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Não existe voo agradável no poleiro (classe econômica) da aeronave. Em trajeto transoceânico de 9 horas, o desconforto será o seu principal companheiro de viagem. Não caia na cilada do Premium Economy: o espaço entre as poltronas só vai ser menos apertado, a inclinação da cadeira não ultrapassará os 15 graus e sempre vai ter fila de apurados infelizes para acessar o banheiro. 

Vamos trabalhar como funciona a diferença de classes dentro de um voo entre Lisboa e Brasília. Na executiva ou business class — como diz o pessoal esnobe — em primeiro lugar você é chamado pela aeromoça de cavalheiro. O tratamento em todo voo é personalizado e basta dar algum sinal de contrariedade para que o socorro seja imediato. 

Aeromoça anotando o pedido de régio almoço nas nuvens Foto Marcio Fernandes 2021
Aeromoça anotando o pedido de régio almoço nas nuvens | Foto: Marcio Fernandes/2021

Ao se acomodar na poltrona só sua, em cabine com ótima infraestrutura embarcada, você de cara tem na vista o cardápio do voo. Quatro tipos de vinho e o qualitativo e o quantitativo (quali-quanti) do banquete nas nuvens. É o grande momento com a aeronave ainda em solo. Ali você vai ter uma noção boa do que vai acontecer e se imagina já forrado. Ler aquele cardápio já uma alimentação.

É só a aeronave adquirir altitude de cruzeiro, 1h20 depois, começa o ritual. Antes da refeição, você recebe toalha aquecida para higienizar as mãos e a mesa da sua cabine é coberta por um forro com a logomarca da companhia aérea. Já o guardanapo de tecido é pinçado de uma cesta para garantir zero de contaminação com os hábitos do terceiro-mundo.

Muda tudo quando você é chamado de cavalheiro Foto Marcio Fernandes 2021
Muda tudo quando você é chamado de cavalheiro | Foto: Marcio Fernandes/2021

Para fechar o régio almoço de chef — com sopa ou salada de entrada, quatro qualidades de pães e cumbuca de queijos sortidos — vem o vinho do Porto na garrafinha e a taça especializada. São três opções de sobremesa, salada de fruta incluída. O único serviço que você tem de fazer é acionar uma botoeira que existe em seu espaço exclusivo para estender a poltrona na posição de 180 graus. 

O que te aguarda é um sono expressivo de pelo menos 5 horas e aquela sensação ao desembarcar de ter feito curta viagem pelos campos de lavanda da Provença. No final do voo, você desembarca primeiro e tua bagagem chega antes da “ralé pardavasca”, para lembrar a Liliana, personagem de Rubem Fonseca no romance “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”.

As diferenças de classe são medidas por variantes verticais, mas dentro do avião as desigualdades são horizontais. As classes abastadas vão na frente da aeronave e todo o resto é o fundão da viagem. Não tem classe média. Da porta da executiva para fora, até a asa traseira, é tudo considerado poleiro. Neste território de abominável aglomeração, é claro que o tratamento altera completamente. Não tem mais cavalheiro, agora você é chamado de passageiro e ponto.

A espanhola descalça deu sorte viajou em três lugares e fez uma cama Foto Marcio Fernandes 2025
A espanhola descalça deu sorte: viajou em três lugares e fez uma cama | Foto: Marcio Fernandes/2025

Não tem cortesia. A refeição é frango ou macarrão. Você tem direito a uma dose de vinho servido em copo de papel. Se quiser dormir durante o voo, tem de mandar para dentro meio comprimido de Rivotril. Aí você dorme, mas na pescaria, acorda com qualquer turbulência, enfim, é aquele sono de poltrona.

Não há vantagem no cativeiro da classe econômica, mas você pode minimizar o sofrimento. Eu só viajo no corredor do poleiro e naquela fileira de dois lugares. Dias antes do check-in fico monitorando a ocupação da cadeira ao lado. Fecho negócio quando há expectativa de direito de ninguém ficar ao meu lado. A coisa funcionava até que as companhias aéreas passaram a vendar o bloqueio do assento lateral.

É no poleiro que o brasileiro revela a sua capacidade de adaptação de sentimentos e gestos. O voo de ida para a Europa é dominado pela alegria. Dentro da aeronave, o pessoal faz aquela revisão dos planos de viagem, um comenta com a mulher que vai comer três pastéis de Belém e sempre aquela exceptativa se vai haver internet.

No voo de volta, já meio desacorçoado pelos perrengues e roubadas no exterior, o pessoal manda um sorry imotivado, mesmo quando é vítima. Passo por essa situação direto. Muitos anos atrás, o advogado de uma dupla caipira, que não era meu amigo — mas me conhecia o suficiente para nos comunicarmos em português falado em Goiás — destinou um sorry chegando em Lisboa depois de eu tropeçar na sua poltrona.

Diversões na classe da agonia

Só existem três diversões na classe da agonia. Você lê um livro, o que para mim estava descartado. La Madrasta II, minha mochila, estava na tampa. Assistir filme ajuda um pouco na passagem do tempo. A outra é trabalhar a atenção para os personagens amontoados no sofrimento da classe econômica. Como é muita gente na população embarcada, você tem de escolher. O segredo do sucesso deste trabalho é a observação.

