Projeto Brasil: Nunca Mais, que denunciou os crimes da ditadura, foi ideia de uma mulher
28 fevereiro 2026 às 21h00

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O projeto “Brasil: Nunca Mais” — inicialmente nominado de Testemunhos Pró-Paz (TPP) — foi a primeira comissão da verdade sobre os graves delitos, assassinatos e tortura, cometidos pela ditadura civil-militar. O livro que resultou do levantamento, “Brasil: Nunca Mais” (Vozes, 312 páginas), é um documento histórico de alto valor.
A história de como foi feita a pesquisa que deu origem à obra “Brasil Nunca Mais” — título inspirado no argentino “Nunca Más”, organizado pelo escritor Ernesto Sabato — foi contada, primeiramente, por Lawrence Weschler, ex-repórter da revista “New Yorker”, no livro “Um Milagre, um Universo — O Acerto de Contas Com os Torturadores” (Companhia de Letras, 296 páginas, tradução de Tomás Rosa Bueno), de 1990 (leia resenha: https://tinyurl.com/25de3cxu).

Agora, saiu “Nunca Mais — Os Bastidores da Maior Denúncia Contra a Tortura Já feita no Brasil” (Discurso Direto, 239 páginas), do jornalista e pesquisador Camilo Vannuchi. O livro, excelente, é filho do podcast “Nunca Mais”, de 2025.
Camilo Vannuchi conta muito bem, com sabor de crônica, a história dos indivíduos que cooperaram, de maneira sigilosa, para colher a documentação e, depois, escrever e publicar o livro “Brasil: Nunca Mais”.
O pesquisador revela que uma mulher, a advogada Eny Raimundo Moreira, foi a idealizadora do projeto de se criar um amplo arquivo, com material oficial — do Superior Tribunal de Justiça (STM) —, sobre a barbárie dos governos militares.

A “recuperação” do papel de Eny Moreira e de outros personagens “secundários”, como os adolescentes Avel de Alencar e José do Egito Sombra, vale o livro. A coragem e o empenho do católico dom Paulo Evaristo Arns e do pastor evangélico Jaime Wright merecem registro valioso e preciso.
Paulo Vannuchi disse a Zuenir Ventura que “Eny foi mais importante” para o projeto do que ele. Sua coragem e eficiência “contaminaram” amigos e aliados.
Eny Raimundo Moreira e os arquivos do STM
Ao lembrar que Sobral Pinto (advogado de Luiz Carlos Prestes) havia dito que, ao término da ditadura de Getúlio Vargas, em 1945, processos judiciais do Estado Novo haviam sido incinerados, Eny Moreira alertou o jovem advogado Luiz Eduardo Greenhalgh: “Eles vão queimar tudo! (…) A anistia vai sair e eles vão incinerar”.
Greenhalgh cedeu: “Eny, vamos dar um jeito”. A advogada insistiu: “Não é só dar um jeito. A gente precisa fazer acontecer. E tem que ser rápido”.

Aos 33 anos, a brava Eny Moreira, advogada do escritório de Sobral Pinto (1893-1991), dirigia o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA). Greenhalgh advogava para presos políticos desde 1973, no governo do general-presidente Emilio Garrastazu Médici, o mais brutal dos ditadores, ao lado de Costa e Silva. Ele coordenou a seção paulista do CBA.
Eny Moreira sugeri a retirada paulatina dos processos do STM para copiá-los. Uma portaria permitia que os advogados dos presos políticos podiam pegar os processos, mas tinha de devolvê-los no dia seguinte. Por isso a advogada sugeriu que fossem “xerocados”.
De cara, Eny Moreira sugeriu que os processos prioritários deveriam ser o da Ação Libertadora Nacional (ALN), do capitão Carlos Lamarca, da Guerrilha do Araguaia/PC do B, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e da Ação Popular (AP).
Coragem! disse dom Paulo Evaristo Arns
Cedendo às “pressões” de Eny Moreira, Greenhalgh ressalvou que o projeto precisava de estrutura e dinheiro. Por isso o advogado decidiu procurar o arcebispo dom Paulo Evaristo Arns, da Arquidiocese de São Paulo.

