Em Buenos Aires — Saiu na quinta-feira, 6, o livro “Book of Lives — a Memoir of Sorts”, da escritora canadense Margaret Atwood — uma eterna nobelizável. É provável que seja publicado pela Rocco, sua editora no Brasil. Já saiu, de maneira simultânea, em vários países. Aposta-se, portanto, que será seu novo best-seller.

Trata-se, como diz o título, das memórias da autora do romance “O Conto da Aia” (Rocco, 368 páginas, tradução de Ana Deiró), uma de suas histórias mais lidas. A tradução do título tanto pode ser “Livro das Vidas — Uma Espécie de Memórias” quanto “Livro das Vidas — Uma Espécie de Autobiografia”.

Margaret Atwood relata como se tornou escritora — uma trajetória árdua, por certo. No livro, a prosadora canadense — também poeta e crítica literária das mais atentas (descobri autores canadenses, como os excelentes Carol Shields e Mordecai Richler, por seu intermédio) — conta a história de sua infância (começou a escrever aos 6 anos, inspirada por histórias dos Irmãos Grimm, embora só tenha ido à escola aos 11 anos), de suas lutas feministas.

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“Movo-me através da passagem do tempo e, quando escrevo, a passagem do tempo atravessa-me”, assinala Margaret Atwood na introdução da autobiografia.

Aos 86 anos, a escritora permanece altamente criativa — escrevendo prosa, poesia e crítica literária. Escreveu cerca de 50 livros: romances, poesia e ensaios. Ganhou o British Booker Prize.

A memória “perfeita” é sempre falha

O passado só pode ser contado por meio de uma certa invenção literária. Porque a memória nunca é precisa, e, além disso, é seletiva. 

Margaret Atwood admite que sua memória “falha”, aqui e acolá. “As memórias podem ser precisas, mas fantasiosas.” O que parece uma contradição, mas, a rigor, não é.

O fato é que contar o passado, sobretudo o próprio passado, exige uma certa imaginação. A reconstrução, mesmo se falha, pode se tornar mais rica pela fabulação. O que se escreve é sempre uma verdade aproximada, o que não quer dizer que se mente, sobretudo que se mente de maneira deliberada.

Memórias, por mais precisas que sejam, são, não poucas vezes, ficcionais. Nem um elefante se lembra de tudo, e com precisão milimétrica. O que aconteceu é memória individual, mas também coletiva. A escritora pode narrar um fato de uma maneira, mas um parente próximo pode discordar. O que não significa muito. O que a gente diz resulta sempre da nossa percepção dos fatos.

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O livro já pode ser pedido na Livraria Martins Fontes | Foto: Jornal Opção

O livro tem 624 páginas e já pode ser encomendado, a edição em inglês, nos sites das livrarias Travessa, Martins Fontes (custa 196 reais) e Amazon.

Democracia está sob ameaça de Donald Trump

Nas memórias, a escritora e ativista se diz preocupada que “a era otimista” — do primado da democracia global — esteja sob ameaça. “Porque o autoritarismo está avançando, incluindo o sul da fronteira canadense.” É uma referência às pressões conservadoras do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O presidente americano do Norte está sempre pressionando o Canadá. Chegou a sugerir uma espécie de “anexação” e já fala em terceiro mandato, o que fere a Constituição. Nos Estados Unidos, um político só pode ser presidente por dois mandatos. Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama governaram o país de Toni Morrison e Faulkner duas vezes e não saíram se lamentando. Porque respeitam as leis do país.

Porém, ao contrário dos pessimistas, ainda acredito que a democracia vai resistir nos Estados Unidos. Até porque Donald Trump é provisório e não tem idade (fará 80 anos em junho de 2026) para se tornar um Salazar, um Franco ou um Vladimir Putin.