No ano em que nasci, em 1961 — há quase 65 anos —, minha avó materna Margarida Fagundes morreu de câncer. Meu pai, Raul Belém, era farmacêutico e cuidava dela, que chegou a fazer tratamento em Goiânia. Dadas as dores, gritava muito, relatou-me minha mãe, Frutuosa Fagundes (Zinha).

Em seguida, Josefa, a Zefinha — filha de Margarida —, morreu de câncer, que, da mama, saltou para o pulmão e outros órgãos, chegando a atingir os ossos. Deu-se metástase. Era fumante.

Nelito Fagundes Furtado, irmão de minha mãe, teve câncer, cuidou-se e, apesar da doença, viveu mais de 90 anos. Era um forte, como Zefinha. Os dois tinham na religião — eram católicos — um aliado poderoso. Quiçá um “medicamento”, se não para o corpo, ao menos para a alma.

Depois, Raul Belém teve câncer de pâncreas. Chegou a ser operado — o médico Luiz Pedreira, do Hospital Amparo, cortou a cauda do pâncreas — e resistiu pouco mais de um ano, sob os cuidados da médica Geórgia Cunha. No final, alucinava — via uma “velhinha” levantando sua cama — e reclamava das dores e dos puns frequentes. Morreu em 2011, aos 74 anos.

Roseana Sarney e José Sarney
José Sarney com a filha Roseana Sarney | Foto: Reprodução

Eliana Fagundes Belém, dos filhos de Raul e Frutuosa, foi a primeira a ter câncer. Tudo indica que o câncer de mama não era tão agressivo. Por algum motivo, que não revelou, optou pelo suicídio. Deu um tiro na cabeça e morreu, em 2013, aos 49 anos, em Atlanta, nos Estados Unidos. Era uma jovem bonita, saudável, vaidosa e alegre.

A caçula da família, Érika Fagundes Belém, teve câncer aos 42 anos. Fez um longo tratamento no Hospital Araújo Jorge e, depois, no Cebrom. Mesmo com momentos depressivos, batalha pela vida, felizmente sem resquícios da doença. Fez 54 anos em janeiro.

Então, o câncer não me assusta mais? Pelo contrário, assusta. Em 2012, quando tive uma tromboembolia, que me levou a ser internado no Hospital do Coração, em Goiânia, por vários dias, a causa (ou causas) do problema não aparecia nos exames. Ao menos um dos médicos aventou a possibilidade de tumores cancerígenos terem “disparado” pequenos trombos.

Roseana Sarney foto de Antônio Martins
Roseana Sarney é deputada federal e foi governadora do Maranhão | Foto: Antônio Martins

A pneumologista Maria Auxiliadora, Sici, me convocou para uma conversa, em seu consultório, e, de cara, sugeriu que poderia ser trombofilia — quer dizer, uma herança genética. A médica escreveu uma carta para a Unimed sugerindo que patrocinasse um exame de sangue — na época, feito em São Paulo — para verificar se eu era trombofílico, por assim dizer.

O exame confirmou o que a experiência da médica — hoje, apenas no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (UFG) — havia sugerido. Passei a tomar anticoagulante — Coumadin, Xarelto (me me deu urticária e tontura) e, agora, Marevan — e recebo cuidados médicos da hematologista Maria do Rosário, no Hemolabor.

Desde a tromboembolia, ocorrida há quase 14 anos, não tive mais tromboses. Hemorragia, só tive duas vezes, mas sem gravidade (“urinei”, numa delas, uma grande quantidade de sangue). Sou saudável — não bebo álcool, não fumo e como verdura de maneira regrada para não impedir a ação do anticoagulante.

A coragem de Roseana Sarney

Por que estou contando tais casos pessoais? Porque recebi duas mensagens de amigos — um advogado e um sociólogo — criticando a ex-governadora e deputada federal Roseana Sarney por se expor nas redes sociais, sem cabelo e com manchas no rosto.

Roseana Sarney foto redes sociais
Roseana Sarney: tratamento com quimioterapia e imunoterapia | Foto: Redes sociais

O advogado e o sociólogo recriminam Roseana Sarney, que estaria, na opinião deles, se “exibindo”. “A filha do Sarney está fazendo uma espécie de strip-tease assustador e desnecessário”, disse o primeiro.

Discordo totalmente. Roseana Sarney não está se exibindo. Está mostando que luta para não ser derrotada pelo câncer (e, mesmo se for, soube resistir, com bravura). Corajosa, afirma que não tem medo de morrer. Não sei se teria a mesma coragem e capacidade de resistir.

O câncer de mama triplo negativo, raro e dos mais agressivos, está sendo enfrentado com quimioterapia e imunoterapia. Roseana Sarney não se dobra ante a doença há vários anos.

Aos 72 anos — uma idosa, portanto —, Roseana Sarney fala abertamente da doença e não receia se mostrar, calva e com manchas no rosto. O que prova destemor.

O sociólogo me pergunta se eu faria o mesmo. Não se sei se teria a mesma energia de Roseana Sarney. Mas gostaria de fazer, ou seja, de não me esconder. A rigor, não sei exatamente o que faria.

Roseana Sarney jovem 1
Roseana Sarney mais jovem | Foto: Reprodução

Roseana Sarney é, para mim, uma mulher de coragem, de fibra. Quando a vejo falar, sempre com firmeza e precisão, nem percebo direito que está doente. O que vejo é uma pessoa sólida e destemida.

Todos nós vamos morrer um dia. Não há escapatória. Mas o que Roseana Sarney parece nos dizer é que a morte é apenas um pedacinho da vida. A vida é muito maior e não pode ser contada a partir da morte — ainda que seja trágica.

A morte não encerra a história de uma pessoa. Se a história do indivíduo, mesmo que seja um anônimo, for contada, ele ganhará uma, digamos, continuidade. Outra vida.

Roseana Sarney está nos dizendo, com seu sofrimento mas com a alma ativa, que o câncer a abate, mas não a derruba totalmente. Aprecio o seu sorriso — que sugere prazer por estar viva. Há uma celebração da vida e, sobretudo, não há culto da morte.

O jornalista Otavio Frias Filho recomendou que, quando escrevessem seu obituário na “Folha de S. Paulo”, não dissessem que havia “lutado” — o clichê habitual — contra o câncer. Porque se luta realmente contra a esta doença insidiosa e traiçoeira? Talvez não. Se luta há, é inglória.

Entretanto, no caso de Roseana Sarney, fica-se com a impressão de que o câncer (ou cânceres) tenta vencê-la, há uma boa porção de anos, mas não consegue. Há uma força poderosa em Roseana, tão física quanto psíquica, que a leva a resistir. Ela vem ganhando, apesar de todo o sofrimento, sobretudo porque não se deixa abater inteiramente. Não há, portanto, como não admirá-la e respeitá-la.