Querem fritar Toffoli ou abalar a reputação do STF? Extrema direita agradece haraquiri da imprensa
14 fevereiro 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
“Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a República. Se queremos que continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro?” — Tancredi Falconeri, personagem do romance “O Gattopardo”, de Tomasi di Lampedusa
1
Amores da imprensa pela ditadura
A “Folha de S. Paulo” apoiou a ditadura civil-militar e, espertamente, usou a campanha das Diretas Já para “limpar” seu passado… recente. Há aos menos dois livros que dissecam os “amores coniventes” de Octavio Frias de Oliveira pelos governos dos generais.
O Grupo Globo apoiou o golpe de Estado de 1964 e todos os governos da ditadura, sem exceção. Foram 21 anos de parceria produtiva. A TV Globo chegou a tentar esconder os movimentos da campanha das Diretas Já, em 1984. Acabou tendo de recuar.
Há pouco tempo, “O Globo” publicou editorial lamentoso — sincero? — informando que foi um equívoco o longo conúbio com a ditadura.
Para servir (e se servir da) a ditadura, a “Veja” demitiu o diretor de redação Mino Carta. O ministro da Justiça, Armando Falcão, teria pedido sua cabeça. Há quem postule que Roberto Civita, o publisher da Editora Abril, teria oferecido a cachola do jornalista para obter um vultoso empréstimo.
Na semana passada, Demétrio Magnoli, comentarista da GloboNews, fez mea culpa e se disse arrependido por ter apoiado o impeachment de Dilma Rousseff (PT), que foi eleita presidente da República duas vezes.

2
A condenação da Lava Jato
A Operação Lava Jato agora é apresentada como excrescência pela imprensa e, até, pelo Supremo Tribunal Federal (notadamente o ministro Gilmar Mendes), que a apoiou, ao menos durante certo tempo, com entusiasmo inquisidor.
Há quem acredite — até jornalistas parecem (fingir) crer — que a Lava Jato foi uma invenção unicamente do ex-juiz Sergio Fernando Moro, de alguns procuradores da República — como Deltan Dallagnol — e membros da Polícia Federal.
Mas não é bem assim. A Lava Jato só deu certo, por um certo período — a caça às bruxas (positivista?) queria dar uma lógica moral à amoralidade capitalista —, porque a imprensa lhe deu amplo apoio.
“Vazavam” informações para a imprensa, notadamente para os conglomerados — Grupo Globo (TV Globo, O Globo, GloboNews), “Folha de S. Paulo”, UOL, “Estadão”, “Veja” etc. —, que publicava informações destrutivas, inclusive fotos e áudios, sobre políticos e empresários-empreiteiros.
Quem tornou a Lava Jato forte e popular não foram unicamente juízes, procuradores e policiais federais abnegados. Quem lhe deu musculatura foi a imprensa.

As reportagens eram, no geral, sensacionalistas, sem nuances. De cara, suspeitos ou, em alguns casos, acusados já eram apresentados como condenados.
3
A ressurreição de Lula da Silva
Passado o furor pró-Lavo Jato, sobretudo por causa do surgimento de uma direita golpista — bolsonarista —, a imprensa, na companhia do Supremo (e de parte do PIB), começou a entender que Jair Bolsonaro, presidente entre 2019 e 2022, era um “mal” a ser “extirpado”.
O mal, sabe-se, não é a direita em si. É a direita golpista, a extrema, cujo objetivo é, mesmo tendo viabilidade eleitoral, excluir a democracia.
Então, ante o golpismo da turma de Jair Bolsonaro — e não há como questionar: é golpista mesmo —, parte das elites (e não apenas das finanças), na qual se inserem a imprensa e o Supremo, percebeu que era preciso “reinventar” o ex-presidente Lula da Silva.
Porque Lula da Silva era o “único” com viabilidade eleitoral suficiente para arrancar Jair Bolsonaro da Presidência da República. Então, para reerguer o líder do PT, era preciso recontar a história da Lava Jato.

Ou melhor, era preciso destruir a imagem positiva da Lava Jato. Mais uma vez, forjou-se uma conciliação pelo alto — agora por motivo justo (o qual apoiei): a defesa da democracia — e se iniciou uma campanha, de grande vulto, contra Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros.
A guerra contra o Supremo vai enfraquecer, talvez de maneira incontornável, a instituição que, em tempos turvos e difíceis, defendeu a democracia com uma coragem inaudita.
O ataque à Lavo Jato, um pacto das elites (que também apoiei, repito, pela necessidade da defesa da democracia), permitiu a ressurreição de Lula da Silva.
O petista-chefe foi eleito e, em três anos e dois meses, não atentou contra a democracia. O que é um dos pontos positivos de seu governo, além do apoio aos programas sociais. Um negativo é não ter uma política de segurança para abalar o poder do crime organizado.
4
O golpismo contido pelo Supremo
Porém, a extrema direita golpista operou para derrubar Lula da Silva. Só não o conseguiu dada a aliança do Exército — leia-se general Freire Gomes — com a Aeronáutica — leia-se brigadeiro Baptista Júnior —, que não quiseram apoiar o golpismo do grupo de Jair Bolsonaro, que incluía generais (mas não Exército) e a Marinha.
O golpe foi abortado, exatamente por falta de apoio militar substancial, em termos de instituições — o Exército e a Aeronáutica —, e os golpistas foram enquadrados pelo Supremo Tribunal Federal.
De fato, algumas penas são muito pesadas. Mas quem atenta contra a democracia precisa mesmo ser condenado de maneira exemplar. Até para que, de maneira pedagógica, não volte a postular putsch.
A lua de mel da imprensa com o Supremo demorou um bom tempo. O ministro Alexandre de Moraes se tornou popular, embora não seja populista — pelo contrário, é até discreto, reservado. E, como não poderia deixar de ser, legalista.
Mas não há lua de mel que dure para sempre entre imprensa, Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário. A hora da destruição sempre chega. O espírito inquisitorial está presente no manual de redação mental dos jornalistas. É preciso devorar alguém para forjar manchetes espetaculares e obter audiência ampliada.

