A hipocrisia entre políticos “tiktokers”
11 abril 2026 às 21h00

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Instagram, Tik Tok, X… O espaço que as redes sociais têm tomado na vida de qualquer cidadão do planeta Terra é indiscutível e quase é dissociável a possibilidade de alguém não ter ou consumi-las em um mundo cada vez mais tecnológico. Um espaço desse acabou sendo uma forma não apenas de consumo de conteúdo, mas de aproximação com um público de grande interesse visando faturamento ou promoção da sua visibilidade.
Assim como no campo dos negócios, a política também se tornou refém na prática de utilizar as redes sociais para que os parlamentares e chefes de Executivo conseguissem projetar as suas ações para o maior número possível de pessoas. Ações essas que – quase sempre – são minimamente pensadas, mas também fadadas à hipocrisia e, às vezes, um certo jogo baixo para insinuar que x acaba sendo melhor que y.
O uso das redes sociais é ruim? Jamais! É um espaço legítimo e de alcance incrível. Somente no ano passado, o Brasil contava com cerca de 144 milhões de usuários digitais ativos em redes sociais, sendo a maioria dos conectados tendo entre 18 e 34 anos. Ainda em terras tupiniquins, 66,2% da população total usam Instagram e 91,7 milhões de brasileiros usam o Tik Tok.
Um estudo recente da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) – conduzido pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação Política – mostrou que, nas últimas eleições gerais, o desempenho de candidatos no Instagram foi capaz de antecipar o resultado das urnas com até 92,7% de precisão.
Diante de tantos números importantes, posso dizer que todos os políticos são “tiktokers” ou influencers. Ah, vocês podem discordar – e tá tudo bem – mas, se você usa a rede social para mostrar o seu trabalho – você busca um objetivo. Como disse anteriormente, na política, o principal dele é fidelizar os seus possíveis eleitores e captar novos.
Mas o uso das redes não para por aí. Elas também se transformam em palco para as maiores baixarias e trocas de ofensas entre um político e outro.
Um vídeo recente publicado nas redes sociais do deputado estadual Clécio Alves (PSDB) em collab com o vereador Igor Franco (MDB) nos leva a um questionamento importante. Denunciando um possível abandono de caminhões que deveriam ser utilizados pela Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), o deputado estadual e o vereador referem-se ao prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, como “prefeito Tik Tok”.
Quero deixar claro que o trabalho fiscalizador do deputado e do vereador deve existir e o texto aqui não aborda essa questão. O que se iguala como hipocrisia ao apelido pejorativo dado ao prefeito de Goiânia é o fato dos parlamentares utilizarem do contexto para fazer uma verdadeira espetacularização, tendo como cereja do bolo ver os dois escalando o portão para entrar no espaço. Em um momento, Clécio chega a dizer “filma aí” para o seu videomaker.
Clécio, então, também não seria um deputado tik toker? Igor Franco também não se encaixaria nesse espectro? Qual a diferença entre o vídeo do Mabel parando seu carro e catando lixo para colocar na lixeira da gravação do deputado escalando o portão para entrar no lote onde estavam os caminhões de lixo? Se os dois queriam chamar atenção, então, meus parabéns, conseguiram.
As redes sociais do tucano ganharam cores fortes, com faixas amarelas e vermelhas, que parecem simbolizar atenção e perigo a cada publicação, sempre para chamar atenção do usuário ao tema a ser tratado. As publicações sempre abusam do alto volume de sua voz para falar a cada assunto que se refere a Sandro Mabel e sua gestão. Gritar realmente é uma boa saída? Ou é apenas uma forma caricata e tirana de chamar atenção?
Igor e Clécio abusam de gravações em que denunciam supostas irregularidades de contratos firmados durante à gestão Mabel. Clécio tem uma espécie de hiperfoco no tema Comurg, que já foi motivo para troca de ofensas mútuas entre o deputado e prefeito de Goiânia. Mabel afirma que Clécio voltou todas as suas armas contra ele após o tucano ter perdido diversos cargos dentro da Companhia que, segundo dados apresentados no início da gestão do membro do União Brasil, apresenta um rombo superior a R$ 2 bilhões.
Igor começou em um alinhamento com Mabel, chegando a ser líder dele na Câmara, mas o clima azedou após o vereador articular a CPI do LimpaGyn. Mabel também declarou publicamente que a ação era uma forma de pressioná-lo a conceder mais cargos comissionados ao vereador, o que ele não aceitou. A partir daí, a confiança não foi a mesma e Igor foi destituído do cargo. Outra consequência foi a exoneração do irmão do vereador, Diogo Franco, do cargo de secretário Municipal de Desenvolvimento, Indústria, Comércio, Agricultura e Serviços de Goiânia (Sedicas). Após isso, Igor se tornou oposição de Mabel.
Por parte de Célio, tamanho esmero na fiscalização a assuntos relacionados sobre Goiânia não era o mesmo enquanto Rogério Cruz estava à frente do Executivo goianiense. Este é até difícil escrever a quantidade de escândalos sobre supostas irregularidades investigadas ligadas à sua gestão. Dois exemplos breves: contratos da saúde investigados em outubro do ano passado e o fato da Justiça acolher uma ação do Ministério Público de Goiás (MPGO) que o tornou réu por improbidade administrativa. Conforme a ação movida pelo MPGO, o ex-prefeito e seus auxiliares teriam descumprido compromissos assumidos com o Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM) referente ao repasse de informações sobre a folha de pagamento e atos de pessoal.
Aqui a gente chega a um questionamento: por que dois pesos e duas medidas? Essa gana em ter uma cidade melhor não deveria ter acontecido nesta época, onde Goiânia já sofria com buracos, mato alto, déficit de vagas na educação, e crise na saúde? Área esta que ainda teve a necessidade de uma intervenção estadual devido ao risco de colapso no sistema. Temos de convir que esses problemas não surgiram milagrosamente na gestão de Sandro Mabel.
O deputado e o vereador investem em boas imagens, trilha sonora de suspense e frases de efeito. O roteiro é bem elaborado. Impactante? Sim! Mas atrevo-me a dizer que efeitos práticos na vida do cidadão pouco se tem visto. Acho que as alfinetadas ao seu adversário devem ser mais autênticas, pois, como diz aquele velho dito popular: “o santo é de barro, mas faz milagre.”
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