Depois que fiz 30 anos, passei a pensar com uma certa constância sobre a maternidade. Logo, passei a pensar também sobre a finitude da vida e suas formas de se realizar.

Mariana Salomão Carrara escreveu um livro belíssimo sobre as diversas formas de não mais existir: “É sempre a hora de nossa morte amém”, pela editora Nós.

Carrara é uma escritora ousada. Ela sempre inventa um modo novo de narrar em seus livros. E aqui, essa esquecida narradora, por exemplo, lembra formas diferentes, a cada vez que conta, de como sua suposta filha morreu. Assim, ela inverte a lógica natural da vida, e me fez pensar tanto nessa sobrevivência de um filho.

O livro nos traz muito dessa finitude, do envelhecimento, quando coloca essa narradora, uma idosa, que vai perdendo a memória e confunde sua enfermeira e até nós, leitores, não sabendo se teve ou não uma filha.

Nessas várias versões de sua história que ela conta, existe tantas formas variadas de morrer, de perder um filho, que é quase impossível não ter alguns medos desbloqueados quando se pensa em tê-los: 

  • Medo de perder a gravidez;
  • Medo de perder ainda bebê;
  • Medo de uma doença fatal;
  • Medo de uma doença crônica;
  • Medo de preconceito;
  • Medo de bullying;
  • Medo que sofra;
  • Medo de morte de acidente;
  • Medo de assassinato;
  • Medo de se tornar alguém tão diferente do que você educou;
  • Medo da dor insuportável que a perda de um filho possa causar.

“(…) há tantas formas de perder você, como é desafiadora a manutenção da vida.”

Imaginar, obsessivamente, todas essas formas de morrer, talvez seja uma forma de não só amenizar a dor caso algo aconteça, mas também de conseguir narrar a origem do medo, e lidar com ele. 

Nessa inversão do ciclo natural, a história mostra como a vida é sempre atravessada pela morte. Desde o instante em que decidimos por ter um filho, já lidamos, como diz Mariana Carrara no livro, com a possibilidade de perde-lo, um dia. 

E dentre tantas faltas possíveis e prováveis, a perda para o próprio mundo, com as escolhas que esse filho irá tomar mesmo que a gente, como mãe discorde, é também uma espécie de morte.

“O filho é isso, esse grande potencial da pior fatalidade (…)”

As mães, acredito eu, entregam-se à expectativa de que os filhos sobrevivam a elas. E como fazer isso em um mundo em constante estado de colapso? Esses mistérios da vida, seus contratempos e contradições, é o que a tornam tão bonita, mas como lidar com eles, sendo mãe?

O bebê frágil. A infância descoberta. A adolescência inconsequente. E será que o descanso das mães é a vida adulta do filho?

“(…) como pode ser normal isso, aguardar um nascimento, um começo de vida, sabendo que as vidas acabam, e que a partir daquele dia se inaugura o mais aniquilador dos perigos, que é aquela morte, o tempo todo pode ser a morte (…)”

Mas antes desse “descanso”, me pego pensando em como educar meninas para viver em constante estado de proteção e defesa. 

Me pego pensando em como criar meninos para aprenderem o que significa um “não” e saber respeitá-lo. Em como não responder ao mundo – às mulheres – com violência. Em saberem lidar com uma sociedade que exige cada vez mais uma masculinidade torpe, torta e odiosa.

Me pego pensando em como criar adultos para lidar com a vida prática, apesar de acreditar que ninguém sabe lidar direito com ela. 

Então Mariana Salomão nos faz deslocar a pergunta ao longo da narrativa, e me peguei pensando: “o que deixarei, através da educação de um filho, no mundo?”

“(…) Até terem seus próprios filhos, os filhos não sabem dimensionar o esforço de mantê-los vivos até aqui e arriscam-se demais.”

Em um mundo em constante colapso, machismo e red pills, como ter filhos?

 “(…) como se pode viver e fazer planos num mundo onde tudo acaba tanto.”

E aqui entra a antítese do livro de Mariana Salomão: como é a liberdade de não ter filhos? Porque a narradora não se lembra exatamente se teve, e conta, em uma das suas inúmeras versões, uma vida tão repleta.  

Mas e nós? O “se” não irá sempre espreitar, nos observar pela fresta da porta?

Pois o tempo é injusto com as mulheres. A decisão não pode ficar para tão mais tarde. Chegar aos 38 anos é quase uma surpresa. Nós imaginamos com 18, 20 e poucos e até os 30. Mas os quase 40 nos surpreende e assusta.

Ainda mais quando nos deparamos com uma decisão tão firme. E que ao contrário de quase todas as outras, não temos como voltar atrás: ter ou não filhos. E uma das maiores cruezas da vida, é os vários “e ses” que ela vai nos proporcionando ao longo dos anos.

“(…) que pode ser até difícil aos trinta e poucos anos a mulher decidir se quer ter um filho. O difícil mesmo, porém, é ter setenta e cinco e não conseguir decidir se deseja ter tido um filho.”

Será que ter filhos é a ideia, de uma certa forma, de continuar vivendo no mundo – um modo simbólico de driblar a finitude?

E se a decisão de ter ou não filhos passa diretamente por isso: a ideia de continuidade, de legado, de permanência, de driblar um pouco essa finitude em constante espreita?

Assim como essa imprevisibilidade da vida, o livro de Mariana nos apresenta, com muita beleza e graça, essas inúmeras possibilidades de morte, mas também de vida. E quem caminha com você nela. 

“(…) um lapso que acomete as mulheres e de repente decidem que podem trazer para a própria vida o risco mais absoluto, que é um filho.”