Coração infartado na chuvarada da cidade encardida
02 fevereiro 2026 às 19h36

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O meu coração infartado voltou andar a pé em Goiânia depois de ficar mal falado em todo o prédio por conta de uma ambulância na porta e a paramédica apavorada em trabalhar o psicológico. Imobilizado na maca, não deu para ver a velocidade da viatura, mas só a audição dos vários tipos de sirene abrindo o trânsito valeu a viagem até o Hospital Anis Rassi, porto seguro. Em um país no qual ninguém respeita regra de trânsito, eu estava na vanguarda de uma ambulância exaurindo a condição prioritária da emergência. Foi a parte boa que antecedeu os cinco dias de UTI, a maior roubada da roubada depois de tomar chuva. É improvável que eu tenha um cachorro e nunca vou gostar de chuva, planta e ir ao médico.
Eu tomei quase todas as chuvas das cinco da tarde nas caminhadas de janeiro. Uma delas grande de 40 minutos torrenciais, com chicotadas de vento na porta de uma farmácia de grande reputação nacional do humanismo. É muito volume de água comprometendo até mesmo as canelas secas das saracuras três-potes no Bosque dos Buritis. Os óculos se tornam uma inutilidade. O pior é quando a enxurrada supera os limites da calçada e você passa a fazer parte de um corpo hídrico. Nesta altura já está mais de 72% molhado e achando que não vai chegar a 100%. O que te resta de cabelo vira uma pasta pregada na cabeça. Mais ou menos um talharim que passou bem do ponto ao dente. Contava muito com a vinda do veranico de janeiro, mas ele não apareceu em Goiânia.

Quando vem o estio, as ruas estão alagadas por falta de adequado funcionamento do sistema de drenagem, o quarto e não menos importante pilar do saneamento básico. Mais ou menos uma hora depois que para definitivamente de chover, o céu alivia a terra e se forma uma faixa de água parada ao longo do meio-fio que pode ser medida em 2,5 metros de um tipo de esgoto. É um caldo escuro de água contaminada de fuligem e de todo tipo de porcaria orgânica e plastificada que as pessoas jogam na rua.
Para chegar em casa você tem de pulá-lo achando que não vai molhar os pés enxarcados. Nas poças de longa extensão às vezes se refletem as sobras de art dèco que moldaram a arquitetura do começo de Goiânia. Enquanto isso, fumadores de crack se dispersam nas vias perpendiculares da Avenida Anhanguera no fim da tarde se preparando para a longa noite de droga corrosiva, frio e confusão.

Depois da chuva, os camelôs descem em direção do Bairro Popular com os manequins embalsamados sobre um carrinho de supermercado. A parte da cidade abaixo da Avenida Paranaíba não tem mais esse nome, hoje é Centro, mas ainda preserva a vocação de ser lugar de classe média baixa e gente muito pobre. Se na construção da capital, o Bairro Popular era onde habitavam os operários da obra de Pedro Ludovico, hoje por lá vivem comunidades de imigrantes africanos. Pessoal também do trabalho, acomodado em cortiços horizontais do mercado malandro de aluguel de quartos e barracões.
Um maltrapilho muito sujo, magrelo de droga, aparentemente lúcido, passa por um beco da Rua 6 e deixa de coletar um par de chinelos que estava atrás de um pé descalço. Rigorosamente, todos, pobres e ricos, sentem exercer um extraordinário status social por não respeitar a faixa de pedestre e avançar o sinal vermelho. Mas há coisas piores na cidade. As estações de ônibus do BRT instaladas pela administração anterior interromperam o direito de andar plenamente a pé pela Avenida Goiás.

Ao chegar em cada uma delas elas, ou você paga a passagem na catraca eletrônica e atravessa a estação ou vai se virar para dar a volta pelas calçadas do outro lado da Goiás, correndo o risco de ser atropelado. Como é que um urbanista projeta uma estação que não tem passagem livre de pedestre, que não vai pegar o ônibus? Ele só quer andar pela avenida Goiás da Praça Cívica até a Estação de Trem sem sair do canteiro central, projetada pelo Atílio Correa Lima para ser andada a pé. Eles mataram o bulevar de Goiânia para instalar gaiolas na rua principal da cidade e na porta do Iphan.
Nesta hora meu coração infartado acha que não tem muito tempo e sai fazendo obras pela cidade como se fosse o prefeito. Primeiro, promove uma limpeza total da fachada das lojas que bloqueiam a exposição da arquitetura art dèco da cidade. É o começo para materializar a restauração da cidade originária. Não há nada de antidemocrático. Tem uma lei específica que obriga a prefeitura fazer o serviço. Depois, por irritação mesmo, ele passa a multar quem joga lixo na rua em taxação progressiva de renda e sem cota para que tem o cabelo roxo. Por fim, o coração infartado anda pela cidade encardida e faz uma auditoria da roubalheira que tem sido para mantê-la suja antes e depois da chuvarada. Volta para casa e toma um banho. Há dois medicamentos contínuos após o jantar.
Marcio Fernandes, jornalista, é colunista do Jornal Opção.

