O que é um relacionamento? Atualmente, essa pergunta pode ganhar várias respostas diferentes – o que não significa que elas estarão erradas. Para alguns, ele é composto por duas pessoas que querem andar e passar o resto da vida juntas. Para outros, um terceiro elemento é necessário como um triângulo, com vertentes iguais e que se completam.

Mas todo o relacionamento é saudável? Será durável? São respostas que posso ou não conseguir formular durante este texto, mas uma situação me fez refletir sobre as consistências do sentimento. A confiança tem que ser um dos pilares de qualquer tipo de interação. Sem confiança, não há troca: seja ela de informação, de sentimento, para poder então, assim, ter reciprocidade.

Honestidade e caráter também são colocados por muitos como fator importante. Para outros, o fator beleza externa também deve constar nessa escolha. Afinal, com uma pessoa bonita ao lado aumenta a autoestima do parceiro. Alguns ainda acrescentam o sexo como algo necessário para se ter uma relação duradoura.

Uma reflexão me veio ao assistir o filme A Empregada. A personagem central busca um emprego após sair da cadeia, mente no currículo e passa a trabalhar em uma casa de pessoas importantes dos Estados Unidos. Em um primeiro momento, a mesma pessoa que lhe contratou passa a apresentar alguns transtornos psicológicos.

Em determinado momento, o grande o galã do filme chega. Ele se apresenta como um marido amoroso e que não abriu mão de cuidar pessoalmente da esposa, mesmo diante do seu estado de saúde. Diante de tantas armações feitas pela patroa, como acusá-la de perder papéis importantes e até mesmo ser acusada de furto de casa, ela faz com que a empregada e o galã se aproxime mais.

Ocorre um envolvimento amoroso entre eles, com direito a cenas picantes, ao ponto de ele expulsar a mulher de casa. Neste momento, há uma cena em que ela fica despedaçada após ser expulsa de casa. A partir daí, ocorre o que os jovens chamam de plot twist, o que seria uma reviravolta inesperada.

A empregada – que até então era vítima das “maldades” da patroa – vê a chance da sua vida mudar, diante do fato do patrão estar apaixonado e dizer que o seu grande sonho era ser “marido e pai de vários filhos”. O clima de romance parece ruir após ela quebrar uma louça de herança da família.

Nesse momento, ele se transforma e passa manter a empregada em cárcere privada no sótão da casa. Como forma de punição, ele a obriga a se mutilar para que ela não repita o ato. Ela passa dias sem comer e tem suporte de apenas três garrafas d’água dentro de um frigobar.

Corta para mostrar que a cena em que a patroa parecia estar despedaçada, na verdade, simbolizava a comemoração da saída de um relacionamento tóxico e abusivo. Um perfil do homem é traçado. Bem-sucedido, rico, bonito e que, no início, se mostra um verdadeiro cavalheiro. Conquista uma jovem secretária que fora abandonada pelo então companheiro. Como ela mesma diz: “foram seis dias para levá-la para cama e três meses para pedi-la em casamento”.

O castelo de areia começa a desmoronar pelo fato da raiz preta do cabelo dela ficar mais evidência em relação ao loiro. Ele a prende no sótão, com apenas três águas no frigobar e foi obrigada a tirar 100 fios de cabelo como forma de punição, e sendo mantida há dias em cárcere.

Não bastasse isso, ele simula que a mulher teria tentado afogar a própria filha afogada, fazendo as pessoas a duvidaram da sanidade mental dela. Com isso, ela passa nove meses internada em uma clínica psiquiátrica. A versão foi comprada por todos ao redor da família. Ele foi visto como um homem paciente, que fazia de tudo para manter o casamento com a mulher louca.

Para sair dessa situação, ele arquiteta todo o plano para colocar a empregada dentro de casa, pois sabia que ela daria conta da situação. Isso porque ela havia sido presa por homicídio, após matar um colega de classe que estuprara uma estudante. Entretanto, a vítima da violência sexual não admitiu e, pelo fato dele ser rico, a culpa recaiu toda sobre ela: 15 anos de detenção.

Por causa disso, ela despertou um forte senso de justiça quando se fala em violência de gênero. Ou seja, ela não tolerava ver qualquer situação do tipo. No final, ambas são atacadas pelo homem, que morre durante uma luta corporal com elas. No meio desse caminho, mostra que ele desenvolveu um comportamento narcisista por sofrer o desprezo da mãe, por ter poder financeiro e beleza.

Apesar de ser ficção, a história não fica apenas no campo da sétima arte. Mulheres que são vítimas de violência por parceiros que utilizam de subterfúgios como forma de manipulação. E essas violências são físicas, psicológicas, patrimoniais e até mesmo estupro. Sim! Mulheres são forçadas a fazerem relações sexuais com seus parceiros sem vontade recíproca.

Um caso recente que ganhou a mídia foi a morte da PM Gisele Alves Santana provocada pelo próprio marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Ele cometeu feminicídio contra a vítima e ainda adulterou a cena do crime para insinuar que a vítima teria se matado. No celular do suspeito, há troca de mensagens que mostram o homem utilizando termos machistas e misóginos para com a esposa e que induziam o entendimento de que ele não aceitaria o fim do relacionamento. Horas antes de ser morta, a mulher ainda teve relações sexuais com o tenente-coronel.

A história ganha um capítulo mais revoltante após a Polícia Militar do Estado de São Paulo aposentar compulsoriamente o acusado de feminicídio com o salário de quase R$ 29 mil.

O filme leva à reflexão de uma violência que deve ser combatida para que mulheres não façam parte de uma estatística negativa. E, ao primeiro sinal de violência – seja por controle ou por atos -, a mulher não pense antes de encerrar esse relacionamento, pois, como diz o título deste texto: “tem coisas na vida que a gente não perde, a gente se livra”.