De primeira deputada federal e senadora, estado goiano não elege uma representante feminina na Câmara alta do Congresso Nacional desde 2019, quando finalizou mandato de Lúcia Vânia Abrão

Dos 27 parlamentares que representaram Goiás desde 1945, apenas um deles é mulher. Lúcia Vânia Abrão (Cidadania), em 77 anos de história, é a única senadora já eleita pelos goianos. Além de desbravar a presença feminina na Câmara alta do Congresso Nacional, a jornalista, formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), é pioneira também na Câmara dos Deputados. Ela foi a primeira deputada federal por Goiás, integrante da Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 1986. E continuou no cargo até 2003, ano que assumiu a cadeira no Senado. Desde que ela deixou o posto, em fevereiro de 2019, Goiás tem apenas homens como representantes do Estado junto a União: Jorge Kajuru (Podemos), Luiz do Carmo (sem partido) e Vanderlan Cardos (PSD).

No Senado Federal, a goiana nascida em Cumari, no dia 15 de outubro de 1944, foi, por duas vezes, presidente da Ouvidora Geral e das comissões de Assuntos Sociais (CAS), de Infraestrutura, de Desenvolvimento Regional de Turismo (CDR) e deEducação, Cultura e Esporte. Ela tentou reeleição para o cargo em 2018, porém, sem êxito. Na disputa, a ex-senadora somou 519.691 votos (9,42% dos válidos). Na época, chegou a confidenciar aos aliados que ficou extremamente magoada com a derrota na eleição no dia 7 de outubro. A derrota, no entanto, é muito menor do que a trajetória política dela.

Lúcia foi primeira-dama de Goiás entre 1975 e 1979 durante o governo de Irapuan Costa Júnior, com quem foi casada e teve três filhos. Um deles é a ex-secretária da Fazenda de Goiás, Ana Carla Abrão. Inclusive, a economista, ao lado de Henrique Meirelles (PSD), compõe o time que elabora o plano econômico presidencial do governador de São Paulo, João Dória, que tenta ocupar o Palácio do Planalto nas eleições de outubro. Irmã do ex-senador do Tocantins Moisés Abrão Neto, prima do ex-deputado federal Pedrinho Abrão e do radialista Jakson Abrão, além de tia do ex-deputado federal Marcos Abrão, Lúcia Vânia também foi candidata ao Governo de Goiás em 1994, ano que os goianos deram vitória a Maguito Vilela (MDB); Secretária Nacional de Assistência Social do Governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB); e candidata a Prefeitura de Goiânia em 2000, quando foi eleito Pedro Wilson (PT).

Na gestão de Fernando Henrique, a goiana implantou a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que assiste deficientes e a população vulnerável com idade superior a 65 anos; e, entre outros, criou, em maio de 1996, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, o PETI, que foi quatro vezes premiado pelo UNICEF, o programa das Nações Unidas que cuida das crianças no mundo todo. Na Câmara dos Deputados, Lúcia relatou a Lei Maria da Penha, que protege mulheres em situação de violência doméstica, e o projeto que recriou a Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), que fomenta economia nessa região do país. Ela também esteve na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPI) que investigou situações de violência e redes de exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil.

A carreira política de Lúcia Vânia começou no então PMDB, partido que lhe abrigou de 1986 a 1993. Neste mesmo ano, teve uma passagem rápida pelo PP, ficando até 1995. Já PSDB foi a legenda onde ela mais permaneceu, ficando até 2015. Em 2019, Lúcia Vânia rompeu com o PSB, partido que presidia desde 2015, e se filiou ao Cidadania.

Feminismo

Pioneira em muitos cargos políticos com mulher, Lúcia Vânia também encampa a luta pela maior participação das mulheres na política. Na época no PSB, durante discurso de posse, a ex-senadora e deputada pediu mais espaço na política para as jovens e para as mulheres, que, segundo ela, representam metade da população brasileira, mas ocupam menos de 10% das cadeiras no parlamento. Atualmente, esse número é de 14,8% na Câmara e 13,6%, de acordo com dados divulgados pela União Interparlamentar (UPI) em 2020.

Em entrevista ao Jornal Opção, Lúcia Vânia considerou que as medidas tomadas em favor das mulheres favorecem o cenário político e contribuem com o ânimo feminino e envolvimento. “Passamos a disputar em condições de igualdade com os homens e isso é muito importante.” Na época, a ex-senadora também havia dito que, apesar de todas as desigualdades e dificuldades enfrentadas, as mulheres nunca foram ingênuas. “Tínhamos aprendido, com o exemplo de Bertha Lutz, que a mera previsão legal do princípio da igualdade não seria suficiente para sua plena aplicação”, declarou.

“Se a inclusão do voto feminino no Código Eleitoral de 1932 representou um primeiro passo na luta pela igualdade política entre homens e mulheres, sabemos que não representou mais do que uma igualdade formal, que nunca fomos capazes, até hoje, de transformar em igualdade material, haja vista a proporção minoritária de mulheres no Parlamento brasileiro”, tinha dito a, até então, senadora na época.

Agora, em meio a movimentações eleitorais e aos 77 anos, a ex-senadora parece está prestes a voltar à cena política. Em 2021, Lúcia Vânia havia feito uma cirurgia no quadril, o que colocou em dúvida se iria concorrer a algum cargo político nas eleições de 2022. Porém, a ex-deputada já havia dito ao Jornal Opção que o desejo era sair candidata. Isso dependeria, no entanto, do processo de recuperação. Nos bastidores, a hipótese é a de que, recuperada, ela concorra a uma das 41 cadeiras de Goiás na Câmara dos Deputados, fazendo parte da base do governador Ronaldo Caiado (União Brasil), de quem foi secretária de Desenvolvimento Social, que está em da busca reeleição ao lado de Daniel Vilela (MDB), na vice.

* Colaboração: Giselle Vanessa Carvalho