A brutalidade dos adolescentes de Santa Catarina que mataram “Orelha” — nome belo e sugestivo —, um cachorro simpático e de bem com a vida, talvez possa dizer alguma coisa sobre todos os homens e mulheres.

 Saíram belos artigos na imprensa — um deles no Jornal Opção, de autoria de Cilas Gontijo — e, por isso, meu enfoque será diferente, explorando outra questão. Não há dúvida de que há, no caso de Orelha, uma maldade na alma. Mas o comportamento dos garotos sinaliza mais coisas, para além da selvageria individual.

John Gray capa de Cachorros de Palha 1

No livro “Cachorros de Palha — Reflexões Sobre Humanos e Outros Animais” (Record, 228 páginas, tradução de Maria Lúcia de Oliveira), o filósofo britânico John Gray diz que o ser humano considera ter um lugar central no universo e, ao mesmo tempo, advoga que tem o “controle” da natureza. O ser humano se considera deus de todas as coisas, porque tem “cultura” — fala — e “inteligência”. É um deus laico. Matou Deus? Se não, quase.

Na verdade, o ser humano — tão animal quanto uma anta ou um papagaio — não tem, ou não deveria ter, um lugar central na Terra. E controla menos a natureza do que imagina sua vã filosofia.

Matar outros animais, levar centenas deles à extinção, é uma das missões do ser humano?

Cada vez que ocupa mais espaço na Terra — reproduzindo-se como formigas e cupins, aos quais almeja destruir —, o ser humano mais contribui para acabar com outras espécies. Cientistas apontam que a sexta extinção está sendo “dirigida” por homens e mulheres — que se veem como senhores da natureza, deuses laicos, mesmo quando religiosos. (Vale muito a pena ler o livro “A Sexta Extinção — Uma História Não Natural”, de Elizabeth Kolbert, com tradução de Mauro Pinheiro).

Elizabeth Kolbert capa de A Sexta Extinção

Excesso de seres humanos na Terra é destrutivo

Fala-se muito do desmatamento das florestas e da ocupação da soja em várias áreas do país, inclusive no Cerrado, como se os causadores fossem apenas aqueles que desmatam e plantam para colher grãos.

Na verdade, há uma demanda — crescente — por grãos (soja, milho, arroz, feijão, trigo etc.) e carne tanto no Brasil quanto em todos os outros países. É isto que, no geral, leva ao desmatamento e à “invasão” da soja e outros grãos. Os vilões apenas “escondem” os “mocinhos” — nós — que queremos consumir cada vez mais.

Por que vacas e bois, frangos, porcos, cabras e ovelhas — entre alguns mais — não estão em extinção? Porque entraram na dieta dos seres humanos. Eles são mortos — sim, somos comedores de cadáveres (a diferença com os urubus, é que evitamos a carniça. Note-se que, em espanhol, açougue é, apropriadamente, chamado de “carniceria” — para alimentar bilhões de indivíduos em todo o mundo. Então, devem ser mantidos nos pastos e fazendas — à espera de nossa fome (sim, também sou carnívoro).

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John Gray: o ser humano não é o centro do universo | Foto: Reprodução

O que mais anarquiza, por assim dizer, o mundo é o excesso de seres humanos. Nove bilhões de pessoas “balançam” a terra, contribuindo para o aquecimento global e outros problemas.

Num de seus ensaios, de outro livro, John Gray diz que a quantidade de gente na Terra é um problema grave — porque gera desequilíbrio. Um deles é a extinção de outras espécies. Inconscientemente, “pensamos” mais ou menos assim: por que preservar antas e lobos guarás se não podemos comê-los?

Populares e a imprensa espantam-se quando onças, lobos e tamanduás aparecem nas ruas das cidades. Estão “invadindo” nossa seara. Mas por quê? Simplesmente porque tomamos o espaço deles e agora, até para tentar obter comida, acabam aparecendo nas urbes. A rigor, quem é o verdadeiro invasor?

Entre Goiânia e Bela Vista — passando antes por Senador Canedo —, as florestas estão sendo devastadas para ceder espaço para belos e confortáveis condomínios murados e protegidos. Há pouco tempo, apareceu uma onça, supostamente parda, e atacou cachorros. Ouvi de uma pessoa civilizada: “Precisamos matá-la antes que ataque uma pessoa”.

O que realmente aconteceu? Nós, os comedores de tudo — ninguém come tanto e de forma tão variada quanto o ser humano —, invadimos, cada vez mais, os habitats das onças, que, sem comida, começam a avançar sobre bezerros, cachorros e galinhas. É uma questão de sobrevivência. Nós, os invasores, pensamos diferente, é claro.

China: um país superpovoado | Foto: Reprodução

China e Índia: o que fazer?

Economistas são os “bichos” mais engraçados do mundo. Costumam pensar apenas no presente — e, muitas vezes, o passado não lhes interessam.

Ao examinar a população da China, mais de 1,4 bilhão, os economistas relatam que está envelhecendo e que, no futuro, os jovens terão de trabalhar mais para pagar a previdência dos idosos.

Juntos, China e Índia têm quase 3 bilhões de almas. Os dois países são um mundo à parte. O ideal é que a população caísse (e não apenas a da China e a da Índia), e não subisse, mesmo que o número de velhos cresça em progressão geométrica e o de jovens em progressão aritmética.

Anta atropelada entre São Jorge e Alto Paraíso em 2022 Foto Euler de França Belém
Anta atropelada (um macho adulto) entre a Vila de São Jorge e a cidade de Alto Paraíso, em 2022 | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Os jovens devem trabalhar para sustentar os idosos. A tecnologia, que alivia o trabalho pesado, pode contribuir para que os velhos — os lúcidos e saudáveis — possam trabalhar por mais tempo. Os que não podem (ou não queiram) trabalhar devem ser sustentados pelos jovens e, claro, pelo Estado.

Para a Terra “sobreviver” — quer dizer, para preservar os seres humanos —, a população mundial precisa ser menor. Mas será possível reduzi-la? Muito difícil, talvez impossível.

O ser humano faz tudo para si, e muito raramente pelos demais animais. Então, é muito difícil convencê-lo a consumir menos e reduzir o crescimento da população. O Brasil cresce menos, mas, ainda assim, conta, em seu território, com mais de 200 milhões de indivíduos.

O despertar sobre o assassinato de Orelha — a comoção gerada — é altamente importante. Mas é crucial entender que o problema em relação aos outros animais é extremamente grave.

Os outros Orelhas — macacos, pássaros, antas, raposas, onças, pacas, quatis, tamanduás, gambás, lobos guarás — estão sem lugar, exceto nos parques, como o Parque Nacional das Emas, e cada vez mais suas populações diminuem. Muitos deles, num futuro não muito distante, só poderão ser vistos em fotografias.

Então, espera-se que o caso Orelha nos acorde para os animais que, com a ocupação ampliada e desenfreada de espaços, estamos destruindo. E vamos continuar destruindo. Choremos (até oremos) por Orelha e todos os animais que, neste momento, estão acuados por nós. Todos nós.