Dom Paulo Evaristo Arns denunciava os crimes da ditadura, com frequência; por isso, Eny Moreira “sugeriu que fosse consultado sobre o projeto”.
Consultado por Greenhalgh, dom Paulo Evaristo Arns deu apoio à operação Xerox. “Podem começar a montar o time. Coragem! Coragem!”, clamou o religioso.
Dom Paulo Evaristo Arns sugeriu que Greenhalgh conversasse com o pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil Jaime (James) Wright, que era ligado ao Conselho Mundial de Igrejas (CMI). “Ele pode ajudar a conseguir recursos”, disse o líder católico. Era “o dom Paulo dos evangélicos”. Seu irmão Paulo Stuart Wright, militante da Ação Popular (AP), foi assassinado no DOI-Codi de São Paulo, em 1973.
Audaciosa, Eny Moreira, ao procurar o Conselho Mundial de Igrejas, já havia ouvido a sugestão para procurar Jaime Wright no Brasil.
Na Suíça, Eny Moreira pediu o apoio do pastor Charles Harper, diretor do Programa de Direitos Humanos para a América Latina.

Harper disse para a advogada: “Escreva um projeto, mas use linguagem metafórica. Coloque no papel uma previsão de prazo e de custos e busque o aval de dom Paulo e do reverendo Jaime Wright. Peça uma carta a dom Paulo. Com isso em mãos, falarei com o Philip”.
Philip Potter, pastor metodista, era secretário-geral do Conselho Mundial de Igreja.
Organizada e eficiente, Eny Moreira escreveu o projeto, que ganhou o título de Testemunhos Pró-Paz. Ele foi lido cuidadosamente por Charles Harper e Philip Potter.
Philip Potter disse para Charles Harper: “O brasileiro está aí? Vê o que ele diz”.
O brasileiro Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde do governo do presidente Lula da Silva, Alexandre Padilha) era funcionário do CMI e ligado à Igreja Metodista. Preso e torturado, escapou do Brasil e foi viver na Europa. Havia sido membro da AP.

Anivaldo Padilha disse a Chuck (Charles Harper): “O projeto é muito relevante. Se pudermos apoiar, vamos apoiar”.
Financiamento do Brasil: Nunca Mais
O apoio financeiro do CMI ao projeto deveria ser clandestino. A Igreja Católica, esclareceu dom Paulo Evaristo Arns, ajudaria, mas não teria como fornecer dinheiro.
“Philip e Chuck deram o aval para que os recursos fossem captados junto às entidades cristãs por meio de um fundo não específico, descrito apenas como um fundo para patrocinar ações de direitos humanos no Brasil”, conta Camilo Vannuchi.
“Os recursos — não contabilizados — viriam de entidades religiosas de países como França, Inglaterra, Holanda, Suécia, Dinamarca e Alemanha. O projeto Testemunhos Pró-Paz não apareceria em nenhuma planilha”, relata Camilo Vannuchi. “Os aportes seriam feitos em moeda corrente, sempre em espécie.”
O homem-caixa era Jaime Wright. Ele buscava o dinheiro na Europa e o trazia na cueca. Chegando ao Brasil, avisava à turma do projeto: “Os chocolates chegaram”. Foi assim durante os cinco anos do projeto. Era hora de começar a Operação Xerox.

A missão de Eny Moreira incluía os advogados Sobral Pinto, como consultor, Heleno Fragoso, Bento Rubião, Rosa Cardoso e Hélio Silva.
Dom Paulo Evaristo Arns disse a Eny Moreira que a Igreja Católica, no caso ele mesmo, iria “dar suporte e guarida”. O religioso exigiu que a sede do projeto deveria ser em São Paulo. A advogada queria que fosse no Rio de Janeiro, onde morava. Venceu o arcebispo.
Dom Paulo Evaristo Arns sugeriu que os trabalhos do grupo fossem coordenados por Paulo Vannuchi, que, quadro da ALN, havia sido preso e torturado.
Aliada de dom Paulo Evaristo Arns, madre Cristina (Célia Sodré Dória) cedeu um espaço no Instituto Sedes Sapientiae para o grupo trabalhar.
Operação Xerox e o adolescente Avel de Alencar
Precisando de alguém para fotocopiar os processos do STM, o advogado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas (Sig) contratou o adolescente Avel de Alencar, de 17 anos, a pedido do militante comunista Avelino Alencar.

