Drama venezuelano dos biguás discriminados
03 março 2026 às 10h29

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Ué, eu comprei uma televisão que veio com uns canais instalados de fábrica. Um monte de lixo cultural que decidi assistir da cama nos tempos rápidos de pós-infarto.
O material é basicamente um produto de comunicação massificante da esquerda debochada.
Imagina, você compra a TV da Philco, uma multinacional, e vem no pacote um programa com linguagem neutra. Na verdade, bem-vindes está mais para o genial Mussum.

Tive uma aula de carnaval, herança cultural europeia, como um rito da ancestralidade e resistência negras. Tomei conhecimento de um xamã chamado Waldeci, grande especialista em ayahuasca da Amazônia Ocidental.
Foi muito instrutiva uma palestra sobre rituais sagrados na educação alternativa. O conteúdo é tão bom que você não precisa fazer sociologia na UnB para aprender a pichar muro.
Há um canal dedicado ao ensinamento do que existe de mais desqualificado em baile funk. Eles empregam um método desenvolvido na Bahia para você ingressar no movimento e até se tornar instrutor de uma dança de um baixo nível inacreditável. Um monte de conversa mole sobre o resgate da cultura da favela. Para lembrar um ponto positivo da programação em geral, o curso de risoto pode se materializar em grandes realizações agora que estou sozinho em casa.
Streaming meio fubá: novelas venezuelanas
Tem uma coisa muito engraçada no streaming meio fubá que são as novelas venezuelanas. É uma subimitação dos dramalhões mexicanos, mas com um componente extraordinário. Não tem indígena nem para servir café na figuração. É todo mundo branco de origem espanhola, uns mais escurinhos, no cenário da alta sociedade venezuelana administrando angústias pessoais.

Tem uma novela que se chama “Coração Esmeralda”. Eu assisti parte do episódio “Delírios de Hortênsia”, enquanto passeava em outro canal pelas ruas de Paraty com uma música de sofrência muito doída.
Como é que os caras fazem uma novela com praticamente caucasianos na Venezuela? O pessoal de lá que vem para cá é muito diferente. Estão mais para povos originários em 90%. Fiquei revoltado com a exclusão dos indígenas em Coração Esmeralda.
Parei de assistir e de vez em quando caio na luta de Jana Popozinha contra Gabriela Almeida.
Ainda não consegui decifrar o propósito de uma camarada que se apresenta para responder se o abacaxi é indestrutível. É só mencionar o Brasil. Por fim, relaxo com os elefantes em uma longa sequência de imagens de trilha sonora indiana.
Cinema: humor refinado e arrebatador
Dois filmes fizeram a diferença nos dias de cama. O primeiro é “Pequenas Cartas Obscenas” (2024), uma comédia inglesa muito inteligente com a maravilhosa interpretação de Olivia Colman e Jessie Buckley. Uma aula de humor refinado e arrebatador. O segundo filme é “Valor Sentimental”. Stellan Skarsgård conduz de maneira soberba esse drama sobre o suicídio em um ambiente repleto de dúvidas e dívidas de família que só serão solvidas no final surpreendente do diretor norueguês Joachim Trier. Se você estiver precisando chorar, assista “Valor Sentimental”.

No tempo em que passei de cama, eles acabaram com o grande mural de arte popular entre a Avenida Tocantins e a Rua 9 em Goiânia. Todos os trabalhos foram raspados, removidos ao lixo em uma iniciativa que desconheço o autor e a motivação. Tinha muita coisa boa que ia se sobrepondo no muro. Por uns bons tempos, ele se tornou um mural de arte qualificada e poesia convincente de rua. Eu fotografei em vários momentos aquele endereço de arte nova e gostosa de se ver. Não sei dizer também se eles vão pintar o muro de cinza.
Fiquei muito cismado com a dramaturgia venezuelana que faz a separação das espécies, enquanto fotografava os biguás no Lago das Rosas. Pela minha análise comparativa, se não pode ter índio, uma ave negra muito menos faria uma ponta no enredo.

Me despedi e como consolo disse que eles fazem parte do meu filme. Na volta para casa, para me vingar da Venezuela, encontro um Fiat 147 inteiro, azul do jeito que eu gosto, com recado na janela: “Último dono”.
Tudo de que o Brasil precisa é do último dono desconfiar e ir embora para casa assistir novena venezuelana com a Janja.
Marcio Fernandes é jornalista.

