Não há nada de novo quando as forças policiais dos Estados Unidos – seja sob o comando de Trump ou de qualquer presidente democrata – matam pretos nas ruas do país sem nenhuma justificativa convincente. Ainda estão frescos na nossa memória os nomes de Leneal Frazier, Tyre Nichols e Sonya Massey e, também em Mineápolis, George Floyd – todos pretos (ou afro-americanos, se preferir). Instituições não governamentais estimam que um total de 5.800 pessoas, “desarmadas e que não representavam perigo letal imediato comprovado”, foram mortas pela polícia de 2021 a 2025. Outros dados coletados por pesquisadores independentes indicam que pessoas pretas (ou afro-americanas) têm uma “probabilidade três vezes maior de serem mortas pela polícia em comparação com brancos”.

Inaugural (precisamente como Donald Trump pretende que sejam suas ações) é quando policiais matam cidadãos brancos e de classe média, à luz do dia, com a mesma facilidade com que aplicam uma multa de trânsito. No dia 7, agentes do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE — Immigration and Customs Enforcement) dispararam e mataram a escritora, dona de casa e mãe de três filhos Renee Nicole Good, e pouco mais de duas semanas depois, o enfermeiro Alex Jeffrey Pretti, ambos de 37 anos de idade.

Presidente dos EUA, Donald Trump
Donald Trump: poderia estrelar o filme “Fácil de Matar” | Foto: Reprodução

A lógica de tais ações, que envolvem por exemplo a deportação de mais de 600 mil imigrantes em pouco menos de um ano, pode parecer obscura. É possível especular que, não sendo uma necessidade econômica, é pouco mais que exibição de musculatura para reforçar o medo e o controle sobre a população menos abençoada por Deus – além de prestar conta dos serviços contratados aos que o colocaram mais uma vez na Casa Branca.

No que essa mão de obra barata e permanentemente disponível atrapalharia a economia do Império? Se é por aí, o sinal está invertido. Economicamente, o que podem as deportações massivas é afetar setores que dependem da mão de obra imigrante para realizar trabalhos que os nativos não estão mais dispostos a fazer – como a agricultura. A parafernália discursiva apresentada como justificativa para essas ações de terror não é mais que uma cortina de fumaça para entreter ou aglutinar parte importante do eleitorado. A ideia do inimigo interno (ou externo) que ameaça a paz e a prosperidade da nação é sempre um excelente combustível para alimentar fogueiras.

Stephen Miller: defensor do poder violento | Foto: Reprodução

Não custa lembrar que uma coisa é blefar e fazer ameaças contra os acomodados e subservientes países europeus, eventualmente até se apropriar de parte do seu território, outra muito diferente é atacar a milhões de trabalhadores ou miseráveis indefesos que vivem no território do Império. Isso é muito mais fácil.

Não é exatamente raro encontrar nos jornais a afirmação de que os recentes assassinatos em Mineápolis foram resultado de uma polícia (o ICE) fora de controle, que perde a cabeça no enfretamento contra manifestantes, quando até o papagaio do vizinho sabe que são policiais muitíssimo bem treinados e cumprindo à risca as ordens emanadas da Casa Branca e, portanto, agindo sob estrito controle.

Sua agressividade é produto do discurso dos seus comandantes, diretos e indiretos. Gente escolhida a dedo para traduzir em ações a guerra interna decretada pelo Imperador. Por isso mesmo, não deveriam provocar perplexidade os 10 (dez) tiros disparados à queima roupa contra o enfermeiro Alex Pretti, caído no asfalto e dominado por meia dúzia de brutamontes altamente treinados.

Numa entrevista ao jornalista Jake Tapper, da CNN, Stephen Miller, um dos mais influentes assessores do presidente, fez a seguinte declaração: “Vivemos em um mundo, num mundo real, Jake, que é governado pela força, que é governado pela violência, que é governado pelo poder” (“We live in a world, in the real world, Jake, that is governed by strength, that is governed by force, that is governed by power”).

O que o sr. Miller está dizendo é que estamos no mundo do vale tudo — e que as máscaras já não são mais necessárias, porque esse mundo é o que é e é melhor que nos acostumemos a ele.

Se os donos da farmacêutica Purdue Pharma, responsável pela produção e a comercialização do OxyContin, que durante décadas matou milhares de pessoas nos Estados Unidos sem que ninguém os incomodassem, fossem chamados a fazer declarações públicas em defesa de sua atividade, eles poderiam utilizar a mesmíssima frase do homem da Casa Branca. O mesmo argumento pode ser encontrado também, explícita ou implicitamente, em quase todos os filmes de gângster.

Henry Kissinger, ganhador do Prêmio Nobel da Paz (como a venezuelana Maria Corina Machado) e um dos mais poderosos secretários de Estado que já ocuparam o cargo, também era um entusiasta desse ultrarrealismo com um grau de pureza rondando os 100% e nos mesmos moldes de senhor Miller — mas naquela época vivíamos ainda um tempo no qual era necessário manter as aparências.

Para essa gente, o uso indiscriminado da violência é legítimo — porque o mundo é assim —, na exata medida em que as relações de forças existentes num determinado momento lhes sejam favoráveis. Noutros termos: se não há uma força de sentido contrário, suficiente para se contrapor às suas ações, é porque está tudo liberado, do assassinato de opositores ao atropelo das leis que regem a conduta de todos. A única Lei é a que conduz à realização dos próprios interesses.

Pode até parecer o contrário, mas as distintas personalidades do Imperador não implicam na existência de um governo errante (o que foi se tornando cada vez mais claro no decorrer do ano que passou), nem escondem o rumo que, se não houver oposição, e se as ruas não deixarem de se fazer ouvir apenas ao sabor dos eventos pontuais mais destacados, a ultradireita seguirá firme e forte golpeando um sistema democrático que não é, nem nunca foi, tão democrático assim.

Violência: construção de realidades alternativas

Numa entrevista semana passada à Fox News, Trump qualificou os milhares de manifestantes de Mineápolis e Minnesota como “criminosos endurecidos e cruéis” e “insurretos pagos”. Não era ofensa, mas tentativa real de falsificar a realidade e convencer do contrário — uma operação constante levada a cabo também por seus auxiliares.

O mesmo Stephen Miller qualificou o enfermeiro Pretti como “aspirante a assassino” — o que é mais ou menos o mesmo que condenar a morte uma determinada pessoa por conta de um crime que ela poderá cometer no futuro — argumento do filme Minority Report de Steven Spielberg com Tom Cruise. À dona de casa Renee Nicole Good chamaram de “terrorista doméstica”.

Com tudo isso, talvez até mais importante que o caso dos assassinatos em si, é esse conjunto de declarações sem nenhum nexo com os acontecimentos do mundo real. É como se estivessem testando a capacidade do grande público de aceitar mentiras descabeladas como verdades incontestáveis para alargar e aprofundar ainda mais a sua utilização — para o que a chamada Inteligência Artificial será um instrumento e tanto.