• Por Giovani Ribeiro

O pentecostalismo brasileiro não pode ser compreendido sem considerar suas origens históricas e as transformações que moldaram sua presença no país ao longo do século XX. Mais do que um fenômeno religioso homogêneo, trata-se de um movimento plural, marcado por diferentes fases, práticas e compreensões teológicas que refletem mudanças sociais, culturais e midiáticas do Brasil.

As raízes do pentecostalismo remontam ao início do século passado, nos Estados Unidos, a partir das experiências conduzidas por Charles Fox Parham e, sobretudo, por William Seymour. Foi sob a liderança de Seymour que ocorreu o célebre avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles, um marco decisivo para a expansão mundial do movimento. A ênfase no batismo com o Espírito Santo, evidenciado pelo falar em línguas estranhas — a glossolalia, com base bíblica em Atos dos Apóstolos, capítulo 2 — tornou-se a principal identidade pentecostal.

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Daniel Berg e Gunnar Vingren, fundadores da Assembleia de Deus no Brasil, em 1911, em Belém do Pará | Foto: Reprodução

Esse reavivamento influenciou diretamente a chegada do pentecostalismo ao Brasil. Nomes como Luís Francescon, fundador da Congregação Cristã no Brasil, e os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, fundadores da Assembleia de Deus, foram impactados por essa experiência espiritual e deram início a um movimento que, ao longo das décadas, se fragmentaria em diferentes expressões.

Pesquisadores como Paul Freston e Ricardo Mariano ajudam a compreender essa trajetória ao dividir o pentecostalismo brasileiro em três grandes períodos, também chamados de “ondas”. A primeira delas, conhecida como pentecostalismo clássico, se estende aproximadamente de 1910 a 1950. Nesse período surgem igrejas como a Congregação Cristã no Brasil, fundada em 1910 no bairro do Brás, em São Paulo, e a Assembleia de Deus, estabelecida em 1911, em Belém do Pará. O pentecostalismo clássico se caracteriza pela centralidade da glossolalia e pela forte ênfase na santificação, entendida como ascese e mortificação do corpo, com rígidos códigos de comportamento.

A segunda onda, denominada pentecostalismo de transição, ocorre entre as décadas de 1950 e 1970. Igrejas como O Brasil Para Cristo, a Igreja do Evangelho Quadrangular e a Igreja Pentecostal Deus é Amor passam a adotar estratégias mais abertas de evangelização. O uso intenso do rádio, as campanhas públicas em praças e estádios, as cruzadas evangelísticas e as orações por cura divina e libertação espiritual marcam esse período. Trata-se de uma fase em que o pentecostalismo começa a dialogar de maneira mais direta com os meios de comunicação e com a vida urbana.

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Pr. Willian Seymour!Líder pentecostal norte americano, que foi o responsável pelo início do movimento pentecostal da Rua Azusa | Foto: Reprodução

A partir da década de 1970, consolida-se a terceira onda: o neopentecostalismo. Representado por igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça de Deus, a Mundial do Poder de Deus e a Renascer em Cristo, esse segmento apresenta características próprias, como campanhas intensivas de oração, a teologia da prosperidade, orações declaratórias e uma ênfase acentuada na atuação do diabo como responsável por males, doenças e fracassos pessoais, além da chamada quebra de maldições hereditárias.

Essas divisões revelam que o pentecostalismo brasileiro não é estático, mas um movimento dinâmico, que se adapta às demandas de cada época. Entender suas ondas é fundamental para compreender não apenas o campo religioso, mas também a influência social, cultural e política que o pentecostalismo exerce no Brasil contemporâneo.

Giovani Ribeiro
Pastor da Assembleia de Deus, em Goiânia, mestrando em Ciências da Religião pela PUC-GO e colaborador do Jornal Opção.