Recado da China para os Estados Unidos: “Nunca interrompa seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro”
04 abril 2026 às 21h00

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Quanto menor o Estado, reza o liberalismo, melhor para o mercado e para a sociedade. A frase é de uma beleza quase poética. Na prática, o capitalismo precisa do Estado para resolver os problemas econômicos e sociais que são suas “criaturas”. As crises do modo de produção derivam menos de erros do Estado do que de suas ações.
Donald Trump foi eleito presidente da República para manter os Estados Unidos como império dominante. O mercado o escolheu para rugir para a China. Para contê-la. O republicano é o representante do Estado escolhido pelos senhores do capital para tentar “salvar” o país de Milton Friedman, quer dizer, para impedir que sua hegemonia seja superada pelo país do presidente Xi Jinping.
É evidente que o Estado americano é forte e sólido — e, evidentemente, é incomparavelmente maior do que Trump. Mas poderá impedir que os Estados Unidos sejam superados pela China em termos de economia? Talvez sim, talvez não.

Mas não deixa de ser uma contradição que os chefes do mercado — Elon Musk, Larry Ellison, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Sam Altman, Bill Gates —, tão críticos do Estado, clamem que este salve a economia americana do norte.
É provável que, neste momento, o capitalismo americano do norte precise, de maneira ampla, do Estado para salvá-lo de um possível declínio. Quando precisa do Estado, de seu socorro, o capitalismo está “doente”.
Posta a questão do Estado e do mercado, comenta-se a seguir a reportagem “Como a China espera sair vitoriosa da guerra entre Irã e EUA”, da revista britânica “The Economist”.
Para elaborar o texto, “Economist” ouviu chineses (e, claro, emite suas próprias conclusões): diplomatas, assessores, acadêmicos, especialistas e funcionários atuais e antigos.
Napoleão, Trump e os chineses
Qual o objetivo real da guerra dos Estados Unidos contra o Irã? Proteger Israel não é a questão crucial. Mais plausível é sugerir que o governo de Trump, representando o mercado ianque, está tentando intimidar a China. “Mostraria como o controle americano sobre o fluxo de petróleo deixa a China vulnerável”, registra “Economist”.

A publicação inglesa não citou a Venezuela que, ao lado do Irã e da Arábia Saudita, é outro grande produtor de petróleo. Trump trouxe a Venezuela para seu círculo de aliados — retirando-a da zona de influência tanto da China quanto da Rússia. Está em jogo o petróleo que, apesar de todas as energias alternativas, ainda é o que move o mundo.
De acordo com “Economist”, os Estados Unidos, ao chafurdarem-se no Oriente Médio, estariam dizendo aos aliados da China (e, acrescente-se, da Rússia) que a potência asiática não os defende. Por quê? O recado é óbvio: porque teme uma guerra contra os EUA.
Os chineses não percebem a questão do Oriente Médio, notadamente do Irã, do mesmo modo que os americanos do norte. “Eles consideram a guerra um grave erro americano”, informa “Economist”. Os chineses seguem a máxima do francês Napoleão Bonaparte: “Nunca interrompa seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro”. (Por sinal, “Economist” não menciona o erro de Napoleão ao invadir a Rússia, em 1812. Na época, a Europa, sabiamente, não o interrompeu.)

“Economist” não diz isto: mas os Estados Unidos estão gastando, com a guerra, mais do que previam. E vão gastar muito mais. Porque a batalha continua. O gasto público — que poderia ser direcionado para investimentos no mercado de tecnologia, para citar um exemplo — vai impactar as contas do governo e, mesmo, afetar o custo de vida. Frise-se que a popularidade de Trump está em queda. Até o mercado, que o apoia, começa a assustar-se.
Os chineses apostam que a guerra vai acelerar “o declínio dos Estados Unidos”. Eles sugerem que a “formidável demonstração de força militar” americana do norte “contrasta com sua falta de propósito ou contenção”. Trump não quis ouvir as orientações sensatas dos especialistas de seu país e talvez esteja repetindo os equívocos cometidos no Iraque — que, por sinal, hoje é dirigido por xiitas.
Os Estados Unidos, na interpretação dos chineses, “podem passar anos apagando incêndios no Oriente Médio”. O que poderá distrair “os Estados Unidos do Leste Asiático, onde, se a China conseguir o que quer, o século 21 será moldado”.
Perda de confiança nos Estados Unidos
Países que dependem dos Estados Unidos, econômica ou militarmente — como os europeus —, não confiam mais no aliado de tantas jornadas.

Veja-se um exercício que, embora anacrônico, tem certa validade. Se Donald Trump fosse presidente entre 1939 e 1945, os EUA teriam ajudado a Inglaterra e a França a derrotar o nazista Adolf Hitler, da Alemanha? Talvez não. Por certo, não se aliaria ao regime totalitário germânico, mas, como muitos americanos queriam em 1939 — Pearl Harbor foi o gatilho que levou o país de Franklin D. Roosevelt à guerra —, poderia se manter numa posição isolacionista. (Vale a leitura do romance “Complô Contra a América”, no qual Philip Roth exibe Roosevelt derrotado e um pró-nazista no comando dos Estados Unidos.)
Sublinhe-se que, na guerra da Rússia contra a Ucrânia, a principal aliada da segunda é a Europa, que não tem a estrutura militar dos Estados Unidos. Se Trump falasse de maneira mais ostensiva com Vladimir Putin, para além da retórica de salão, é provável que a Rússia daria uma recuada. Fica-se com a impressão que interessa a Trump “enfraquecer” os países europeus, como Alemanha, Inglaterra (velha aliada) e França.
A guerra do Irã começa a gestar uma crise na Europa. Porque a energia — gás e petróleo — tende a ficar mais cara.

