Dia 2 de outubro de 1960, Miguelópolis, São Paulo

Nasce uma criança, como tantas outras que nasceram naquele dia. O que ela traria de tão especial? Apenas o tempo que iria dizer. Ele foi batizado de Milton. Milton Alexandre de Oliveira. O mais velho entre cinco irmão da mesma mãe e do mesmo pai.

A infância, assim como a da maioria dos brasileiros, foi simples. Diante das dificuldades financeiras da época, um período marcado pela ditadura militar e de inflação oscilatória, ele precisou abrir mão dos estudos para poder colocar dinheiro dentro de casa e comida da mesa. Ele não chegou a concluir o ensino fundamental.

Em uma época marcada pelas fortes agressões como meios educacionais, ele acabou fugindo de casa por não aguentar aquelas situações. Ele teve que se virar e acabou indo para trabalho infantil. Não estou aqui para relativizar esse crime, mas foi essa paixão por conhecer máquinas e caminhões que fez com ele se tornasse um exímio motorista. Aos 9 anos, já pilotava um trator nas propriedades rurais de Santa Helena de Goiás. Aos 16 anos, se “ajuntou” – termo equiparado a amasiado – com a primeira esposa. Com ela, teve três filhos: Erivaldo, Roservaldo e Lidiane.

Com o passar do tempo, o relacionamento chegou ao fim. Nesta altura da vida, sem qualquer notícias dos seus familiares, decidiu buscar o paradeiro da mãe, do pai e dos irmãos. Descobriu que a mãe já havia falecido, tendo sido enterrada em Santa Helena de Goiás. O pai teria se casado novamente e mudado para o interior de São Paulo – mais precisamente Ituverava-, e os irmãos estavam espalhados por vários locais desse Brasil.

O destino – que não cansa de nos surpreender – foi muito generoso com este homem. Ele descobre que o irmão Nilton havia se casado e morava em Grajaú, cidade no Sul do Maranhão. Sob posse de um número de telefone fixo, ele chega na casa da sua cunhada, Lourdes. Ao ligar, ela atende e confirma que o irmão vive ali, mas que não estava no momento. Ouvindo toda essa conversa, Áurea, vizinha de Lourdes, pediu para falar com o homem que estava do outro lado do telefone.

Houve um encanto com a voz um do outro. A procura pelo irmão ficou em segundo plano. Agora, era marcado quando seria a próxima ligação, que devera acontecer em um momento em que os pais não estivessem em casa. Afinal, naquela época, não ser era bem-visto uma moça falar com um homem desquitado.

No dia e horário marcado, ele ligou e falou novamente para aquela mulher. A conversa foi evoluindo, ao ponto de ele ter que mandar a certidão de separação pelos Correios para o pai dela – com o objetivo de mostrar que ele estava realmente livre para se casar novamente. Nesta altura, o pai dela já tinha consentimento do relacionamento que estava se desenhando.

Em questão de meses, eles noivaram – com as alianças enviadas novamente pelos Correios. Até a data do casamento ter sido marcada. Só que tem um fator interessante até então: Áurea e Milton não tinham se visto pessoalmente e isso só aconteceu no dia 23 de fevereiro de 1996, no dia do casamento civil, que foi feito no Cartório Antônio do Prado, no Setor Campinas, em Goiânia.

No dia seguinte, 24, foi realizado a cerimônia religiosa, com o vestido branco e tudo como manda o rito dentro da Igreja Católica. Antes de entrar na igreja Nossa Senhora Assunção – na Vila Itatiaia -, Áurea decidiu que não queria mais casar, mas foi convencida pelo pai e pelo irmão mais velho, que argumentaram que seria um verdadeira desfeita com os vários convidados que vieram do Maranhão para prestigiar a solenidade.

No final de tudo, o casamento aconteceu. A música mais marcante do casamento foi do Padre Zezinho, Oração Pela Família, que trazia em um dos seus versos:

Que nenhuma família comece em qualquer de repente
Que nenhuma família termine por falta de amor
Que o casal seja um para o outro de corpo e de mente
E que nada no mundo separe um casal sonhador!

Logo em seguida, o casal mudou-se para Lagoa da Prata, Minas Gerais. O homem continuava a trabalhar como motorista, desta vez de ônibus. Nessa altura do campeonato, ele também se tornou pai de Nayara, menina que era cuidada por Áurea antes deles se conhecerem e que se tornou filha adotiva do casal.

Mas, por volta do mês de maio, Áurea se descobriu grávida do único filho biológico que viera a ter. O pré-natal foi intercalado entre Minas e Goiás. Até o nascimento da criança no dia 5 de janeiro de 1997, na capital goiana. Batizaram o guri de João Paulo.