Antes de embarcar em Lisboa, vi que havia um coreano branquelo, cabeçudo, com o cabelo cortado em cuia com a indicação da patrona 14 G no cartão de embarque. O cara estava o próprio baicheiro. A minha posição na aeronave era 14 H. Na hora me veio uma previsão de voo tenebroso com aquele oriental cheirando a couro de peixe morto ao meu lado. Depois do G vem o H, mas havia me esquecido do K. Foi um alívio a percepção do erro ao confirmar que as poltronas gêmeas eram H e K.

Nunca crie boas expectativas na tragédia. No poleiro, a chance de tudo piorar é de 79%. Cheguei ao meu assento e havia um camarada com roupa de ginástica folgada, sem sapatos, com os pés na cadeira da frente, fone de orelha vermelho na cabeça e esticado na diagonal de sua poltrona a invadir o meu espaço aéreo. Cismei na hora com o cara, joguei minha mochila de ataque na poltrona e comecei a explicar para ele o procedimento permanente da divisão do espaço durante o voo. O suposto cantor de rap ficou só no assentimento tácito. Sem falar uma palavra.

Assim dorme um emirático woke no poleiro Foto Marcio Fernandes 2025
Assim dorme um emirático woke no poleiro | Foto: Marcio Fernandes/2025

Cismada que se tratava de um brasileiro, a aeromoça também conversou com ele em português ao levar uma certa refeição especial. Refeição especial no poleiro? Sim, o camarada era muçulmano, só comia alimento halal (tradição de gastronomia islâmica), não falava nem muito obrigado em português. Definitivamente, não era da periferia de Brasília, como supostamente havia sido identificado nos levantamentos iniciais. O cara era dos Emirados Árabes e estava meio que fantasiado para baile funk.

Depois do almoço antecipado, o emirático cobriu a cabeça com uma manta e dormiu uns ¾ do voo. Achei positivo o procedimento do rapper das arábias. Ele entendeu a intervenção regulatória. No desembarque, o cara me perguntou sobre segurança no Brasil. Eu dei umas dicas de prevenção de crime violento, mas disse que no Plano Piloto era tranquilo. E Belém, como é? Lá você vai conhecer o inferno. Não é que encontrei um ativista do multiculturalismo dos Emirados Árabes, que ia fazer estágio de cultura woke por dez dias na UnB e depois cair no fuá da COP-30?

O desembarque da classe econômica é uma coisa medonha Foto Marcio Fernandes 2023
O desembarque da classe econômica é uma coisa medonha | Foto: Marcio Fernandes/2023

Fiquei de olho no procedimento de uma esfomeada de mais ou menos uns 43 anos, moreninha clara do pescoço curto, quase a promover o contato permanente de ombros e crânio se ganhar mais nove quilos. Nossa, ela viajou na poltrona do meio, ao lado da irmã de médio porte. Meu Deus, que sufoco, imaginei. Qual o quê! Ela veio prevenida para o voo.

Provavelmente por saber que o almoço seria fraco no quantitativo e servido duas horas após a decolagem, ela trouxe uma matula grande: baguete de presunto, queijo, maionese, tomate e alface. Três saquinhos de batata frita, uma garrafa de plástico de refrigerante e algumas barras de chocolate recheado com uma gosma branca. No almoço, pediu macarrão depois de dar uma conferida em meu frango cadavérico. A esfomeada saiu ganhando ao ficar em segundo lugar na fila da ração. Ela ainda descolou o tablete de manteiga da amiga.

Na classe econômica você sempre vai encontrar gente chique e de aparência abastada a justificar a opção preferencial pela desafortunada posição na aeronave. Imediatamente atrás de mim estava um casal que se enquadrava no estereótipo tanto pelo trajar quanto pelo procedimento em voo.

O senhor me chamou mais atenção em decorrência do cavanhaque grave e os olhos miúdos cobertos por vastas sobrancelhas de milionário. O cara tinha mais de 60 anos e estava vestido com paletó azul escuro italiano de dois botões, com um brasão no bolso externo. Já tinha encontrado um príncipe das arábias andando no poleiro e agora um milionário.

Uai, como ele estava atrás de mim, fiz a análise por meio da informação oral disponível para saber quem era aquele homem de posses e brasão. Em parte, fui me instruindo na conversa dele com a mulher, que estreava no voo um suéter adquirido em outlet, em parte pela palestra que ele desenvolvia com a aeromoça toda vez que ela passava o carrinho.

Seria ele um integrante da Casa de Veneto em situação de recaída? Pertenceria à fidalga família dos Mendonça de Barros e estava perdido na classe econômica? Estaríamos diante de um inspetor geral em exercício da modéstia administrativa? Deixei que os fatos compusessem o que seria o verdadeiro enquadramento do formal passageiro da ansiedade.

Primeiro, ele foi super deselegante com o emir ao adverti-lo de não inclinar a cadeira enquanto sua mulher fazia monarca refeição de macarrão. Em seguida, ao ser perguntado se queria água, café ou chá, resolveu expandir o prestígio estampado no brasão do paletó e requereu um vinho do Porto. A aeromoça apenas refez a pergunta: passageiro, água, café ou chá?

Mesmo assim, comendador Valadares, nome que dei ao camarada, despejou nos ouvidos da aeromoça muitos elogios à querida TAP. Rigorosamente, duas vezes explicou que não conseguiu comprar passagem na classe executiva por falta de disponibilidade da companhia. E a funcionária da TAP, no trabalho duro, escutando conversa mole, sem saber qual será o futuro do seu emprego depois da privatização da empresa.

O que valeu muito da volta foi ter carimbado o passaporte no último dia do uso da certificação manual imigratória na União Europeia. Desde domingo, 12, todo o procedimento passou a ser feito por meio digital.

Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.