Chineses disseram a “Economist” que “as autoridades” de seu país “acreditam que a guerra demonstra a sabedoria da ênfase de Xi Jinping em promover a autossuficiência em tecnologia e commodities”.
A reserva estratégica de petróleo da China chega a “1,3 bilhão de barris de petróleo bruto, suficiente para vários meses”. O governo de Xi Jinping “diversificou a geração de energia para fontes nucleares, solares e eólica, mantendo o uso de carvão extraído internamente”.
Ao mesmo tempo, e de maneira pragmática, a China facilita “o comércio de petróleo com o Irã”.
Se os Estados Unidos operam estratégias de dissuasão, a China não fica atrás. Xi Jinping chegou a ameaçar restringir a oferta de terras raras para a nação de Trump. “Xi já está buscando novos pontos de pressão, incluindo moléculas farmacêuticas vitais, alguns chips e logística. Ele quer que a China domine novas tecnologias, como computação quântica de robótica.”
Se os Estados Unidos saírem enfraquecidos da guerra contra o Irã, os chineses avaliam que será mais fácil negociar com Trump — que, naturalmente, não é eterno e sairá do governo daqui a dois anos e nove meses.

Em maio, “a China espera lançar as bases para um acordo que limite o uso de tarifas e controles de exportação pelos Estados Unidos e possivelmente crie uma estrutura para o investimento chinês” no país de Trump.
“Os pensadores chineses são muito relutantes em contemplar um cenário em que os Estados Unidos ajam como uma potência desonesta, destruindo a ordem mundial que criaram. Um planeta instável seria desconfortável para a China. A desordem global prejudicaria seu crescimento impulsionado pelas exportações”, anota “Economist”.
A revista britânica, secundando uma opinião do historiador Niall Ferguson — não mencionado no texto —, frisa que os Estados Unidos não podem ser tratados como frajolas. “Os Estados Unidos demonstraram repetidamente uma notável capacidade de se reinventar.”
Apesar dos avanços substantivos da China, nenhum país é tão inventivo, em termos de tecnologia, quanto os Estados Unidos. É o que mantém o país na liderança da economia global.
Certa em quase tudo, “Economist” derrapa em parte ao dizer que “a China é cautelosa, envelhecida e presa à ideologia do partido”.
De fato, a ideologia de esquerda é dominante. Os comunistas mantêm o poder, com mão de ferro. Mas o mercado está cada vez mais livre para expandir seus investimentos e pesquisas. A China é menos fossilizada do que se pensa. Tanto que tem algumas das melhores escolas de engenharia do mundo e equipamentos tecnológicos cada vez mais de primeira linha. Seu avanço na área de veículos elétricos é formidável — tanto que incomoda a indústria americana e europeia.
Os chineses não são tão cautelosos quanto sugere “Economist”. Pelo contrário, são arrojados. Tanto que estão se aproximando, cada vez mais céleres, da economia americana do norte — ameaçando-a inclusive no campo tecnológico (que é o mais assustador para a terra de Bill Gates). Por incrível que pareça, o comunismo não atrapalha o, por assim dizer, “capitalismo de Estado” ou “socialismo de mercado” da China. Talvez nenhum país tenha crescido tão rápido na História quanto a China. Nem mesmo os Estados Unidos.
“Economist” sugere que, se os Estados Unidos “não” querem oferecer segurança global — está deixando a Europa à mercê da Rússia (que tem armas nucleares em grande quantidade) —, a China se mostra “relutante em intervir”.
Ora, por que a China teria dar segurança global, por exemplo à Europa e ao Irã, se seu objetivo é outro? “Economist” não discute isto. A China opera para se fortalecer e tomar o lugar dos Estados Unidos, como potência, por meio da economia. É a missão à qual se impôs. Se está dando certo, por que mudar de rumo?
Na conclusão do texto, “Economist” enfatiza que “A China está depositando muita confiança na suposição de que os Estados Unidos não conseguirão prosperar em meio à anarquia que estão criando. Há um futuro em que os Estados Unidos abraçam a turbulência e a China se isola. Esse futuro pode pertencer aos Estados Unidos”.
O escocês Niall Ferguson, que dá aulas nos Estados Unidos e na China — é um dos mais notáveis historiadores da atualidade —, aposta que, dada à sua capacidade tecnológica, de se reinventar, e sempre rapidamente, o capitalismo americano do norte não será superado pelo “capitalismo” do país asiático.
Talvez seja um otimismo desmedido, mas pode ser que Niall Ferguson esteja certo. Mas e se não estiver? De fato, a economia americana não está se esgotando. Mas o avanço da China, em termos tecnológicos, é formidável. A história prova que os gigantes também caem. Sobretudo, o tombo dos grandes é devastador e, às vezes, incontornável.
A turbulência gestada pelos Estados Unidos é, claramente, uma ameaça à China. Até agora, não deu bons resultados. Os chineses aceitarão a provocação e irão à guerra? Não parece. A queda da Alemanha, em 1945, é um exemplo a ser visto e revisto. Vencer pela economia pode ser menos traumático do que pelas armas.

