Probidade (Master e INSS) pode desbancar segurança na disputa pela Presidência da República
07 março 2026 às 21h00

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Segurança pública será um dos temas da campanha de 2026. É incontornável. Porque as máfias patropis — Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho — se instalaram em todo o país. Em São Paulo, o PCC já pode ser chamado de Primeiro Comando do Estado — tal a sua força local. Assim como o CV — no Rio de Janeiro e outras regiões —, está se tornando um Estado paralelo.
A violência no país tem a ver, em larga medida, com ações do crime organizado. O mercado das drogas — o narcotráfico — gera conflitos permanentes. PCC e CV entram em guerra pela disputa de espaço e também com as polícias estaduais. Daí as matanças frequentes — inclusive de autoridades policiais.
Ao mesmo tempo, o crime se tornou de fato organizado. Trata-se de um empreendimento poderoso, com atuação em várias áreas (postos de combustíveis, aliança com instituição bancária, como o Banco Master, concessionárias de automóveis, distribuidoras de bebida etc.

O PCC se aliou à máfia calabresa, a ‘Ndrangheta, e opera em vários países — inclusive na Europa. A máfia italiana parece ter contribuído para sofisticar a lavagem de dinheiro do crime organizado do país, notadamente do Primeiro Comando da Capital.
Então, a segurança está na ordem dia. O Brasil é um dos países da América Latina que mais segregam seus moradores em condomínios horizontais — fechados. As cidades — como Goiânia, São Paulo, Anápolis, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, para citar algumas — estão se tornando cidades-feudais, cercadas por muros altos, com cercas elétricas, e protegidas por vigilantes armados. De qual “guerra” se espera escapar?
A segregação patrocinada pelos ricos e classes médias isola, cada vez mais, os pobres — os desprotegidos. Busca-se uma sociedade estamental?
Ressalve-se que, em alguns Estados, como Goiás, há uma política de segurança eficiente e, por isso, o crime organizado é combatido com tenacidade.
Entretanto, na maioria dos Estados, o crime organizado está à solta — livre para atormentar as pessoas. Por isso, não há dúvida: segurança será um dos principais temas das eleições deste ano. Elas vão acontecer daqui a seis meses e 27 dias. Na verdade, não há campanha oficial, mas há campanhas informais em todos os Estados. Portanto, a segurança já está na ordem do dia.

A hora e a vez da probidade
Mas outro tema, que andava meio “esquecido” (ma non troppo) — dadas as acomodações de praxe da sociedade (depois de um período de crise intensa, como no caso da Operação Lava Jato, entra-se num clima de calmaria) —, está voltando (ou seguindo) com força. Trata-se da questão da probidade administrativa e pessoal.
Então, dois temas devem galvanizar os eleitores, até o dia 4 de outubro deste ano, o dia da votação: segurança e probidade.
Tudo indica que as revelações do caso Banco Master estão apenas no começo. Há muito por contar e divulgar. A contaminação deve ser generalizada. Integrantes do Centrão, da esquerda e da direita têm algum envolvimento no caso.

O senador Ciro Nogueira; o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha; o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e o deputado federal Arthur Lira têm sido citados nas investigações feitas pela Polícia Federal, agora com apoio decidido do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Ministros do próprio STF, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, têm sido mencionados como tendo relações com o poderoso chefão do Banco Master, Daniel Vorcaro — que está se revelando um gângster violento, como Michael Corleone, e perigoso. Mandou a “turma” de Sicário, um pistoleiro, surrar o jornalista Lauro Jardim, de 63 anos, e quebrar todos os seus dentes. Sicário teria ameaçado outras pessoas.
Não se sabe ainda toda a extensão dos vínculos de Daniel Vorcaro com políticos — como o indefectível Ciro Nogueira — e magistrados. Mas há envolvimento e muito a revelar.