5
Supremo, Banco Master e Vorcaro
Então, o Supremo, aquele que garantiu a permanência da democracia ao enquadrar a extrema direita, está na berlinda. Sob ataque cerrado da Polícia Federal e da imprensa — o novo casamento secular. Os vazamentos, que nós, repórteres, achamos verdadeira ambrosia dos deuses, têm o objetivo menos de esclarecer do que de desgastar imagens. A dos ministros Antonio Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, por exemplo.
O Supremo está acuado, na defensiva, ante casos a esclarecer e ainda não devidamente esclarecidos. Mas apresentados como resultados incontestáveis.
O “problema” é o caso Banco Master. Sim, para ser bem explorada, uma denúncia precisa incluir a palavra “caso”.
Até pouco tempo, pouquíssimo tempo, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, circulava por quase todas as rodas — até pelas do presidente Lula da Silva, guiado pelas mãos do economista e ex-ministro Guido Mantega, que aparentemente teria se tornado lobista — e ninguém apresentava quaisquer defeitos no musculoso latin lover.
Os negócios de Daniel Vorcaro — assim como os negócios de muitos empreendimentos do capitalismo amoralizante — não eram muito católicos. Mas pareciam. Tanto que o playboy não era barrado em nenhum lugar, nem mesmo em dependência presidencial. Era, por assim dizer, um André Esteves, um Setubal, um Moreira Salles mignon.
Daniel Vorcaro aspirava, por assim dizer, a ser “master”, como os donos do Itaú, do Bradesco e do BTG Pactual. A turma que agora o expurga, e o trata como “desclassificado”, podia até torcer o nariz, dada a nobreza dos banqueiros patropis, mas certamente não o excluía dos banquetes. E nem o denunciava.
Que ninguém tenha percebido que o Banco Master não poderia dar certo, como não deu, é o enigma que a imprensa não vasculhou até agora (a imprensa, quando quer e precisa, dorme bem, o sono dos “justos”). Havia proteção, especula-se, de políticos poderosos, até, supostamente, de magistrados? Quando Daniel Vorcaro passou a “distribuir” dinheiro para influenciadores? Só recentemente ao bancá-los para atacar o Banco Central?
O caso do Banco Master não será inteiramente esclarecido agora e a experiência ensina que várias pontas continuarão soltas. Quando a poeira da sensação abaixar, e só abaixará quando a imprensa se portar de maneira mais racional e distanciada, será possível avaliar e, aí sim, julgar o caso com realismo e real senso de justiça.
Por enquanto, há um grau de passionalidade — similar aos tempos da Lava Jato — que não permite avaliar quais são ou serão os reais danos do caso Banco Master para os cidadãos comuns e para o Erário. Os novos reis da guilhotina exigem sangue, como os jacobinos entre 1789 e 1793, até que, como Saturno, a revolução francesa começou a devorar os próprios filhos.

6
Imprensa e Supremo Tribunal Federal
Mas uma questão é certa: a imprensa promove uma campanha, quiçá impensada, contra o Supremo Tribunal Federal. Assim como a extrema direita “caça” Alexandre de Moraes para disfarçar sua caçada ao Supremo — porque o STF abalou os alicerces dos golpistas do bolsonarismo —, a imprensa “caça” Dias Toffoli para caçar o Supremo como um todo.
É da natureza da imprensa ser destrutiva (o eufemismo é crítica) — e contra qualquer um, não importa se de direita ou se de esquerda. Se o rebanho está dizendo uma cousa — que há algo de podre no reino da Dinamarca patropi e que a República poderá cair —, nenhum bezerro pode discordar.
Quem não segue o rebanho no ataque ao Supremo é malvisto. Se brincar, será acusado de envolvimento na sujeirada. Ou de conivência.
A esquerda assiste o ataque ao Supremo bestificada — como o povão teria assistido à queda da Monarquia e a ascensão da República. Parece não entender que a guerra contra o Supremo vai enfraquecer, talvez de maneira incontornável, aquela instituição que, em tempos turvos e difíceis, defendeu a democracia com uma coragem inaudita.
Quem ganha com a desmoralização do Supremo? A imprensa não ganhará nada. Mas a extrema direita, de tanto rir, já está babando. Porque poderá ser a grande vitoriosa. Se concluirá que um STF “sujo” errou, por exemplo, ao condenar à prisão Jair Bolsonaro, Walter Braga Neto, Augusto Heleno, entre outros.
A ajuda da imprensa, direta ou indiretamente, a extrema direita dirá: “Nós tínhamos razão”. Um Supremo, com Toffoli e Xandão, “não” tem moral para condenar Jair Bolsonaro e sua turma.
A partir do que se disse acima, o leitor poderá pensar que estou a defender que não se deve investigar ministros do Supremo, como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Mas não é o que estou dizendo.
O que estou sugerindo é outra coisa. A investigação deve ser feita, sem nenhuma proteção. Mas é preciso refletir sobre o que está realmente ocorrendo e pode acontecer. A intenção é realmente esclarecer os fatos, denunciando possíveis falcatruas, ou destruir a imagem da instância máxima do Poder Judiciário brasileiro?
A pressa da imprensa, com o apoio da Polícia Federal, deve mudar os ritos (o tempo obrigatório) da Justiça? Os novos Torquemadas, como o francês Robespierre, um dia poderão ser as novas vítimas do sistema inquisitorial.

