De tão patético, e risível, só poderia mesmo ser contado num domingo de Carnaval – há alguém que se sente para ler alguma coisa num domingo de Carnaval? Qualquer um com uma mínima dose de senso de enrubesceria ao confessar. A vítima, ou o culpado, é esse humílimo colunista. Segue a história – porque a história quase sempre segue.

Trata-se de uma lembrança cultivada, implantada, irremovível, e ela conta de dois livros que me recusei a ler quando foram publicados – e as razões pelas quais os abjurei. Eram ambos muitíssimo badalados.

O primeiro, “A Insustentável Leveza do Ser”, porque todo mundo o estava lendo e citando e comentando. Em conversas muito íntimas, alguma parte de mim mesmo determinava que eu não deveria fazer ou falar ou lamentar aquilo que está na moda, digamos assim, sendo feito por todos os outros habitantes do planeta ou da cidade ou da turma da esquina. O resultado é que até hoje, meio século desde a data da publicação (o romance foi lançado no Brasil em 1985), eu ainda não li o best-seller de Milan Kundera – é bom lembrar que também escritores do Leste Europeu escrevem best-sellers, sobretudo quando convém ao oeste.

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Livro que contribuiu para Soljenítsyn ganhar o Prêmio Nobel de Literatura | Foto: Jornal Opção

No entanto, concordei comigo mesmo que o filme, este sim, eu poderia assistir – dirigido por Philip Kaufman, com Daniel Day-Lewis, num de seus primeiros papéis fora da Inglaterra, e Juliette Binoche, a película com o mesmo título do romance foi lançada em 1988.

O segundo era diferente. Embora também o planeta inteiro o estivesse lendo ou comentando, havia um motivo extra para que fosse censurado (para mim mesmo, é claro). Antes de mais nada porque seu autor, o autor de “Arquipélago Gulag”, Aleksandr Soljenítsyn, tinha cara de monge, monge da Igreja Ortodoxa Russa.

De modo que desde o princípio estive convencido que era de fato um monge (na realidade, Soljenítsyn era graduado em matemática e física e trabalhava originalmente como professor).

Aquela expressão beatífica do rosto (assim eu o via), mas sobretudo a barba que descia até quase o peito, eram provas mais que cabais de que se tratava de um monge. Mas além desses atributos probatórios, havia outra evidência.

Sendo um monge (para mim, até hoje não consigo dissociar sua figura da de um cura eslavo), como poderia escrever sobre os crimes do stalinismo, isento dos preconceitos e dos ressentimentos dos clérigos ortodoxos russos? E até mais que isso: que direito tinham aqueles religiosos de escreverem sobre a revolução que os expropriou das fabulosas riquezas acumuladas durante séculos, ou mesmo sobre seus destroços e descalabros, i.e., o horror, o horror que mortificava a revolução e a enterrava para sempre?

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O romance do tcheco Milan Kundera se tornou best-seller global | Foto: Jornal Opção

É verdade, e isso também era do meu conhecimento, que o livro do louvado Soljenítsyn era uma denúncia do odiento stalinismo, tão ampla e tão profunda quanto poderia ser. (Também o romance de Kundera, até onde sei, trata de questões relacionadas ao mundo criado a partir de Stálin. Foi escrito no início dos anos 1980, quando o autor estava exilado na França, após ser proibido de publicar no seu país natal, a antiga Tchecoslováquia.)

Os trotskistas fomos, desde as primeiras horas do regime que derivou da revolução de outubro, os mais perseguidos por Stálin e seus capangas (a partir de certo momento, esse regime adquiriu contornos do mais genuíno banditismo – mas sem raízes nos despossuídos, como foram algumas formas de banditismos descritas por Hobsbawm).