O endereço da sala em que os processos do STM eram copiados ficava no Setor Comercial Sul, quadra 1, no Edifício Ceará, em Brasília.
Eram duas as máquinas copiadoras. O outro jovem pediu para não ter seu nome revelado.
Avel de Alencar assustou-se quando viu a foto de um cadáver e por isso começou a ler os inquéritos.
Assombrado, Avel de Alencar disse a Sigmaringa Seixas: “Que porra é essa que a gente está xerocando?”
O advogado explicou e Avel de Alencar, que era da juventude comunista do PCB, disse: “Doutor Sig, então agora o senhor trate de trazer mais processos a cada semana, porque nós vamos trabalhar é dobrado”.
O material copiado por Avel de Alencar e pelo colega era levado para a Arquidiocese de São Paulo e para o escritório de Greenhalgh.
Num dos processos, Avel de Alencar encontrou medalhas de Luiz Carlos Prestes. Levou-as para o pai, Avelino, e pediu que as entregasse ao amigo. Prestes ficou surpreso.
Cartas de amor eram encontradas por Avel de Alencar nos processos. Mesmerizado, passou a enviá-las para os destinatários.

Anos depois, a revista “Bundas” publicou uma crônica de Eduardo Galeano, autor de “As Veias Abertas da América Latina”, contando a história de Avel de Alencar. O texto figura no livro “Bocas do Tempo” (L&PM, 353 páginas, tradução de Eric Nepomuceno), publicado no Brasil.
“Em três anos de trabalho clandestino, Avel fotocopiou 1 milhão de páginas”, narrou Eduardo Galeano.
A fonte havia sido revelada ao escritor uruguaio pelo repórter Lawrence Weschler, que, a pedido, decidira não publicar o nome de Avel de Alencar.
Uma sala do Sedes Sapientiae em São Paulo estava abarrotada de estantes com as páginas de processos retirados do STM por Sigmaringa Seixas e reproduzidas por Avel de Alencar e um colega, em Brasília.
Mais pessoas — Leda Corazza (socióloga), Carlos Lichtsztejn (da ALN), Vanya Sant’Anna (socióloga), Ana Maria Machado (historiadora da USP), Sônia Hipólito e Alice Yamaguchi (advogada) — foram agregadas à condução dos trabalhos.

A quantidade de documentos era imensa. Por isso, a missão de Ana Maria Camargo era sistematizar a documentação. Com Vanya Sant’Anna, a historiadora implantou “os primeiros protocolos de como lidar com aquele material”.
Com o apoio de Paulo Vannuchi, Carlos Lichtsztejn e Sônia Hipólito “ficaram encarregados de mergulhar no conteúdo dos processos e investigar o que havia de importante em cada um”.
Camilo Vannuchi sublinha que, nos processos, “havia as provas necessárias para demonstrar a degeneração de todo o aparato repressivo em que se apoiava a manutenção dos próprios militares no poder. Sobretudo, a tortura estava presente nos” documentos do próprio governo. “Uma tortura estrutural e sistemática.”
A partir de meados de 1982, o grupo voltou-se “essencialmente” para a sistematização dos “relatos de tortura”.

