura mais ampla de invisibilização de tragédias, que impede a elaboração do luto, sobretudo entre grupos vulneráveis. Segundo ele, a sociedade brasileira ainda reproduz uma lógica “colonizadora” diante da própria história. “Com toda a consequência da radiação, o estigma, a falta de dinheiro para comprar remédio, para comprar comida. Por que não choramos com eles?”, questiona.
O antropólogo amplia a crítica ao comparar o caso com outros episódios traumáticos da história brasileira. “Por que a gente não chora o luto de 600 mil pessoas que morreram na pandemia? Por que não choramos o luto de milhões de escravos que morreram? Por que não choramos o luto de povos indígenas dizimados pelos colonizadores?”, pontua.
Segundo ele, um dos fatores que sustentam essa política de apagamento é a própria dinâmica partidária, que atua como vetor de dominação social.
Na avaliação de Cordeiro, isso ocorre porque educação e cultura passam a ser utilizadas como instrumentos de manutenção de poder, em vez de cumprirem suas funções sociais. “As gestões públicas possuem estratégia de manutenção do apagamento. As crianças não estudam, a internet desinforma e a gente desvaloriza os veículos de comunicação que fazem análises críticas”, diz.
Leia também: Goiano cria jornada de RPG baseada no acidente do Césio 137