Já sabíamos, portanto, desde muito antes do “Arquipélago”, da existência do Gulag e vínhamos denunciando seus crimes desde os seus primórdios – o terceiro volume da biografia de Trótski escrita por Isaac Deutscher, “Trótski, o Profeta Banido”, conta toda a tragédia que se seguiu à revolução e o assassinato dos seus antigos líderes, e a perseguição indiscriminada contra os milhões de supostos inimigos do regime – na verdade todos aqueles que Stálin e seus comparsas decidiam que eram inimigos do regime. (A trilogia de Deutscher foi publicada ao longo de quase uma década, a partir de 1954, até 1963.)

Milan Kundera: escritor tcheco que se radicou na França | Foto: Reprodução

Embora os crimes do stalinismo (a um só tempo contra o comunismo, contra a revolução e a contra a humanidade) fossem os mesmos, e as denúncias as mesmas, que direito tinham os fiéis da Igreja Ortodoxa Russa (e seus monges!), ardorosos defensores e partícipes do velho regime dos czares, de se meterem nesse assunto, mesmo que também eles tenham sido vítimas da perseguição?

Mas tanto quanto havia ignorado o livro do monge-matemático, primeiro porque já sabia, muito antes de 1982, do inferno criado por Stálin, e depois porque nós, sim, os trotskistas, tínhamos o direito inalienável e intransferível de ocupar o posto da promotoria, também os outros, todos os outros seres humanos que se lançaram com voracidade e um espanto crescente, uma indignação crescente, à leitura do “Arquipélago Gulag”, ignoravam até a sua publicação a intricada trama do inferno ali descrito – não por escolha, mas porque simplesmente não conheciam as denúncias feitas por aqueles grupúsculos de  renegados, logo apagados da história pelas ordens do ditador, nascidos do mesmo útero que o havia posto no mundo, a ele e aos cupinchas.

Ióssif Stálin: o ditador soviético que sucedeu Lênin | Foto: Reprodução

Do marxismo à ética religiosa

O autor do “Arquipélago” obviamente nunca foi monge. Embora na juventude tivesse sido um ateu convicto e marxista, no decorrer do tempo e após seu encarceramento – por cartas pessoais criticando Stálin – em 1945, aos 26 anos de idade, Soljenítsyn se aproximou gradualmente da ética religiosa, mas não da hierarquia eclesiástica dos ortodoxos russos, à qual dirige duras críticas.

Um ano após a publicação do livro que o tornaria mundialmente conhecido, em 1973, foi preso novamente e, expulso da União Soviética, decidiu viver nos Estados Unidos.  E, enquanto seus anfitriões, a mídia e os publicistas ocidentais tentavam construir e vender a imagem de um super-herói anticomunista humilde e subserviente, Soljenítsyn dirigia poderosos petardos – sempre de natureza ética – contra o materialismo, o consumismo e o culto do bem-viver acima de qualquer outro propósito do mundo capitalista.

Varlam Chálamov capa de Contos de Kolimá 500

Mais de meio século após sua publicação, seu “Arquipélago” segue sendo (até onde conheço) o mais devastador relato dos horrores produzidos e sustentados pelo stalinismo até a morte de Stálin, em 1953, e após – quando Soljenitsyn é enviado em exílio administrativo para o Cazaquistão. E esse lamentável colunista teve, finalmente, o bom senso de ler um dos livros que marcaram a história do século XX. (Quanto a Milan Kundera, qualquer hora dessas pago, enfim, minha dívida com o mais conhecido dos seus livros. Daí vou poder apagar essa vergonha escondida na memória.)

Acrescento que a Editora 34 publicou, em vários volumes, a poderosa denúncia de Varlam Chalámov a respeito da brutalidade do regime de Stálin nos campos de trabalhos forçados. O primeiro volume, “Contos de Kolimá” (tradução de Denise Sales e Elena Vasilevich), é o mais conhecido. Há um capítulo sobre a morte de Óssip Mandelstam, o poeta que escreveu sobre os bigodes de barata do ditador georgiano.

Há também o calhamaço “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviética” (Record, 896 páginas), da historiadora Anne Applebaum.