Com a suspeita de que estavam sendo espionados, os organizadores do Testemunhos Pró-Paz retiraram os documentos do Sedes Sapientiae e levaram para a Paróquia Nossa Senhora Mãe da Igreja, com o apoio do padre Pedro Curran, amigo de Greenhalgh. Lá de dez a 15 pesquisadores examinavam os documentos, todos os dias.
Os documentos incluíam relatos assombrosos sobre a tortura de José Milton Ferreira de Almeida, Ivan Valente, Criméia Alice Schmidt de Almeida (torturada grávida de oito meses), César Augusto Teles, Renato Leone Mohor, no DOI-Codi.
A jornalista Miriam Leitão foi torturada (grávida de sete meses) em Vila Velha, no Espírito Santo. Colocaram a jovem de 19 anos numa solitária, junto com uma cobra jiboia. Dulce Chaves Pandolfi foi torturada e, depois, colocaram um jacaré em cima de seu corpo desnudo.

Neide Richopo, Marcus Costa Sampaio, Carlos Victor Alves Delamônica, Roberto Ribeiro Martins e Leopoldina Brás Duarte denunciaram a tortura e o assassinato de Alexandre Vannuchi, em março de 1973.
Bendito computador e microfilmagem
Em 1982, o grupo do Testemunhos Pró-Paz decidiu usar computadores para “sistematizar todos os dados em planilhas digitais”.
Chefe da área de informática médica do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor), Cândido Pinto de Melo — era paraplégico (levara um tiro) — foi convocado para coordenar o projeto. Com dois computadores (um TK85 e um CP 500 da Prológica), instalados no Colégio Madre Alix, das cônegas de Santo Agostinho, o especialista e Carlos Lichtsztejn organizaram os dados.
As pessoas envolvidas na organização dos documentos — mais de 1 milhão de páginas — tinham medo que a ditadura descobrisse a operação. Por isso foi providenciado “um gigantesco back up”.

Jaime Wright recomendou a microfilmagem de todas as páginas e o envio dos rolos para Genebra, na Suíça.
Ana Maria Camargo conseguiu emprestado um equipamento de microfilmagem. Zé do Egito, adolescente de 17 anos, fez treinamento na USP e, durante dois anos, microfilmou os 707 processos do STM.
Os microfilmes eram levados para Genebra por Jaime Wright em malas ou sapatos. No Brasil, os documentos mudaram mais uma vez de endereço, agora para um salão no prédio do Seminário Central do Ipiranga. Porque suspeitou-se, mais de uma vez, de espionagem.
Quatro anos e meio depois (os trabalhos começaram em janeiro de 1980), Eny Moreira e Greenhalgh apresentaram “os resultados preliminares a Dom Paulo e Jaime Wright. Os 707 processos renderam quase 1 milhão de páginas. O relatório ficou com 6.970 páginas. Na verdade, sem índice e anexo, o relatório tinha 5.200 páginas.

Dom Paulo Evaristo Arns disse que ninguém iria ler mais de 5 mil páginas. O arcebispo ordenou: “Vocês precisam fazer uma síntese da síntese. Essa pesquisa precisa virar um livro de 300 páginas”.
O arcebispo chamou o jornalista Ricardo Kotscho para uma conversa, com a participação de Jaime Wright, Greenhalgh, Paulo Vannuchi e Frei Betto.
Ricardo Kotscho e Frei Betto sabiam das coisas, por isso ficaram boquiabertos quando foram informados do que havia sido feito na surdina, entre Brasília, São Paulo e Genebra.
Dom Paulo Evaristo Arns intimou — é a palavra — Ricardo Kotscho e Frei Betto para escrever o livro em seis meses. A coordenação editorial seria de Paulo Vannuchi e a supervisão de Greenhalgh.
Repórter da “Folha de S. Paulo”, Ricardo Kotscho tinha duas filhas pequenas e ficou com medo de aceitar a incumbência do cardeal. “Sou meio medroso.” Acabou aceitando: “Não se diz não a um cardeal”.
Ao redigir o livro, sintetizando as histórias, Ricardo Kotscho ficou assustado. “Acordava durante a noite, tinha pesadelos, ouvia gritos.” Frei Betto escrevia rápido.
Ricardo Kotscho e Frei Betto receberam a orientação de que “o texto não poderia carregar nas tintas nem emitir juízo de valores. Tinha de ser um texto descritivo, nunca opinativo. (…) Por mais cruel e ultrajante que fosse a tortura, o rigor com os fatos documentados, e não a indignação ou a revolta, deveria ditar o tom. Somente assim, o texto seria recebido como um relato histórico, uma síntese da verdade dos fatos”.