Neste tempo, Milton continuava a trabalhar para levar o alimento para dentro de casa. Neste período da vida, em uma fazenda, até retornar com a família a Minas Gerais, onde passou a atuar em um usina de cana-de-açúcar. Tempos depois, ele foi demitido do emprego e ficou sem saber o que fazer para levar o sustento à família. Em consenso, o casal decidiu se mudar para Goiânia.

Com a vinda para a capital goiana, Milton consegue o emprego de caminhoneiro onde ficou 17 anos na sua primeira passagem. Em meio a isso, levou a família para a ocupação do Parque Oeste Industrial, na busca por uma casa própria. O que viera acontecer anos depois, mas, sem qualquer garantia até então de que isso iria acontecer, decidiu comprar um lote e construir uma casinha simples para sair do aluguel, que judiava daquela família por 13 anos.

E assim foi feito: o barracão no fundo do lote, geminado, apenas em tijolo, foi o ponto de partida para a mudança de vida. Ele muda de emprego e fica três anos na Loccar, empresa terceirizada que prestava serviços para a antiga Celg. Aqui foi um upgrade para aquela família. Até vale-alimentação ele recebia, o que era um grande desafogo em uma despesa das casas.

Com a venda da Celg, o contrato é cancelado e os funcionários são dispensados. Milton retorna para a primeira empresa quando chegou em Goiânia. Na segunda passagem, ficou por 13 anos. Aqui, ele ensinava a importância de sair sempre com a porta aberta dos empregos que passava, pois ninguém sabia “o dia de amanhã”, como ele gostava de falar.

Em 2019, durante o seu trajeto convencional de viagem entre Goiânia – Corumbaíba, ele sentiu um mal- estar em Marzagão, onde foi necessário ajuda de terceiros para subir no caminhão. Ele conseguiu dirigir até chegar no destino final, que era a Central dos Correios na Vila Brasília, em Aparecida. Porém, ele admitiu que não viu o momento que passou pelo pedágio de Professor Jamil e até mesmo como estacionou o caminhão dentro dos Correios. Ao procurar o médico, descobriu que teve um infarto, o que o obrigou a parar de trabalhar.

Em 2020, ele foi encostado pelo INSS. A todo momento, ele realizava os exames periódicos, mas descobriu que o coração dele já tinha lesões e que algumas artérias foram prejudicadas com a preexistência de outras doenças, como diabetes e hipertensão. Em 2022, ele deixa de receber o auxílio-doença e se aposenta por incapacidade.

Infelizmente, com o passar do tempo, a saúde dele foi se debilitando. Ao todo, Milton chegou a realizar seis cateterismos e três angioplastias. Cirurgia de peito aberto era descartada pelos médicos, devido à fragilidade do seu estado de saúde. Remédios eram paliativos. Não se tinha muito mais o que ser feito. O intervalo das idas ao hospital para atender urgência estava diminuindo.

Na virada do ano, eu senti que eu ia perder alguém da minha família. Uma angústia muito grande tomou conta do meu peito, mas eu entendo que era um pedido que eu tinha feito a Deus: que me preparasse para a morte, já que nunca tinha passado por isso na minha vida. E assim ele fez.

15 de fevereiro de 2026. Após três paradas cardíacas, meu pai fez a passagem desse plano para a vida eterna. Entre erros e acertos, como qualquer ser humano, ele foi um bom pai. Proporcionou o que estava ao alcance dele e entendo que eu, na posição de filho, também fiz o que estava ao meu alcance, pois cresci ouvindo que o importante é fazer para a pessoa em vida. É claro que os primeiros dias não são fáceis, ainda mais para minha mãe, que viveu 29 anos ao lado dele, prestes a comemorar Bodas de Pérola no dia 24 de fevereiro. Eram parceiros. Um do outro. Até mesmo de cobrar quais remédios cada um teria que tomar. A ausência é o principal algoz neste momento. E só o tempo é capaz de amenizar a saudade, que se converte em lágrimas em vários momentos do dia.

Ninguém aprende a dizer adeus, mas é a única certeza é que a morte chega para todo mundo uma hora. Meu pai poderia ter aproveitado mais, pois dedicou muito tempo ao trabalho e sequer tirava férias. O que culminou no aparecimento da sua doença diante do estresse da profissão de motorista. Esse foi o ponto de partida e de chegada do meu pai. Que me leva a refletir sobre várias questões sobre quem eu sou e o que eu quero pro meu futuro.

Apesar da saudade, eu sinto que honrei meu pai e sei que ele está em um bom lugar. Bem distante do sofrimento que a doença causou e poderia lhe causar ainda mais. Essa tranquilidade chega porque, como disse anteriormente, fiz o que esteve ao meu alcance e sei que ele reconhecia isso. Uma coisa é certa: faça para os seus enquanto eles estão aqui para que a saudade não vire remorso.

Último registro do meu pai em vida durante o meu aniversário, no mês passado | Foto : arquivo pessoal