Superávit chinês faz escalar o histrionismo de Trump a respeito da Groenlândia e Irã
17 janeiro 2026 às 21h00

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Pouco importa se as palavras são verdadeiras ou falsas, se convincentes ou não, para o presidente Donald Trump basta a garantia da própria palavra.
Como os Estados Unidos “necessitam da Groenlândia para sua segurança nacional” e frente às ameaças de russos e chineses, ela pode e deve ser anexada pelo Império.
O fato de citar nominalmente a China e a Rússia, e apenas esses dois países, é significativo e traduz a nova realidade geopolítica do planeta: há somente três grandes e o mundo está ou será definitivamente repartido entre eles, como se fosse o bolo de aniversário da vovozinha — ou do mais novo rebento da família.
Sendo assim, a Dinamarca que trate de abdicar do controle da Groenlândia e passe o comando aos Estados Unidos. Ex-colônia da Dinamarca, a gigantesca ilha gelada tem seu próprio parlamento e um governo local que controla a educação e a saúde, a pesca, o meio ambiente, a polícia e os impostos. Cabe à Dinamarca a política externa, as forças armadas e a defesa, a moeda e o sistema judicial superior.
Como diz o ditado, “quem pode manda, quem não pode obedece”. A esse tipo de raciocínio parecem estar reduzidas as regras das relações internacionais na era do trumpismo radical. Mas talvez tenha sido sempre assim e o empresário-presidente apenas tenha decidido que as máscaras não são mais necessárias.
Será curioso ver o desfecho de mais esse imbróglio protagonizado por Trump e seus capitães Marco Rubio e J. D. Vance. Não está descartado que, no final das contas, a Dinamarca (e a Europa) terá que simplesmente engolir calada (ou com inaudíveis palavras de queixa) o plano expansionista do Imperador.

Trump humilha a Dinamarca e, claro, a Europa
Após os muxoxos iniciais dos europeus, e para não deixar exageradamente evidente o desprezo pelo que diz o velho continente, o presidente americano do norte se deu ao trabalho de apresentar justificativas nas quais os interesses dos aliados estariam contemplados, na medida em que o sistema de defesa dos EUA inclui como peça fundamental a própria Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Mas, ao fazer isso, Trump faz questão de lembrar que a Otan é uma espécie de anexação e que não passa de um guarda-chuva de papel sem a presença e o suporte do Império.
“A Otan torna-se muito mais poderosa e eficaz com a Groenlândia nas mãos dos Estados Unidos”, disse o presidente. Antes de emendar, numa linguagem muito mais ao seu estilo: “Otan, diga à Dinamarca para sair daí imediatamente!”
Trump reiterou a zombaria ao se referir à capacidade do Exército dinamarquês de proteger o território agora em disputa: “… a defesa deles são dois trenós puxados por cães”.
A linguagem do pequeno ditador de rua é, agora, a mesma utilizada pelo imperador do mundo.
Para se referir à teocracia islâmica que — desde a deposição do Xá Reza Pahlavi (1919-1980), em 1979 — comanda o Irã, Trump mais uma vez recorreu ao vernáculo do brutamontes que se arroga o direito de mandar no mundinho ao seu redor: “Os líderes do Irã telefonaram, eles querem negociar. Eu acho que cansaram de apanhar dos Estados Unidos”.
No melhor dos casos, é como a fala do chefe de torcida do time de futebol. O tempo todo saturado de macheza, é quase sempre o discurso do brucutu que disputa o muro com o vizinho.
Quanto menos encontra resistência, mais se torna desinibido, a testosterona seivando o atrevimento e a desmedida.
As expressões e o teor das declarações do mais poderoso chefe de Estado do planeta expressam também o gozo pelo exercício do poder absoluto, daquele que não se sente ameaçado por nada, nem por ninguém, que não pode ser contido por força alguma — é quando o imperador se torna deus.
Publicado pela primeira vez em 1947, na Alemanha, a Linguagem do Terceiro Reich (LTI – Lingua Tertii Imperii), do linguista Victor Klemperer, descreve e analisa como o período nazista foi capaz de corromper, em primeiro lugar, as instituições do Estado, até alcançar o mais profundo berço do povo alemão, corroendo sua língua (a de Goethe e Heine).
“O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases que foram impostas pela repetição, milhares de vezes, e foram aceitas inconsciente e mecanicamente…”.
Por enquanto restrita ao comandante e seus mais achegados auxiliares, haverá um momento em que esse modo tão polido de se referir às pessoas, coisas e países passará a ser também nossa maneira de nos referirmos uns aos outros — se é que já não é assim nas vastas camadas da população que dão suporte ao trumpismo.
A Inglaterra, o ópio e a China
A justificativa para sequestrar o presidente (ou ditador, caso queiram) Nicolás Maduro, da Venezuela, tráfico internacional de drogas, curiosamente encontra raízes, com sinais invertidos, na Guerra do Ópio entre a Inglaterra e a China na primeira metade do século XIX — e dito dessa forma pode eventualmente levar ao entendimento de que se tratou de uma guerra dos ingleses contra a produção e o tráfico de ópio por parte dos chineses, quando é todo o contrário.
Foram os ingleses que, para reequilibrar a balança comercial com o país asiático (fornecedor do chá consumido em grande quantidade pelos súditos da rainha Vitória), trataram de despejar nas terras da dinastia Qing milhares de toneladas de ópio produzidas na Índia — por então, uma concessão britânica.
Nas palavras do economista e pesquisador Thomas Piketty, foi quando os funcionários de sua majestade a rainha “converteram-se em narcotraficantes”.
Nessa relação entre esses dois momentos do capitalismo mundial, é possível vislumbrar como operam as ideologias (ou as grandes justificativas para fazer o que quer que se julgue necessário na defesa dos próprios interesses): tornar-se narcotraficante ou sequestrar dirigentes de países sob a acusação de tráfico internacional de drogas são duas faces da mesma moeda.
China e o superávit comercial
Em pouco menos de um mês, o vocabulário trumpiano se expressou por três vezes seguidas com a contundência e a virulência que o está caracterizando.
Primeiro foi a captura de Nicolás Maduro, logo a promessa de anexação unilateral da Groenlândia, seguida pelas ameaças ao regime dos aiatolás no Irã.
Trump atua de modo muito semelhante ao do chefe dos nazistas na Alemanha dos anos 1930-1940.
Uma escalada de ações espetaculares que, na guerra que iniciou contra o resto do mundo com a invasão da Polônia em 1939, tornou-se conhecida como blitzkrieg.
Pelo menos parte da explicação para essa volúpia expansionista (e para o mandonismo) do Império Americano, e a ambição aparentemente interminável de seu comandante, pode ser encontrada na notícia que foi manchete de 10 de cada 10 jornais do mundo: o recorde histórico do superávit comercial da China, os já famosos 1,19 trilhão de dólares. Um aumento de 20% em relação ao ano anterior — justamente no ano marcado pela taxação extraordinária das importações norte-americanas.
Cabe, portanto, três singelas perguntas:
1
Era essa a intenção de Donald Trump quando impôs ao planeta as novas tarifas?
2
É contra a corrida da China rumo ao topo que estão apontados os mísseis da agressividade norte-americana?
3
Ou há mais coisas na blitzkrieg conduzida pelo Imperador, que por ora não podemos enxergar?