Os documentos — oficiais, insista-se — eram (são) fortes o suficiente.
Greenhalgh escreveu um capítulo sobre os desaparecidos políticos e Paulo Vannuchi redigiu a introdução e a apresentação do livro e copidescou os textos de Ricardo Kotscho e Frei Betto.
O prefácio, assinado por dom Paulo Evaristo Arns, foi escrito por Paulo Vannuchi.
O trabalho da equipe ganhou o nome de Projeto B (o relatório maior, em 12 volumes, era o Projeto A).
Inspiração argentina para o Brasil: Nunca Mais
A ditadura na Argentina, que matou cerca de 30 mil pessoas, em sete anos, caiu em 1983. Eleito presidente, Raúl Alfonsín criou uma comissão, liderada pelo escritor Ernesto Sabato, para investigar e produzir um relatório sobre os desaparecidos. Concluído em setembro de 1984, o relatório, com 310 páginas, saiu em formato de livro com o título de “Nunca Más”.

O título argentino inspirou o brasileiro, pois era melhor do que Testemunhos Pró-Paz. Daí surgiu o “Brasil: Nunca Mais”.
Por uma questão de segurança, os autores do projeto e do livro foram mantidos, por longo tempo, sob anonimato. Só apareceram os nomes de dom Paulo Evaristo Arns e Philip Potter, autor do segundo prefácio.
Em abril de 1985, os organizadores do “Brasil: Nunca Mais” começaram a procurar editora para publicar o livro. A Editora Brasiliense, de Caio Graco Junior, não quis.
Dom Paulo Evaristo Arns entregou os originais nas mãos do diretor geral da Editora Vozes, Frei Ludovico Gomes de Castro.
Frei Ludovico repassou o material para Frei Leonardo Boff examinar. Dom Paulo Evaristo Arns repetiu seu bordão: “Coragem!”

Leonardo Boff entusiasmou-se com o projeto do “Brasil: Nunca Mais”.
O livro chegou às livrarias em 15 de julho de 1985. “Em duas semanas, o livro chegava ao topo da lista das obras mais vendidas de não ficção. Até o fim do ano, a Vozes soltaria outras oito edições”, escreve Camilo Vannuchi. “Foram 25 semanas consecutivas, o equivalente a seis meses inteiros, no topo da lista dos livros mais vendidos de não ficção — e um total de 91 semanas, um ano e nove meses, no top 10.”
O livro está na 43ª edição. Agora há uma edição de capa dura e uma edição em formato de bolso.
Em 1985, eu tinha 24 anos, era formado em História, pela Universidade Católica de Goiás, e estudava Filosofia e Jornalismo na Universidade Federal de Goiás. Lembro-me que fui várias vezes às livrarias Planalto, Cultura Goiana e Universitária para verificar se o livro “Brasil: Nunca Mais” já tinha chegado.