O ex-ministro Guido Mantega, um dos militantes históricos do PT, levou Daniel Vorcaro ao presidente Lula da Silva. Aparentemente, o ministro da Fazenda do governo da ex-presidente Dilma Rousseff agiu como lobista.
Na extrema direita, o deputado federal Nikolas Ferreira — o príncipe do bolsonarismo em Minas Gerais e no país — usou jato do banqueiro fajuto mas bilionário. Alugou um avião de Daniel Vorcaro? Mas por que logo a aeronave do dono do Banco Master? Por que não precisaria pagar pelo uso?
Ibaneis Rocha se prepara para deixar o governo do Distrito Federal, no dia 4 de abril, para disputar mandato de senador. Mas há indícios de que está se tornando carta fora do baralho. Tanto que o bolsonarismo já o descartou e deve lançar para o Senado Michelle Bolsonaro e a deputada federal Bia Kicis. O que se diz em Brasília é que ninguém é mais radioativo do que o gestor emedebista. Aliados temem que, se deixar o governo, tenha sua prisão decretada. Dada sua ligação com Daniel Vorcaro e os negócios do BRB com o Banco Master.

O escândalo do Banco Master resistirá por seis meses? É provável. Porque há desdobramentos e delações premiadas a serem operadas.
Persiste o clichê de que a República vai “cair” se Daniel Vorcaro fizer relação premiada. Mas precisa? Sem falar — ou melhor, seus celulares estão “falando” —, a Polícia Federal está conseguindo farto material.
A rigor, a República nunca cai, mas fica, de fato, abalada. Se comprovado envolvimento efetivo — por enquanto, há mais grita e indícios — de ministros do Supremo, do inexpugnável STF, aí a República vai ficar com a imagem bem arranhada. Porque, dos políticos, os brasileiros esperam tudo — menos retidão moral.
Diz-se que a imprensa é o quarto poder. Pois Daniel Vorcaro conseguiu corromper jornalistas — um deles ex-repórter da “Veja” e ex-editor da revista “Época” —, ao menos dois sites e vários influencers. O quarto poder, em parte, está de quatro. Ou esteve.

Careca do INSS, Lulinha e proteção
A corrupção no INSS também vai abalar — já está abalando — a República. O golpe contra aposentados e contra o Erário tem uma série de envolvidos, como Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Um irmão e um filho do presidente Lula da Silva — Frei Chico (José Ferreira da Silva) e Lulinha (Fábio Luís Lula da Silva) — são citados com frequência no escândalo do INSS. Problema, aliás, que não “começou” no governo de Lula da Silva, e sim no do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas não cessou na gestão do petista-chefe.
O mais enrolado é Lulinha? As investigações estão em curso e a Polícia Federal parece que não opera para protegê-lo. Mas há indícios de que se opera um cerco para que não seja investigado com o devido rigor. O cerco envolve desde parte do STF quanto a esquerda no Congresso? Tudo indica que sim.

O fato é que, qualquer que seja o resultado das investigações, Lulinha vai levar, para a campanha de Lula da Silva, o tema da corrupção. O presidente será cobrado, nos programas eleitorais e, sobretudo, nos debates a respeito das relações do filho com os malfeitos no INSS.
Flávio Bolsonaro: rachadinha, chocolate e mansão
Há quem aponte que Flávio Bolsonaro é o mais “mafioso” dos Bolsonaros. Não no sentido de que pertença a alguma máfia, e sim de que é hábil para articular, como o personagem Michael Corleone, do filme “O Poderoso Chefão”. É mais político do que o próprio pai.

Há duas histórias mais conhecidas de Flávio Bolsonaro. Primeiro, a da rachadinha, em “sociedade” com o policial aposentado Fabrício Queiroz. O senador unca apresentou uma resposta satisfatória a respeito. Segundo, sua loja de chocolate, que dava um lucro “enorme” — aposta-se em lavagem de dinheiro —, é outro caso enigmático.
Há pouco dias, um deputado federal do PT, Rogério Correia, pediu a quebra dos sigilos bancário e fiscal de uma corretora de seguros ligada a Flávio Bolsonaro. Comenta-se que a empresa Camilo & Antunes Limited teria sido usada para adquirir imóveis de alto valor (uma mansão em Brasília, por exemplo). Lavagem de dinheiro? É o que se diz. Mas não há nada comprovado. Só que vai aparecer na campanha para desgastar a imagem do pré-candidato a presidente pelo PL.
Diz-se que chumbo trocado não dói. Até pode ser. Mas os eleitores podem desistir tanto de Lula da Silva quanto de Flávio Bolsonaro e buscar uma alternativa.

