No último dia de março, a crítica literária e tradutora Dirce Waltrick do Amarante, publicou um artigo, sob o título de “A nova hora da estrela: o que define, hoje, um sucesso literário”, que, apesar de merecer, não provou nenhum debate, aparentemente.

Waltrick do Amarante começa informando que a escritora argentina Samanta Schweblin lançou o livro “O Bom Mau” na Casa da Literatura de Zurique. A obra foi publicada pela prestigiosa Suhrkamp Verlag (a tradução patropi saiu pela Fósforo, com tradução de Livia Deorsola).

A crítica espanta-se com o fato de que os livros de Samanta Schweblin tenham sido “traduzidos para mais de 40 idiomas”. Para uma autora de 48 anos, da periferia global (ainda que more na Alemanha, escreve em espanhol), é, de fato, surpreendente.

Samanta Schweblin: escritora argentina radicada na Alemanha | Fotos: Jornal Opção e reprodução

Duas expoentes do fantástico latino-americano, Silvina Ocampo (1903-1993), argentina, e Leonora Carrington (1917-2011), inglesa que morou no México, não têm o mesmo espaço de Samanta Schweblin, que mora em Berlim. Seus contos são também interessantemente “estranhos”. A mexicana Elena Garro também merece ser lembrada.

Waltrick do Amarante nota que livros de Silvina Ocampo (“A Fúria” e “As Convidadas”) e Leonora Carrington (“Um Conto de Fadas Mexicano e Outras Histórias”, traduzido pela crítica sulista) circulam nas livrarias brasileiras.

Entretanto, nem Silvina Ocampo nem Leonora Carrington têm o mesmo destaque na imprensa patropi. “Nada se compara ao destaque dado a Schweblin na imprensa local toda vez que ela lança um novo livro em português”, assinala Waltrick Amarante.

Silvina Ocampo, jovem, e a capa de seu livro de contos | Foto: Jornal Opção e Reprodução

A crítica não menciona quais são os proprietários da Editora Fósforo, que publica a obra de Samanta Schweblin no Brasil. Sócia da “Folha de S. Paulo”, do UOL, uma das fundadoras da revista “451” e dona da Livraria Megafauna, Fernanda Diamant é sócia da casa editorial.

Por sinal, Fernanda Diamant faz um belo trabalho na área cultural, tanto com a livraria quanto com a editora. A “451” é uma publicação importante, que alterna altos e baixos.

“O que explicaria esse tipo de fenômeno literário, que transforma em celebridades mesmo que não tem uma vasta produção nem se sobressai pela excelência estética?”, pergunta Waltrick Amarante. “O fato é que nem a obra de Ocampo nem a de Leonora Carrington foram traduzidas para tantos idiomas como a dessa escritora contemporânea.”

A crítica ressalta que Hilda Hilst (1930-2004) e Clarice Lispector (1920-1977) “escreveram obras-primas na área da narrativa breve, o magistral ‘Teologia natural’ [da primeira] e ‘A menor mulher do mundo’” (da segunda).

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Leonora Carrington: escritora inglesa que se radicou no México | Foto: Reprodução

Clarice Lispector não foi, porém, traduzida para 40 línguas, ainda que esteja “se tornando uma referência literária global”. Waltrick do Amarante assinala que, apesar de suas qualidades como poeta e prosadora, “Hilst tem uma divulgação internacional modesta”.

“Estamos perdendo a capacidade de ver o valor histórico das obras, sem falar que não conseguimos mais inseri-las num amplo quadro de referências que possa orientar o juízo dos leitores sobre a relevância delas. Sem esse embasamento, todo lançamento retumbante acaba sendo considerado como ‘a última grande obra’ da literatura contemporânea”, pontua, com extremo acerto, Waltrick do Amarante (notável tradutora de James Joyce).

Citada por Waltrick do Amarante, a escritora americana do norte Ursula K. Le Guin (1929-2018), autora do ensaio “A teoria da bolsa de ficção”, enfatiza “a importância de conhecermos a história da ficção, a fim de encontrarmos um ‘novo’ caminho, sabendo, é claro, de onde partimos”.

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Hilda Hilst: prosadora e poeta brasileira | Foto: Reprodução

Waltrick do Amarante ressalva que não está sugerindo que “a ficção de Schweblin seja ruim, apenas não é surpreendente, se comparada à de suas antecessoras”.

Autora de “Interferências — Censura, Apagamento e Outros Temas Contemporâneos”, Waltrick do Amarante afirma que “hoje, o que conta é que o escritor esteja fisicamente presente nos lugares que dão visibilidade — algo que, de fato, faz muita diferença, já que eventos culturais impulsionam o interesse por um livro, seja ele bom ou não. Na cultura do espetáculo conta quem aparece mais e melhor, e, na medida do possível, sempre ao lado de outras celebridades”.

Nas feiras literárias, por exemplo, há filas de caçadores de autógrafos (que parecem mais importantes que os livros em si). Quanto maior a fila, mais atesta-se a celebridade — portanto, a “relevância” dos escritores.

Entre Stendhal e Flaubert, que dormitam humildes em bancadas e estantes de livros, e as celebridades da hora — a personalidade deles parece mais importante do que suas literaturas —, como Michel Houellebecq, Emmanuel Carrère e Édouard Louis, relega-se ao esquecimento “O Vermelho e o Negro” e “A Educação Sentimental”.

Clarice Lispector é apontada, por Elizabeth Bishop, como grande contista, da linha do russo Tchékhov

Os leitores “fabricados” pelas mídias — com forte apoio das editoras — desconhecem que há uma história literária e que autores do passado, como os dois citados, podem e costumam ser muito mais revolucionários, em termos literários, que os, digamos, “pós-modernos”.

Um bom leitor certamente ficará corado (sim, de vergonha) se tiver lido Houellebecq, Carrère e Édouard Louis, para ficar na moda, e, na sequência, vasculhar a prosa dos dois gênios do século 19, que permanecem atualíssimos, como Proust e Joyce. Perceberão que alguns escritores “atuais” são meninos perto dos adultos do passado. Um passado que, em termos de literatura, está mais vivo do que nunca.

O romance “Madame Bovary”, por exemplo, parece ter sido escrito ontem. Flaubert, com sua literatura precisa, corre nas veias abertas de prosadores como Mario Vargas Llosa e Agustina Bessa-Luís (cujo belíssimo romance “Vale Abrahão” é uma releitura da obra que conta a história de Emma Bovary e, de alguma maneira, da própria literatura).

“No século passado, Make it new significativa repensar a arte a partir do que já havia sido feito, a fim de fazê-la trilhar novos caminhos criativos. Hoje talvez o slogan seja outro: Make it news, ou seja, transforme isso em notícia, independentemente de seu valor estético”, pontua Waltrick do Amarante.

A crítica nota que há uma “constelação de estrelas que surgem e se apagam enquanto o mercado editorial ininterruptamente lança obras que consolidam ou seguem a última tendência”.

Waltrick do Amarante não está dizendo que não se deve ler as coisas ditas “novas”, e sim que há uma história da literatura. Há autores atuais que, embora apresentados como “grandes”, são, não um avanço, e sim um recuo literário. Mas a mídia cria “gênios” instantâneos, numa parceria com editores espertos e atentos. Afinal, é preciso vender e, daí, sobreviver.

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