No dia 2 de outubro de 1985, finalmente comprei um exemplar — era a sexta edição. Comecei a ler assim que comprei e, no dia seguinte, já havia terminado. A livreira Tânia Vieira me contou que o livro vendia aos montes. “É uma febre”, disse a jovem que hoje mora na Índia.
As histórias eram assustadoras e fiquei comovido (por sinal, meu pai, Raul de França Belém, havia sido ligado ao Partido Comunista Brasileiro, PCB, ao lado de José Sobrinho). Falei, durante vários dias, com meus colegas da faculdade sobre o assunto. Emprestei o livro e fiquei apreensivo: será que a jovem amiga irá devolvê-lo? O livro de capa vermelha habita uma das minhas estantes há 40 anos. Está grifado a lápis com relativa discrição, quiçá porque a obra era por demais preciosa para mim.
“Brasil: Nunca Mais” saiu nos Estados Unidos pela Random House com o título de “Torture in Brazil”.
Os documentos do “Brasil: Nunca Mais” estão no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, graças ao professor (falecido) Marco Aurélio Garcia. Foram repassados por Jaime Wright.
Os microfilmes “foram cedidos pelo Conselho Mundial de Igrejas para o Centro de Bibliotecas de Pesquisas, um consórcio de bibliotecas universitárias com sede em Chicago, nos Estados Unidos. O material está todo digitalizado e divulgado no portal “BNM Digit@l”, desde 2013. Pode ser consultado de qualquer lugar do mundo.
Cadê os torturadores e matadores das Forças Armadas e das polícias? Um juiz condenou cinco militares e mandou prendê-los. “Ninguém foi preso. (…) Hoje, só tem dois vivos, inclusive o general [José Antônio Nogueira], que mora em Botafogo”, conta Camilo Vannuchi.
A grande Eny Moreira morreu em 2022, aos 75 anos. Também morreram dom Paulo Evaristo Arns (2016), Jaime Wright (1999) e Sigmaringa Seixas (2018).
“‘Brasil: Nunca Mais’ é apontado, por historiadores e jornalistas, “como o mais importante documento de denúncia de violação de direitos humanos praticadas pelos militares entre 1964 e 1985”, registra Camilo Vannuchi.
“A história do país deixou de ser contada só por quem vence”, disse a extraordinária Eny Moreira. “O ‘Brasil: Nunca Mais’ foi a primeira Comissão Nacional da Verdade”, assinala Greenhalgh. “Esse livro não morre. Não há a possibilidade de esse livro morrer”, sublinha Frei Betto.

“Nunca Mais”, além de livro, é um podcast feito por Camilo Vannuchi. Recomendo vivamente os dois.
Erros que não empanam a alta qualidade do livro
Há erros pontuais que não empalidecem a alta qualidade do livro de Camilo Vannuchi, mas vale corrigir na próxima edição.
O preso político alemão, na década de 1930, não era Ari Berger, e sim Harry Berger (Arthur Ewert). Ficou com problemas mentais de tanto apanhar dos torturadores do governo de Getúlio Vargas e Filinto Müller (chefão da polícia).
O sobrenome de Alexandre Vannuchi Leme é escrito de duas formas: Vannucchi (página 108) e Vannuchi (página 71).
Repete-se a informação de que Luiz Eduardo Greenhalgh tinha “sobrenome inglês”.
Na mesma página, o autor informa duas vezes que Cândido Pinto de Melo “ficou paraplégico”.
Escreve-se: “O iminente [eminente] intelectual católico padre Paul-Eugène Charbonneau” (página 119).
Camilo Vannuchi informa que a ditadura argentina, em sete anos, matou “cerca de 90 mil” pessoas (página 157). O dado mais aceito hoje são (mais de) 30 mil mortos.
O prenome de Philip Potter aparece escrito de duas formas: Philip e Phillip (página 161).

O nome de Caio Graco, editor da Brasiliense, ganha um “c” a mais — “Gracco” (página 170).
O autor do livro diz que a “Veja” publicou uma reportagem “apócrifa”, supostamente escrita por Elio Gaspari. Uma reportagem, mesmo se não for assinada, pode ser tachada de “apócrifa”, sobretudo se está publicada numa revista conceituada, como a da Editora Abril? Talvez não. O texto, no caso, tem autoria — é da revista. Portanto, não é apócrifo.
A reportagem da “Folha de S. Paulo” sobre o livro, por não ser assinada, é apresentada como “apócrifa”, termo, sem dúvida, forte. Se há uma autora — a “Folha” — não se deve usar o termo “apócrifa”. Filigranas? É provável.
O sobrenome do escritor argentino Ernesto Sabato aparece com acento — “Sábato”.
De resto, o livro merece ser lido e relido. As escolas deveriam comprar exemplares para colocar em suas bibliotecas. Tenho a impressão de que a meninada correrá para o podcast (https://tinyurl.com/ms9nkb6b) — o que também é positivo. Ótimo narrador, Camilo Vannuchi escreveu um livro tão importante quanto doloroso. Imprescindível.
[Email: [email protected] — WhatsApp: 62-99973-9629]

