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Na semana passada, o Jornal Opção fez uma crítica acerba a um texto “The Economist” sugerindo que o Brasil está se “isolando” do Ocidente. A reportagem editorializada é equivocada do começo ao fim. Mas a revista britânica publica material de alta qualidade sobre vários assuntos. Um exemplo é “Como Vladimir Putin estabeleceu um domínio nuclear sobre o mundo” (matéria traduzida pelo “Estadão”).

“Economist” registra que o azeitado e bilionário comércio internacional de tecnologia nuclear e urânio enriquecido é pouco visível.

Há dois mercados dominantes na indústria nuclear civil: a construção de usinas nucleares e a produção e fornecimento de combustível de urânio enriquecido. Estados Unidos, China, França e Coreia do Sul reinam no primeiro. Porém, no mercado de exportação de reatores prevalece a Rússia.

Poucos países são capazes de enriquecer urânio. “Os Estados Unidos e a Europa dependem do urânio enriquecido importado. Grande parte dele vem da Rússia de Vladimir Putin”, anota “Economist”.

Compram-se reatores nucleares de sete países: Estados Unidos, Canadá, China, França, Japão, Coreia do Sul e Rússia. “Mas a Rússia está muito à frente quando se trata de exportá-los.”

Donald Trump: enquanto o “tarifeiro” grita, rivais estão avançando na área nuclear | Foto: Reprodução

“A Rosatom, empresa nuclear estatal russa, detém cerca de 65% do mercado global de exportação de reatores nucleares para usinas de energia”, regista a publicação inglesa.

“A Rússia domina não apenas o mercado internacional de usinas nucleares recém-construídas, mas também o mercado de urânio enriquecido, usado como combustível para elas, controlando 44% da capacidade mundial de enriquecimento de urânio”, informa “Economist”.

Em 2024, a Europa comprou “um quarto do urânio enriquecido da Rússia”. Os principais receptores foram Bulgária, República Tcheca, Finlândia, Hungria e Eslováquia”. Os Estados chegaram a adquirir, em 2023, “um quarto de seu urânio enriquecido da Rússia”.

A Rússia fatura alto com a venda de urânio enriquecido. Em 2023, recebeu 2,7 bilhões de dólares com exportações, notadamente para os Estados Unidos e Europa. E faturou “1,1 bilhão de dólares com a venda de reatores e componentes”.

A Rosatom divulgou que ganhou mais de 16 bilhões de dólares em 2023, com a venda de urânio enriquecido, e 7 bilhões de dólares com a construção de usinas de energia.

Há uma operação em curso, nos países ocidentais, para reduzir a dependência em relação ao urânio enriquecido da Rússia. Atua-se também para competir, de maneira vigorosa, com o país de Putin no mercado de reatores.

O grupo Sapporo Five, formado pelos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, França e Japão, investiu, em 2023, 4,2 bilhões de dólares em enriquecimento de urânio.

A dependência de reatores russos tende a ser reduzida. A Westinghouse vai fornecer combustível nuclear para Bulgária, República Tcheca e Ucrânia.

Os capitalistas (e governos) ocidentais operam para expandir seu raio de influência na exportação de reatores. Porém, há uma pedra no caminho: “Para conquistar pedidos estrangeiros, as empresas ocidentais precisam primeiro mostrar que podem construir dentro do prazo e cumprir orçamentos em casa”. A expertise russa é maior.

Se o Ocidente planeja enfrentar a Rússia no mercado nuclear — e não se está falando de guerra, e sim de comércio —, a China é quem vem avançando.

De acordo com “Economist”, a China tem “um histórico de construção de reatores em apenas seis anos e pode oferecer aos clientes financiamento apoiado pelo Estado”. É uma má notícia, sugere “Economist”, para as potências ocidentais. Até porque a China é aliada da Rússia. “A expectativa de um mercado nuclear internacional dominado não por uma, mas por duas autocracias, deve preocupar o mundo interior”.

A revista, desta vez, tem razão. O Ocidente pelo menos é democrático — apesar dos arroubos cada vez mais autoritários (ainda não totalitários) de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos — e a Rússia e China são ditaduras cruentas.